Se existe uma coisa que valorizamos em pleno século XXI é a liberdade de escolha: o poder de decisão na construção das nossas vidas. Quando existe algo que não está de acordo com os nossos planos ou desejos, temos a capacidade (e dizem a vontade!) de tentar alterar a situação. Foi isso mesmo que Harry Styles fez.

O ex-membro do fenómeno mundial One Direction (cuja continuidade ou não ainda está por esclarecer) enveredou por um caminho a solo, assim como muitos outros fizeram antes de si – veja-se o caso de Robbie Williams, com os Take That.  Seguindo o caminho dos seus exmates (Zayn Malik e Niall Horan), Harry procurou afirmar-se como uma entidade individual no mundo da música.

No verão de 2016, foi confirmada a assinatura de um contrato entre o jovem britânico e a Columbia Records. Depois do lançamento de dois singlesSign of the Times e Sweet Creature – e a apresentação ao vivo de outras duas músicas, chega-nos, finalmente, Harry Styles, a estreia em nome próprio.

Um sinal dos tempos

O álbum inicia-se com a faixa Meet Me in the Hallway, que é, efetivamente, uma antevisão daquilo que nos reserva o resto do LP, uma forte aposta na guitarra acústica. Num tom contrastante, ouvimos uma bass line bem definida, mas simples, tal como a voz de Styles. Suplicante e ansioso deseja que as coisas melhorem e que de alguma forma funcionem no final. E olhem que até funcionam.

No seguimento de um tema completamente novo, surge-nos Sign of the Times. Partilhada no início de abril, apresentada ao vivo em talkshows, valeu a Styles uma comparação com David Bowie – que não é totalmente descabida -, é já bem conhecida dos maiores fãs e seguidores.

Inicialmente, marcada apenas pela cadência de um piano e uma voz bem calma, sem ser de todo tímida, somos levados num crescendo até ao refrão, em que Harry se demonstra um todo-poderoso. A sua voz elevada quase ao extremo das suas capacidades, pois o melhor está guardado para o fim. Lentamente, Styles guia-nos até à apoteose desta balada, que é tão bem servida por uma guitarra elétrica e uma capacidade vocal irrepreensível.

Carolina é a música que não podia faltar sobre “aquela” rapariga que lhe dá a volta à cabeça. Com uma sonoridade que é, claramente, influenciada pelo folk rock dos 60’s, este é, na minha opinião, um dos momentos mais dispensáveis deste longa-duração, que chega a tornar-se irritante.

De seguida, somos confrontados com Two Ghosts, que dizem ser sobre Taylor Swift, a ex-namorada de Styles. Apesar de não se assemelhar a Carolina na forma, revelando, novamente, uma humildade que Harry deseja afirmar, peca por uma posição anti exuberância forçada. Se, por outro lado, estão a passar por um desgosto amoroso, adicionem-na à vossa playlist.

Homenagem aos oldies

Sweet Creature ou Blackbird? Neste tema, voltamos a sorrir. É uma clara homenagem de Styles aos Beatles e, por sinal, muito bem conseguida. Assim como o tema do quarteto fantástico britânico, Sweet Creature apresenta-se apenas com uma guitarra acústica e a voz angelical de Harry. Realmente são “two hearts in one home”.

Primeiro acalma, depois atormenta, no bom sentido. Only Angel é o expoente máximo de veneração ao rock ‘n’ roll, neste disco. É-nos dado o som da guitarra elétrica tão bem rasgada, uma bateria sólida e uma voz triunfante, que nos momentos mais exuberantes oferece uns gritos, à boa moda antiga dos anos 70.

Elvis? Is that you? É a isso que soa o início de Kiwi, a faixa que se segue. Um pouco na onda da Blue Jean de Michael Jackson, “I think she said/I’m having your baby/It’s none of your business” é Styles numa clara alusão a quando foi acusado de ter engravidado uma rapariga. Mais um momento de puro rock.

Para abrandar o ritmo, Ever Since New York é mais uma das baladas folk deste disco. A guitarra acústica e a voz de Harry destacam-se bastante, num refrão suplicante – “Oh, tell me someting I don’t already know.” De facto, o jovem dá-nos a conhecer um lado seu nunca antes explorado.

“Should we just search romantic comedies on Netflix and see what we find?” é assim que se inicia a penúltima faixa deste álbum. Woman de seu nome, soa bastante a Alabama Shakes, tanto pelo arranjo musical que integra sons de guitarra curtos e intensos entrepostos com a voz aguda de Styles, como pelos “la la la la’s” tão característicos da banda americana. É um dos meus momentos favoritos neste álbum.

Para finalizar, retomamos à simplicidade inicial com From the Dining Table, sendo apenas Harry Styles e uma guitarra acústica. Num tom claramente nostálgico, tal como a letra que entoa, somos embalados pela voz do britânico e pela calmaria da guitarra.

Este álbum é, no final das contas, o momento em que Harry Styles presta homenagem às suas inspirações musicais e aproveita para se demarcar de um território que o acolheu durante cerca de cinco anos – a pop comercial. Não são objetivos totalmente atingidos, mas também não somos confrontados com 1D 2.0

É um disco que reúne um conjunto de influências géneros musicais, naquilo que parece ser uma tentativa, um pouco tímida, de encontrar o som que o vai caracterizar. Se uns momentos são de clara homenagem aos seus ídolos (Sweet Creatures, por exemplo), existem outros, como Meet Me in the Hallway, que revelam um cunho mais pessoal. Todavia, não deixamos de notar ao longo do disco um quê de pop (principalmente nas letras). E outra coisa não seria de esperar.

Porém, a atitude tem o seu mérito, porque, apesar dos momentos menos famosos e mais entediantes deste LP, existem outros “mais alto[s] [que] se alevanta[m].De facto, existem alturas em que Styles consegue, efetivamente, mostra-nos aquilo que realmente o move, em todo o esplendor da sua voz. É uma estreia eficaz e, ao mesmo tempo, de descoberta pela sonoridade pretendida.