Encontro Silencioso é a primeira longa-metragem do realizador Miguel Clara Vasconcelos e conta a história de cinco estudantes que, motivados pela praxe académica, envergam num ritual místico. Com um argumento escrito pelo próprio realizador e música a cargo de Legendary Tigerman, esta película integra o concurso nacional do IndieLisboa.

A praxe académica lisboeta serve de fundo para o desnivelado plano sequência que abre o filme. Somos subtilmente direccionados para a escadaria do Instituto Superior Técnico, onde encontramos pela primeira vez os nossos protagonistas. Boris, interpretado por Alexander David, é o Dux que comanda todas as actividades e que, acompanhado por Ágata Pinho, simboliza o poder orientador dos seus inferiores hierárquicos. Das três “vítimas” com que o realizador nos presenteia, o destaque é, claramente, Rafaela.

O plano de fundo, “praxístico”, que alimenta este guião é, obviamente, polémico. Existe desde logo a tentativa de confrontar o espectador com o ridículo aparente destas actividades, tentativa essa que produziu até alguns risos da plateia – acreditem, não foram os últimos. O objectivo será pensar o rito enquanto processo performativo. Num clima que pode ser crítico, satírico e de desaprovação, ou de simples ingenuidade, o Dux Boris é inicialmente apenas irritante, numa exacerbada caricatura de um líder malévolo que, juntamente com a sua assistente ruiva (cor associada aos adoradores do Diabo – coincidência?), solta uns quantos sorrisos infantis e um par de olhares de desaprovação sobre os demais. Esta personagem é tão fantasticamente impossível, que mais parece saído de um livro de banda desenhada.

A viagem é instantânea e rapidamente abandonamos a cidade para pôr em destaque a natureza, lenta e com poucos diálogos.

Avançamos para a primeira actividade, que dispensa gritos ou exaltações, mas que procura alcançar uma perturbação psíquica. A sujidade da lama e o cenário pantanoso em que três jovens se esbarram deveria ser suficiente para comover a vontade do público de marchar sobre as ruas contra tais eventos, não fosse o registo frio e quase anti-emocional que nos atinge. Tenho que admitir: aqui há ponderação, falta saber para que propósito.

Nas cenas que se seguem é-nos possível identificar um crescente número de simbolismos e significações. Aqui iremos dar os primeiro passos no fluxo alucinatório que encontra nas lendas medievais portuguesas o seu aliado. Ao mesmo tempo, escutamos diálogos sobre a natureza e o desejo do Homem de se afastar dela – claro que depois deste momento a natureza em forma de ramos, arbustos, arvoredos e até ovelhas, parece importunar os nossos intervenientes  sempre que possível.

Por entre as linhas vislumbra-se uma implicação da cultura, da religião e da história; tenta-se passar por igual conceitos que são bastante distintos. Ao culminarmos no interregno da narrativa, o filme desemboca numa forma de (hiper)teatralidade. A dança medieval é prova disso mesmo. Rafaela ganha destaque e ajuda a plateia a perceber esta estranha ligação. Na verdade, tal como no reino fictício que esta imagina, também a praxe está sob ataque e necessita de se refugiar na floresta longe do inimigo urbano. No entanto, o inimigo não é exterior, mas viveu consigo desde sempre e é de si que surge a descrença no ritual.

Quando voltamos ao plano principal ouvem-se novamente gargalhadas, não fosse desta vez, numa ainda mais extremada representação, Boris a urinar sobre os seus inferiores, logo após ter bebido um prato de leite – estamos perigosamente próximos de algo entre um líder satânico e um vampiro tolerante à lactose (que até cartas dá em referências a Platão).

Enquanto nos encaminhamos para o fim, ainda há tempo de providenciar o público com umas imagens da vida boémia – diga-se que a banda sonora nestes momentos é resplandecente, mesmo que nada mais esteja à sua altura. Vasconcelos afirmou recentemente a sua crença na inexistência de paralelismo dos acontecimentos do seu filme com quaisquer outros decorridos nos últimos anos na praxe. Pois bem, poderemos chamar-lhe inspiração, mas é o final que levanta todas as dúvidas. Neste campo se o objectivo seria deixar a crítica de fora e atrair o foco para as recorrentes formas de ritual, será justo afirmar que há mais que um efeito amalgamo.

No final, o esforço cinematográfico, que resulta em diversos momentos, é totalmente assaltado pelo esforço do guião em minar o caminho a qualquer outro significado que não o seu. A verdade é que por entre este silêncio acabamos por não ouvir nada – ou talvez seja apenas um defeito de audição.

3/10

Ficha Técnica

Título: Encontro Silencioso 

Realizador: Miguel Clara Vasconcelos

Argumento: Miguel Clara Vasconcelos

Com: Ágata Pinho, Alexander David

Género: Drama

Duração: 83 minutos