Divergências familiares são um prato cinematográfico forte no género de drama. São incontáveis as obras que apresentam irmãs divididas face a um dilema, tantas delas até sob a sombra de um homem de poder.

E se lhe se juntasse espiritismo? Eis o tema de Planetário, uma produção franco-belga antestreada nos festivais de cinema de Veneza e Toronto, que chega esta semana às nossas salas.

Laura (Natalie Portman) e Kate Barlow (Lily-Rose Depp) são duas irmãs americanas com o dom de invocar os mortos. Em digressão de séances pela Europa dos anos 30, numa passagem por Paris captam a atenção do dono de um estúdio de cinema, Andre Korben (Emmanuel Salinger). Enfatuado com as habilidades das Barlow, tem uma epifania: captar uma presença paranormal em fita é aquilo que pode vir a revolucionar o negócio cinematográfico. São então convidadas as irmãs a virem morar no seu antro de luxo. Aí, depressa se forma um triângulo tóxico, entre o oportunismo de Laura, a obssessão de Andre e a inocência de Kate.

Posto simplesmente, Planetário é um filme doloroso de ver, e não particularmente pelo dramatismo da trama. A incompetência da realização de Rebecca Zlotowski, em obter um mínimo ponto de interesse em toda a fita, é gritante por demais. Há aqui uma narrativa com múltiplas e boas saídas possíveis a cada cena, e é desconcertantemente incrível que o filme consiga fugir de todas, culminando em quase duas horas de desencontro emocional que mais parecem seis.

Se falarmos do trio protagonista, este nunca chega à inquietação sentimental pretendida, todos os elementos parecem estar, cada um, num filme diferente. Ainda assim, Portman é o único grande ponto positivo de toda a fita. Laura nunca chega sequer a ser uma personagem cativante, é toda uma incompreensão, não é claro o que a move nem porquê. Portman, no entanto, lá mete a serviço o seu esforço de a humanizar o suficiente, tornando-se como que um farol para este naufrágio cinematográfico.

Já Depp claramente não herdou de todo o talento do pai, nem uma fração do da mãe, Vanessa Paradis. A entrega das suas falas é completamente seca e estéril, e a situação só não é mais dramática por Kate acabar a ser mais secundária do que ao início se suporia.

Quanto a Sallinger, nota-se alguma motivação em Andre, mas a personagem é incrivelmente cega, ao ponto de o próprio ator desistir numa última cena, com intenção de ser trágica, mas que acaba sendo, não intencionalmente, hilariante.

Existem em Planetário também outras vertentes, não merecedoras de descrédito. Há um esforço palpável por recriação de época e da noite parisiense, e aí a fita de Zlotowski tem o seu mérito. A cinematografia e banda-sonora são bons suportes, mais que competentes.

Contudo, Planetário, mais que uma experiência excruciantemente enfadonha, nunca deixa de ser um exercício de futilidade. Em toda a sugestão de um triângulo de interesses e do espiritismo, algures poderia haver um grande filme, tantas que são as oportunidades da narrativa e as potencialidades do universo retratado; o resultado final, infelizmente, é um quase intragável pastel.

No meio de tudo, o mais revoltante é Zlotowski não conseguir sequer dar motivo ao título da sua obra. Nem isso, nem tão pouco captar a aura de uma séance.

Um desperdício.


3/10

Título original: Planetarium
Realização: Rebecca Zlotowski
Argumento: Rebecca Zlotowski, Robin Campillo
Elenco: Natalie Portman, Lily-Rose Depp, Emmanuel Sallinger, Amira Casar, Louis Garrel
Género: Drama, Fantasia, Mistério
Duração: 105 minutos