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Humanz: o fim do mundo contado pelos Gorillaz

Tal como a água se adapta ao recipiente em que se encontra e toma a forma necessária, os Gorillaz são iguais e adaptam-se ao panorama atual da música: nunca foram uma banda com um som definido e nunca o serão, mas isso é o que faz deles tão especiais.

Humanz, o quinto e tão esperado álbum dos Gorillaz finalmente chegou e vem mostrar que a dupla Damon Albarn e Jamie Hewlett não se contenta com o vulgar. Produzir um disco com vinte faixas e mais de quinze colaborações é a nova forma de superação da banda virtual que, mais uma vez, não desiludiu a sua audiência.

Os Gorillaz são talvez o projeto musical mais ambicioso dos últimos vinte anos, porque tudo o que está relacionado com eles é difícil de conceber, difícil de definir – e Humanz não foge à regra.

Damon Albarn junta os músicos mais “disparatados” – no sentido de colaborações algo inesperadas – e cria ali uma obra-prima irreverente, sem qualquer medo de falhar, porque afinal este é o projeto criativamente mais liberal do músico que não vê barreiras no que toca a misturar, por exemplo, hip-hop com eletrónica. Humanz é um aproximar de 2D, Murdoc, Russel e Noodle – membros da banda virtuais -, da realidade, daquilo que nos faz humanos.

A end of the world party não é só em Mr. Robot

Com o seu toque eletrónico e a liberdade criativa de Albarn à solta, é um disco para tocar numa “end of the world party”. Não é um álbum de todo sobre Donald Trump, não é um álbum straightforward político, mas Damon Albarn admitiu que Humanz partiu de uma suposição (que acabou por se tornar realidade): “Eu disse a todos para imaginarem que estão na América depois da eleição [de Donald Trump] e é o pior cenário: como se sentiriam naquela noite?”. É a partir daqui que podemos desconstruir toda a narrativa por detrás de Humanz.

Vince Staples atira-se com atrevimento a Ascension e aqui começa uma viagem por um disco com inúmeras colaborações com artistas promissores (e outros já bem conhecidos) do mundo do hip-hop e do R&B. “The sky’s falling, baby, drop that ass ‘fore it crash”  repete-se incessantemente ao longo da faixa inaugural de Humanz, que nos deixa a querer mais e mais deste novo estilo da banda.

Vince Staples adota uma atitude anti-establishment, como já é esperado do jovem rapper, e 2D, a quem Damon Albarn dá vida, em poucos versos resume tudo o que acontece lá fora: isto é realmente o fim do mundo.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hBA0PUQCvIA&w=560&h=315]

Depois de Vince chega uma figura de culto do R&B, Peven Everett, e relembra que, tal como a banda anunciou anteriormente, este disco seria próprio para tocar numa festa, então o passinho de dança não falhará quando Strobelite começar.

Saturnz Barz foi uma das primeiras músicas lançadas pelos Gorillaz a fim de promover o álbum. Teve direito a um vídeo 360º que chega a ser meio nonsense e overwhelming, com um brainstorming de animações, mostrando que Jamie Hewlett, o génio por detrás de toda a animação da banda, reflete ao mesmo tempo toda a experiência mental que temos ao ouvir Saturnz Barz.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=5qJp6xlKEug&w=560&h=315]

De La Soul sem marcarem presença num álbum de Gorillaz seria logo de estranhar, então Momentz vem aconchegar os fãs mais ávidos da banda com uma música mais old-school que nos traz flashbacks do álbum homónimo Gorillaz, lançado em 2001. É esta aparente desconexão da banda que contrasta com o título do álbum – humanos -, mas que na verdade pode ser intencional.

Os Gorillaz não regressaram apenas para fazer a típica crítica de 2017 à classe política, aos eventos que têm sucedido, mas principalmente à alienação e à tecnologia que já estavam bem fermentadas na mente de Damon Albarn.

Num álbum tão impetuoso, conceptual e tão próprio dos Gorillaz surge Submission, uma faixa que parece desconectada do resto do álbum, tendo apenas Danny Brown para a salvar com os seus versos killer no fim da música.

Com um instrumental intenso e a transbordar energia, Charger traz-nos Grace Jones. Sim, a extravagante e icónica Grace Jones para contrastar com a suave voz de 2D, o light headed vocalista virtual. Charger podia facilmente sair de um episódio sinistro de Black Mirror onde a tecnologia faz mais uma das suas. Podem estar a perguntar-se… então mas os Gorillaz não são fruto da tecnologia? Porque é que a haverão de censurar? É essa contradição que faz de Humanz um álbum tão peculiar e estranho: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

É certo que já se tenham questionado acerca dos inúmeros interludes que preenchem o disco com alguns segundos de falatório que, por curiosidade, são narrados pelo ator Ben Mendelsohn. Esta banda realmente nos surpreende cada vez mais, não é?

Próximo destino: a viciante Andromeda

Chega então um single já bem conhecido do público, Andromeda, que nos deixa respirar de alívio depois de todas as faixas anteriores colapsantes que quase nos fizeram implodir. Um regresso definitivo dos vocais de Damon e uma batida 80s disco clássica fazem desta faixa uma das melhores do álbum. Andromeda pode provir da constelação, que faria bastante sentido devido ao tema do espaço estar bastante presente no álbum, ou até de um bar conhecido da adolescência de Albarn, como o mesmo explicou numa entrevista.

Mas uma coisa é certa! A simplicidade e a familiar sensação de conforto fazem Andromeda parecer infinita, espacial, em constante expansão, como o universo. Há uma certa sonoridade emocional que nos prende à voz de Albarn e de D.R.A.M. e nos faz apertar o botão de repeat constantemente.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=9W44NWYwa1g&w=560&h=315]

Tal como Andromeda, Busted and Blue soa a banda sonora para ouvir debaixo das estrelas numa noite especialmente pensativa e melancólica. Não é preciso refletir muito: a própria sonoridade taciturna e a voz de Damon cada vez mais penosa mostram-nos o escuro caminho de uma crise existencial. Há qualquer coisa que não sei explicar naquela voz que nos faz, durante aqueles minutos, parecer um tanto ou quanto insignificantes neste universo tão vasto. E o mundo cai lentamente aos nossos pés.

Um harmonioso Anthony Hamilton, com as suas influências R&B, aparece a sambar no carnaval distópico retratado em Carnival como uma espécie de comédia sombria. Let Me Out é uma explosão de todos os sentidos, tem um Pusha T que cospe versos de ódio e a aparição da diva Mavis Staples que domestica a música do início ao fim.

Teve direito a referências diretas a Obama (“Obama is gone, who is left to save us?”) e a Trump (“They say the devil’s at work and Trump is calling favors”), mas Albarn decidiu censurar tais alusões e com boas razões. Há mudança, há medo, racismo, uma administração Trump a temer, a violência da polícia nos EUA… estaria aqui horas a descrever tudo, mas Pusha T resume isso numa dezena de versos. É um grito de desespero: “let me out”!

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=1dONxX9rifs&w=560&h=315]

Sex Murder Party, talvez a faixa mais estranha que nos faz gesticular pontos de interrogação no ar. “Murder” é repetido constantemente durante a música. Wonder why? Kali Uchis é a próxima vítima de Damon Albarn numa She’s My Collar contagiante, infetada de um synth-pop sonante, com o fim do álbum a aproximar-se e a janela das colaborações a minguar.

Benjamin Clementine. Como se outras colaborações igualmente chamativas não nos fariam ir em busca de Humanz, Clementine brilha na reta final do álbum e inicia a sua aterragem em terreno político com Hallelujah Money. O barítono da voz sobressalente de Benjamin Clementine torna Hallelujah Money uma espécie de wake-up call para o dia do apocalipse que chegou há poucos meses atrás.

Antes desta viragem que o mundo tomou – vocês sabem bem do que falo -, descreveríamos este tipo de música e até de álbum como um narrar de um romance de Aldous Huxley ou George Orwell, mas hoje podemos realmente afirmar viver numa distopia. As palavras faltam-me quando tento descrever o que está a acontecer no momento. Será isto uma transição? Será mesmo o fracasso da humanidade? “When the morning comes we are still human… how will we know?”

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=CDUrpPvU1_4]

Quando a música põe fim às inimizades

Noel Gallagher e Damon Albarn, rivais e “inimigos” nos idos anos 90, duas dezenas de anos depois foram juntos pela música. We Got The Power termina assim Humanz da forma mais positiva, mais spread the love e encorajadora possível com os dois ícones do brit-pop a cantarem em uníssono “we got the power to be loving each other”. Uma Jehnny Beth (Savages) aparece bem selvagem em corta-mato pela música fora falando do sonho, da esperança, da indestrutibilidade do amor. É uma ode à humanidade. Se trabalharmos juntos e acreditarmos uns nos outros, no fim, vamos realmente vencer e superar as adversidades.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=HSivlaSVk1k&w=560&h=315]

É esta dificuldade em rotular os Gorillaz que tornam a banda tão peculiar. Eles são voláteis, eles são o que quiserem ser. Humanz é feito disto e, apesar de ter uma sonoridade distinta de um Demon Days ou de Plastic Beach, ainda consegue arrebatar a alma e os ouvidos de um fã de Gorillaz. E toda esta distopia sonora e esta “desumanidade” e esta desconexão que vivemos com o álbum contribui para um contraste propositado com o título bem humano.

Obrigada, Gorillaz, por mais uma vez serem o escape ao nosso mad world e nos deixarem um soundtrack para o fim do mundo. É um pouco nonsense? Sim. Parece tudo um flash? Também. Parece que tudo perdeu o sentido? Claro, mas não foi isso que aconteceu ao mundo?

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