música a música
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Música a Música: As paixões de Rooney Mara

Filmado em 2012 e depois de quatro anos na sala de montagem, chega finalmente às salas a nova obra do contemplacionista Terrence Malick, Música a Música. E mais que uma contemplação, Música a Música é, como qualquer obra de Malick, um mergulho profundo: à psique humana, ao âmago das forças que a rodeiam.

Há aqui, pois, o estilo típico do realizador. A fotografia, de Emmanuel Lubezki, sempre de cortar a respiração: os takes, ora curtos, ora longos, sempre introspetivos, delineando moralmente as facetas dos protagonistas, cada gesto, cada alegria, cada dor. Os voice-offs reinam, já apanágio, embalo de emoções que demandam por justificação, face a eventos tantas vezes mudos. É sem palavras, no desespero daquela tela de cinema, que os atores brilham.

Existe uma beleza cinematográfica inerente a todo e cada take de Música a Música, mas a maior força chega-nos, sim, por via dos seus intérpretes. Quer falemos da ilusão da Faye de Rooney Mara, da calma do BV de Ryan Gosling, da imperiosidade do Cooke de Michael Fassbender, há uma dinâmica neste trio que se move de sofá a sofá, cama a cama, paixão a paixão.

Chegam-nos os primeiros planos, e somos logo apresentados a Faye. Uma alma cândida de mais para a paranóia em que se movimenta, o submundo da música de Austin, no Texas. E boy meets girl, girl meets boy, e Faye e BV mal se conhecem começam a amar-se. Já Cooke é o primeiro mentor de Faye naquele mundo, que há anos tira partido do seu ocasional afeto, e também um amigo poderoso para BV; e se a início o romance de Faye com este não lhe tira o sono, em breve vai instaurar a instabilidade entre os três, proporcionando dúvidas e inquietações que os levarão a repetidos afastamentos e reaproximações.

Mara é encantadora, a câmara fica enfeitiçada, e cada momento seu é um vislumbre da poderosa vulnerabilidade a que a atriz já nos habituou; logo ela, a mágoa indómita que lidera a história, de desenganos e desencontros. Gosling é todos os “eles” que já foi; há aqui o Noah de O Diário da Nossa Paixão (2004), o Luke de Como um Trovão (2012), o Sebastian de La La Land (2016), o misto de emoção torpe que o carateriza e que é o melhor de si. Já Fassbender, é o elo tóxico do trio, a força demolidora que ameaça o equilíbrio dos seus parceiros; e é Fassbender no seu absoluto melhor, perigosamente inquietante e destrutivo.

E se a nível amoroso é Cooke o elo desequilibrado do triângulo, narrativamente é-o também, infelizmente. Num contraste gritante com a tão densamente explorada intimidade de Faye e BV, Cooke a vezes que parece um personagem unidimensional, somente vivo pela infindável perturbação do desempenho de Fassbender. Falta-lhe a subtileza da caraterização que é dada aos seus pares, mas também o foco necessário para o tirar do campo do superficial.

Personagens secundárias e pobremente exploradas também são um problema em Música a Música, em particular a Rhonda de Natalie Portman e a Amanda de Cate Blanchett. Entram no fio narrativo, mas por pouco se quedam, erros amorosos que se queriam melhor detalhados. No caso de Rhonda ainda há um esforço por mantê-la viva e fazer dela um ser tridimensional (por vezes mais palpável que Cooke, até) mas o fruto raramente passa para o lado de cá.

Pelo meio, ainda há espaço para uma curta passagem de Bérénice Marlohe como Zoey, talvez a menos explorada das três amantes do trio principal e, ainda assim, a mais magnetizante de todas elas. Há um quê de exótico e intrigante que prende em Marlohe, já antes explorado em 007: Skyfall (2012) e Das 5 às 7 (2014); mal de Malick, se não soubesse disso tirar partido.

Poderíamos sempre desligar-nos destes problemas de construção dos personagens, caso fosse para aceitarmos – como em tantas as vezes que o filme trai a própria premissa – que Faye é o centro emocional da história. O problema é que a narrativa de Música a Música, não chegando a ser confusa de todo, muitas vezes, em curtos relances, induz numa estrutura de saltos temporais; minuciosamente reveladores, mas pequenas grandes distrações.

A distração principal, ainda assim, acaba por ser a ânsia de Malick em introduzir o habitual desvio para o campo da reflexão existencialista, ao entrar no terceiro ato da fita. É um propósito fílmico que se diria nobre e desafiador – afinal, que haverá de mais dubiamente existencialista que uma mulher triplamente apaixonada? -, mas a questão é que desde A Árvore da Vida (2011) que Terrence Malick já nos deu mais três filmes. E aquilo que em 2011 era profundo, um expurgar de libertinagem por parte de um realizador verdadeiramente visionário, hoje já é só um pecado cinéfilo. Um pecado que sem pudor diverge audiências, e cujo efeito pretendido nunca se consegue bem manifestar.

Há aqui uma fita que começa em absoluta apoteose de sentimento, mas que a espaços algo que se desvai, terminando num lugar-comum cinematográfico que nunca o devia ter sido. No fundo, Música a Música é mais uma obra de Malick, para o bem e para o mal. Tem aqui aquilo que encanta, seduz e maravilha no seu cinema, e também aquilo que aliena e afasta dos temas contemplativos que tanto nos tenta dar a provar. É aquele travo agridoce, da promessa inicial de uma nova fita do realizador, que podia dar totalmente certo e não dá.

Ainda assim, há sempre aquela vaga sensação. Que algures na mente de Malick, tudo o que a sua câmara capta, em tanta inocência e candura, faz absoluto sentido.

E em verdade, quem somos nós para lhe chamar menos que génio?

 

6/10

Título original: Song to Song
Realização: Terrence Malick
Argumento: Terrence Malick
Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Bérénice Marlohe
Género: Drama, Romance
Duração: 129 minutos

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