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SHOT! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock: o Rock em Imagens

No encerramento do terceiro dia do festival IndieLisboa, o Cinema São Jorge exibiu a primeira de duas projecções do documentário SHOT! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock. Com a realização a cargo de Barnaby Clay, seguimos nesta película a vida do aclamado fotógrafo Mick Rock, responsável por fotografar alguns dos mais icónicos músicos do último século: David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop, Syd Barrett, Blondie, os Queen, entre tantos outros.

O resultado é uma odisseia fotográfica, à medida que mergulhamos na mente de umas das mais importantes e irreverentes personalidades responsáveis por ajudar a construir o Rock and roll como o conhecemos. Pela sua lente, Mick formatou uma geração imagética enquanto explora uma mitologia iconográfica, psicadélica e poética.

Começamos pelo fim, observamos o nosso narrador deitado sobre uma maca a lutar pela vida – nada poderia ser melhor pretexto para voltar ao início. Um jovem estudante de Cambridge, apaixonado por poesia e ainda afastado da fotografia, revela-se desde logo como pronto crente espiritual. No precipício da sua própria vida, o nosso narrador encontra na morte uma regeneração espiritual. Na mesa onde podemos encontrar recortes da história, Mick encontra o seu pharmakon, que o seduz e controla.

A espectacularidade deste conto reside na forma como o seu realizador nos apresenta uma película rápida e exuberante. Por entre arquivos fotográficos e clips de áudio, nunca antes revelados, podemos ouvir longas conversas entre o nosso protagonista e personalidades como Bowie ou Lou Reed. É-nos permitido um olhar por detrás das imagens e conhecer as suas histórias. Por vezes temos até dificuldade em perceber se estamos perante a história do glam londrino ou se este funciona apenas como contexto para a vida de Mick.

As conversas que deambulam pelo conceito do ser artista e a pura divagação, parecem muitas vezes aleatórias – encontramos, no entanto aqui a verdadeira aura do documentário que o faz transcender de uma divertida conversa, para um registo historicamente relevante. Esta aventura é quase frenética – o que nos parece, em muitos momentos, uma ansiedade descontrolada – e vai experimentando sucessivamente diferentes registos narrativos.  Nunca se fala apenas por falar, mas é deixada ao seu público a tarefa de se situar, seja nos anos 70 ou no nascimento do punk nova-iorquino.

 

“I will not go gentle into that good night”

Quando a narrativa decide focar-se novamente em Mick, observamos, num tom bem mais dramático, os trágicos desenvolvimentos.

Pois bem, eventualmente será Mick que é engolido pelo glam que ajudou a criar. O circulo mediático, alucinogéno e corrosivo do qual o nosso protagonista se alimenta vem a virar-se contra si mesmo. Subitamente Rock passa do lado de lá da lente, para o meio da acção e, por instantes, consegue levar a cabo uma verdadeira vida de rock star. Esta não será uma designação exclusiva da arte musical, mas aplicar-se-á aqui também, no exaustivo método fotográfico que Mick desenvolve. Entre a privação de sono, linhas de cocaína, trips de ácidos e muitas outras experimentações, a “cobaia” tenta dominar o criador.

A ideia determinista que subjaz toda a filosofia de Mick é bem definidora da própria película. Rock afirma por diversas vezes a sua crença no destino, na ideia de saber que algo o espera e que, apesar de desconhecer o caminho, avança “a todo o gás”. Também o documentário não parece saber onde culminar, se nas peculiares histórias, se nos testemunhos dos modelos de Mick ou se na realização traumática que conta.

Nos momentos finais, o documentário assume-se como uma carta de amor a David Bowie e a Lou Reed. Mick rende-se à irreverência e à capacidade que encontrou nestes artistas de inspirar o seu próprio trabalho.

SHOT! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock é uma viagem espiritual pautada por uma forte nostalgia, que se perde nas luzes da ribalta, que se confunde entre histórias e fragmentos químicos, mas que mantém constante a sua capacidade de convencimento emotivo. A sua produção é extravagante, arriscada e dramatizada. Certamente que os seus modelos aprovariam – afinal desta vez foram eles que ajudaram a construir a história de Mick.

6/10

Ficha Técnica

Título:  SHOT! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock

Realizador: Barnaby Clay

Com: Mick Rock

Género: Documentário

Duração: 98 minutos

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