No quinto dia de IndieLisboa, Jorge Cramez apresentou a sua nova longa metragem Amor Amor, inspirada num escrito de Corneille. O filme, protagonizado por Jaime Freitas, Ana Moreira, Margarida Vila-Nova e Nuno Casanovas, é uma “comédia dramática de enganos” e revolve em torno de um grupo de amigos, no último dia do ano.

Amor Amor resulta num jogo de personagens que nos soa a certo momento a uma história de Woody Allen. Felizmente a película revela-se bem menos problemática, mais jovem e independente. Consegue ser cómica sem tentar e melodiosa enquanto fora de tom. Aqui cada personagem procura algo completamente diferente do que tem, tentando encontrar exactamente aquilo que os outros já possuem.

Passada num único dia, encontramos uma longa-metragem repleta de detalhes. As cenas da praia são realmente um dos pontos altos do filme de Cramez, que nos apresenta um constante jogo de luzes, de sombras e cores. A imagem, inteligentemente conservada, é prepotente o suficiente para impor a sua estética. Ainda que haja por vezes uma montagem algo confusa que põe em causa a sequência lógica de algumas cenas, a capacidade de criar atmosfera é realmente peculiar.

Pelos tons nocturnos da cidade de Lisboa e da enevoada Sintra, ouvimos uma tempestade aproximar-se lentamente. Ao amanhecer celebra-se um novo dia, mas o sol, que anima a manhã, rapidamente é substituído pelo nevoeiro que consigo traz o prenúncio de uma tarde fria. A comédia, rodeada pela tragédia, rompe as nuvens num momento ou outro, mas eventualmente o pôr-do-sol chega e com ele a escuridão. Pela altura em que anoitece já a tensão é quase palpável, o jantar sabe a álcool e fica claro que esta não será apenas “mais uma noite”.

Por entre cigarros, copos de vinho e umas quantas “linhas” tentamos disfarçar um humor que não pode ser mais controlado. Pintam-se uns quantos risos e vestimo-nos para celebrar o fim – afinal não é só ano que está a acabar. Inicialmente estranhamos esta recorrente profanação pela via da vida boémia, mas rapidamente nos apercebemos do mar de vícios a que viemos dar.

Amor Amor não é a esperançosa e risonha mensagem de ano novo que partilhamos no Facebook, e que a sua amarrotada descrição a faz parecer; O filme de Cramez é bem mais intrincado que isso e não procura na viragem de ano uma desculpa supersticiosa para a mudança de vida. Essa ideia, que apenas uma ou outra personagem cultiva, é confundida por um sentido mais místico da película. A ilusão reside precisamente em acreditar que tudo pode mudar do dia para a noite.

A personagem de Jorge, interpretada por Jaime Freitas, encontra na sua ocupação como pintor uma visão superior, como se sempre estivesse um passo à frente de todos os outros. A arte, encarada como um presságio do futuro, abrindo ao mesmo tempo uma porta para o passado, é um portal para olhar o presente. Os seu amigos são o seu objecto artístico e a análise é quase psicológica.

Afinal o que se passa neste complicado grupo de amigos? A guerra do amor será a possível resposta. Ainda que não lhe encontremos significado na maior parte das vezes, Cramez tenta por em oposição o amor romantizado, que Bruno simboliza (jovem e sonhador), e o amor “moderno” (mais cru, desprendido e doloroso). Será quase infantil ousar sonhar numa Lisboa tão fria e castigadora.

“Amanhã será melhor”

É no meio desta competição sem vencedores que Margarida Vila-Nova e Nuno Casanovas se destacam. Quase sem percebermos, este jovem casal proporciona-nos o momento mais interessante de toda a película – talvez por estarem afastados das luzes, da cidade e dos excessos. É numa bomba de gasolina abandonada, quase totalmente imersos na escuridão, que ambos são capazes de produzir o momento mais iluminado de todo o filme – a partir deste momento tudo sabe melhor.

A película, ainda que tenha uma certa dificuldade em saber onde parar, justifica a antecipação de que tem sido alvo. Não significa isto que não tropece numa “espectacularização” que não seria necessária e empreenda por momentos uma imagem muito colada aquelas que assistiríamos num qualquer videoclip. O inesperado será perceber que o filme vive largamente das prestações dos seu intervenientes – uns milímetros ao lado e tudo isto soar-nos-ia a mais uma cansada e pindérica comédia romântica.

Amor Amor é um filme para o grande público, capaz de ser equilibrado o suficiente para corresponder às expectativas. Esquizofrénico na sua produção, mas muito mais coerente no seu guião. Os planos-sequência são nuns momentos desnecessários e quase arriscados, não fosse o elenco capaz de preencher a tela. Para aqueles que aqui procuram um guia amoroso ou uma desmedida epifania, a decepção será garantida. Para os restantes, rapidamente perceberão que afinal o champagne não é uma fonte de pedir desejos.

6/10

Ficha Técnica:

Título: Amor Amor

Realizador: Jorge Cramez

Argumento: Jorge Cramez, Edmundo Cordeiro, Tiago do Carmo Vaz

Com: Jaime Freitas, Ana Moreira, Margarida Vila-Nova, Nuno Casanovas

Género: Drama

Duração: 107 minutos