Alien: Covenant – A moralidade do andróide

Já perto do terceiro ato de Alien: Covenant, chega determinada cena, liderada somente por Michael Fassbender, que fica como a mais marcante de todo o filme. Walter, o andróide tripulante da Covenant, vê-se encurralado na sua dualidade entre serventia por dever e experiência emocional. Há somente Fassbender, de expressão assertiva, fria, finalmente a enfrentar a identidade que pode ou não ter. A assertiva frieza, como expressão máxima do poderio de uma grande interpretação.

Fassbender tem-nos acostumado a grandes performances – quer estejamos a falar da delusão do Brandon de Vergonha (2011), da malvadez do Edwin Epps de 12 Anos Escravo (2013), da prepotência do personagem homónimo de Steve Jobs (2015), entre tantas outras – e o que nos dá em Alien: Covenant não é exceção. É irónico que no regresso de uma das maiores sagas de ficção científica da história do cinema, o desempenho de um ator num corpo andróide seja o ponto alto. Só que estamos a falar de Fassbender, um dos maiores atores da sua geração, e chegado ao final de Alien: Covenant acabamos a refletir. Mais do que o filme a ele lhe pertencer, em cinema há uma verdade maior: não há espetáculo CGI que possa roubar o lugar de um grande ator.

Foi em 2012 que o mundo cinéfilo foi tomado de assalto com a estreia de Prometheus. Quinze anos depois de Alien: O Regresso (1997), a saga reinventava-se com uma prequela realizada pelo próprio Ridley Scott de Alien: O 8.º Passageiro. Era um blockbuster inspirado, cuja mística estava na força dos tantos mistérios que lançava, nas perguntas que ficaram por responder. Cinco anos volvidos, Ridley Scott regressa com uma nova nave, a Covenant, uma nova tripulação, um novo planeta.

A narrativa de Alien: Covenant começa em 2104, dez anos depois do falhanço da expedição Prometheus. A nave Covenant, que serve uma missão colonizadora liderada por Branson (James Franco, numa aparição não creditada), e está a caminho de um planeta ideal para a prosperidade humana, quando se dá um acidente. Morrendo parte da tripulação e Branson, Oram (Billy Crudup), um homem de fé, assume o lugar de capitão. Descoberto um planeta não antes considerado, aparentemente ainda mais propício à colonização, Oram decide alterar a rota da missão, pese muita contestação de Daniels (Katherine Waterston), a viúva de Branson. A Covenant aterra então, e ao deparar-se com uma ameaça hostil não imaginável, o desafio de fugir do planeta começa.

É estonteante ver no grande ecrã – em particular em IMAX – o planeta em que a Covenant aterra. Alien: Covenant vence em todos os aspetos mais técnicos, e fora isso, é também um blockbuster satisfatório no que toca à narrativa. Há uma quebra com o que marcou Prometheus, e um regresso às origens da série. Contudo, e se em 2012 nos sentimos defraudados com todas as pontas soltas que Prometheus deixou, é curioso que a maior fraqueza de Alien: Covenant seja exatamente a sua trama limpa e direta.

As maioria dessas perguntas ficam de parte e a história vai tomando um caminho alternativo pouco dúbio, sendo que a ausência de empenho em resolver os mistérios de Prometheus deixa a ideia de que Alien: Covenant é só uma ponte para outra sequela. O que não é de todo algo negativo, não estivéssemos a falar de um filme que oferece uma tensão e dúvida eficaz a partir do momento em que as suas personagens aterram; mas a verdade é que se sente a falta de um real efeito surpresa.

Fora o supracitado Fassbender, os restantes atores servem o seu propósito de peões num jogo com a ameaça. Nisto, ainda há espaço para Danny McBride, no papel de Tennessee, parecer um erro de casting, mas uma carreira em comédia joga contra si. Waterston como Daniels é o destaque humano da tripulação, tentando uma heroína na onda da Ripley de Sigourney Weaver e da Shaw de Noomi Rapace; contudo o enredo nunca lhe dá o protagonismo pelo qual ela grita, e a personagem acaba por não sobressair tanto como era suposto.

Chega o final da bobine e ficamos num cliffhanger negro e algo inquietante. Essencialmente, Scott não chega a desfazer o mistério da sua anterior incursão na série, e o resultado final é um Alien: Covenant que, não jogando exatamente pelo seguro, cola-se muito ao antigo padrão da saga.

Há aqui um compromisso aparente, ainda assim, entre pôr de parte todo o mistério para apostar na ação e terror primários, e explorar um elemento da narrativa que virá a ser fulcral; para selar o que ficou para trás, e para determinar o que está para vir.

Scott é um mestre em criar antecipação, e só por aí já diríamos que este filme é um vencedor.

Quanto à futura continuação, que se afigura incrível… tem tudo para o ser.


7/10

Título original: Alien: Covenant
Realização: Ridley Scott
Argumento: Dante Harper, John Logan
Elenco: Katherine Waterston, Michael Fassbender, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Carmen Ejogo
Género: Terror, Ficção científica, Thriller
Duração: 122 minutos