O Star Wars provavelmente é a saga de cinema mais famosa do mundo. Tal é o seu sucesso, que até existe um dia completamente dedicado a si: May the Fourth. Com a aproximação da data, o 5 desta semana é dedicado a esta saga tão icónica.

No entanto, até as histórias mais influentes não são completamente originais. De facto, esta é uma saga que tirou inspiração de outros filmes, e que mesmo após ter sido comprada pela Disney, continua a tirar. Sendo assim, o foco  deste 5 estará não só nas obras cinematográficas que inspiraram George Lucas na criação da sua saga, como também nas que serviram como referência a Gareth Edwards e Rian Johnson durante a realização de Rogue One (2016) e do Episódio VIII, que será lançado no final deste ano.

O Dragão de Fogo (1936)

Antes da existência de séries televisivas, o grande ecrã era casa de “film serials“. Estas obras costumavam ser histórias episódicas com cerca de 12 ou 13 episódios de 20 minutos cada. Uma das mais populares foi O Dragão de Fogo, mais famoso internacionalmente pelo nome da banda desenhada em que se baseia: Flash Gordon.

Tal como na saga que mais tarde se inspiraria em si, Dragão de Fogo apresenta uma história que junta ficção científica com aventura, bem como um imperador maquiavélico e todo o género de criaturas alienígenas. Mas como acontecia em grande parte destes serials, o orçamento era relativamente baixo. Para contornar a situação, foram reutilizados adereços e partes da banda-sonora de alguns dos filmes mais populares da Universal Studios, como Frankenstein (1931), A Múmia (1932) e A Noiva de Frankenstein (1935).

Outra ideia que seria utilizada na obra final de Lucas seriam as legendas introdutórias que se tornaram já tão icónicas. No caso de Dragão de Fogo, estas apareciam no inicio de cada episódio novo para relatar o que tinha acontecido anteriormente na história.

Inicialmente, George Lucas tentou comprar os direitos de autor de Flash Gordon, de modo a fazer a sua própria versão. Numa entrevista com Alan Arnold em 1979, admitiu que apesar de ter gostado dos serials, tinha noção da fraca qualidade destes. Isso fê-lo ponderar no potencial que haveria “se eles fossem muito bem feitos“. No entanto, não conseguiu os direitos e teve de criar a sua própria “Space Opera” de raiz.

Com Lucas a ter agora uma ideia do tipo de filme que queria fazer, faltava-lhe uma história e estrutura.

A Fortaleza Escondida (1958)

Akira Kurosawa é um nome que influenciou grande parte dos realizadores que começaram as suas carreiras na década de 70. Alguns deles são Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Não é então de estranhar que George Lucas tenha sido um dos seus maiores admiradores. Todo o desenvolvimento do guião de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977) seguiu uma estrutura semelhante à de A Fortaleza Escondida.

Este filme foca-se num general e numa princesa que tentam atravessar território inimigo para garantir o futuro do seu clã. No entanto, a história teve a particularidade de maioritariamente seguir a perspetiva de dois camponeses em busca de fortuna, personagens que num épico deste género geralmente seriam secundárias. Esta abordagem seria repetida por Lucas com R2-D2 e C3PO.

Antes de ter chegado ao que viria a ser Uma Nova Esperança, George Lucas escreveu versões diferentes da história, sendo que algumas chegavam a dar um grande destaque às personagens de “velho general” e “princesa“. Estas personagens tornaram-se eventualmente em Obi-Wan Kenobi e Princesa Leia, no entanto, foi criada a personagem de “aprendiz” em Luke Skywalker, diferenciando mais Uma Nova Esperança de Fortaleza Escondida. A obra de Kurosawa serviu assim como base para moldar a história da saga.

O Triunfo da Vontade (1935)

A inspiração pode surgir de qualquer lugar, até das fontes mais inesperadas. E no caso da celebração final de Episódio IV, pode até surgir de propaganda nazi.

O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl foi um documentário criado como propaganda para o partido nazi. Diferentes elementos do partido apareceram a fazer discursos, incluindo o próprio Adolf Hitler. O filme teve ainda a particularidade de incluir técnicas de filmagem avançadas para a sua altura, que apresentavam os nazis de uma forma quase mítica.

O Império é já inspirado pelo partido nazi, mas George Lucas teve a estranha ideia de usar uma das cenas mais famosas de Triunfo como referência para a entrega de medalhas aos protagonistas por parte da rebelião. No entanto, esta inspiração não parou por Lucas. Até J. J. Abrams teve a mesma ideia com o discurso do General Hux à Primeira Ordem em Episódio VII – O Despertar da Força (2015).

A Batalha de Argel (1966)

Apesar de Star Wars já não estar nas mãos do seu criador, os realizadores que têm continuado a saga não parecem estar a mudar a abordagem de retirar inspiração de outros clássicos do cinema. Neste caso, Rogue One: Uma História de Star Wars, a primeira no que será uma longa série de spin-offs passadas dentro deste universo, procurou seguir a perspetiva dos soldados da rebelião. Para tal, olhou para a abordagem de A Batalha de Argel de Gillo Pontecorvo.

Este filme foi baseado na guerra de independência argelina e foi editado num estilo inspirado no de documentários. Tal como Rogue One, Argel segue personagens que estão preparadas a sacrificar-se pela sua missão.

Almas em Chamas (1949)

Rian Johnson, realizador de Episódio VIII – O Último Jedi, mencionou mais do que um filme como referência para o seu capítulo na saga. Para as lutas de sabre afirma ter-se inspirado em Sanbiki no samurai (1964), enquanto que no que toca ao lado mais romântico e grandioso da sua obra, menciona Ladrão de Casaca (1955). No entanto, a obra que tem mencionado mais frequentemente, principalmente na sua procura de captar a tensão de combates aéreos e a dinâmica entre pilotos, é Almas em Chamas (1949) de Henry King.

Chamas centra-se em pilotos norte-americanos que lutaram contra forças nazis na França ocupada de 1942. Apesar de ser um filme de guerra, só apresenta batalhas no seu último ato, sendo que para alcançar o realismo necessário, chegaram a ser reutilizadas filmagens reais captadas pelos Aliados durante o conflito.

Ainda teremos de esperar para ver de que forma este filme irá influenciar O Último Jedi. Com a sua história, King procurou focar-se no conflito interno dos soldados e nas consequências das batalhas em que participam. Sendo assim, provavelmente poder-se-ão esperar conflitos deste género no capítulo de Johnson.