Aclamado como um dos melhores filmes em mostra no Festival de Cinema de Cannes de 2016, Raw tornou-se lendário pelos extremos que a sua narrativa força aos olhos da audiência. Entre desmaios e vómitos em múltiplos festivais de cinema e salas de exibição comercial, a película de Julia Ducournau ganhou um ímpeto e reputação com poucos paralelos nos últimos anos.

Exibido na secção Boca do Inferno do IndieLisboa que encerra este domingo, enfrenta-se a questão: Raw vive à altura do seu hype?

Quando Justine (Garance Marillier) chega à faculdade de veterinária, o seu introvertismo parece incapacitante. Começam então os rituais de praxe, e depressa a rapariga vegetariana por imposição dos pais (Laurent LucasJoana Preiss) se vê subjugada a uma pressão social que não consegue combater. Alexia, a irmã mais velha (Ella Rumpf), está noutra liga, e não parece interessada em defendê-la das práticas ofensivas dos seus pares. Chega então o dia em que Justine é forçada a comer rim de coelho cru. E se sempre tivera aversão a carne, Justine depressa desenvolve-lhe um apetite voraz, que pode não se vir a ficar por gado…

Ducournau, enquanto cineasta, é a definição de destemida. Existe uma essencialidade na trama a ser contada que oscila entre o sentimental e o aberrante, um frágil equilíbrio que nas mãos de um realizador menos capaz cairia por terra. Mas não com Ducournau.

Raw tem um veículo narrativo para expôr, que, ainda que sempre satisfatório, talvez seja o único ponto fraco da fita, por ser algo básico e deixar muito a dever à subtileza. Ainda assim, o mistério que a certa altura se revela oculta detalhes que merecem ao filme posteriores visionamentos, e é de louvar todo o cuidado em acrescentar gradualmente mais sumo a um argumento que só se torna mais doentio.

Já o fator choque é algo que Ducournau maneja com excelência. O exagero da brutalidade tantas vezes acaba numa sensação de camp, mas não com Raw; Raw é furioso e impassível quando chega à altura de nos revirar o estômago, e com bom jeito ainda consegue um flirt irónico com risadas de tensão da audiência, numa prova de que há aqui talento na arte de cultivar o grotesco.

Quanto a Marillier, dá uma performance sublime. Na sua estreia em cinema, Marillier capta uma transição subtil, da ansiedade e resguardo da Justine protegida pelos pais, à voracidade e desgoverno da Justine livre. Há uma força imparável na sua descida à loucura, lenta e feita de nuances subentendidas em gestos e olhares que demonstram um grande poder enquanto atriz, reminiscente de Marina de Van no também terror-choque francês Dans Ma Peau (2002).

Rumpf e Rabah Nait Oufella, secundários à prestação de Marillier, acabam também por ser dois elementos sólidos de interpretação. Se Rumpf (Alexia), encarna a personagem que mais choca em todo o filme na frente dos twists mais macabros da narrativa, Oufella (Adrien), como o colega de quarto, serve o propósito de objeto da obssessão de Justine, com uma estupefação que vai crescendo e que espelha parte da reação da audiência.

Quando Raw chega ao seu final, percebe-se que a fita já há muito transcendeu a sua reputação. A grande proeza do filme de Julia Ducournau é em definitivo a maneira como encontra um meio-termo satisfatório entre a violência e a narrativa, criando uma história de terror humano que, não importa o quão obnóxia se vai tornando, nunca aparenta ser menos que sincera.

Raw triunfa quando ultrapassa qualquer ambição de fácil choque, quando paradoxalmente fala mais alto com as baratas emoções que traz à baila. Tudo para culminar numa das mais desavergonhadas depravações cinematográficas dos últimos anos.

Não dá para desviar o olhar. E nem queremos.


8/10

Título original: Grave
Realização: Julia Ducournau
Argumento: Julia Ducournau
Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas, Joana Preiss
Género: Drama, Terror
Duração: 99 minutos