Música de intervenção nas vozes de ontem e de hoje

A música de intervenção é fortemente associada aos últimos anos do Estado Novo, dissolvido com a Revolução dos Cravos que se deu a 25 de Abril de 1974. Mas afinal, o que é a música de intervenção? Qual o seu papel há 43 anos e na atualidade?

25 de abril de 1974. O dia da revolução. O dia da liberdade. O dia em que se pôs fim a um regime político autoritário, autocrata e corporativista que vigorou em Portugal durante 41 anos. O dia em que os portugueses, após muito sofrimento e muita luta, alcançaram a liberdade de que podemos desfrutar hoje. Uma das datas mais importantes da história do nosso país.

Se falarmos dos seus simbolismos, não podemos deixar de referir os cravos vermelhos que durante a revolução foram oferecidos pelo povo aos soldados e colocados nos canos das suas espingardas, marcando assim o início da liberdade em Portugal. Mas a verdade é que a música de intervenção também é aqui um símbolo muito importante, pois foi através dela que se deu início a esta revolução.

A música de intervenção é um tipo de música composta com o intuito de focar a atenção de quem a ouve para determinados problemas do país, sejam eles de origem social, política ou económica.

Às 22h55 da noite de 24 de abril de 1974 foi transmitida pelos Emissores Associados de Lisboa a canção E depois do Adeus de Paulo de Carvalho, servindo como a primeira senha, que daria ordem às tropas para se prepararem e estarem a postos. Embora seja considerada como a canção que representa o adeus ao Estado Novo, esta é de facto uma balada sem teor político e que estava em voga na altura, tendo sido escolhida para não levantar suspeitas, podendo a revolução ser cancelada caso os líderes do Movimento das Forças Armadas concluíssem que não haveria condições para avançar com a mesma.

A segunda senha foi transmitida às 00h25 da madrugada de 25 de abril de 1974 pela Rádio Renascença e a canção escolhida foi a Grândola,Vila Morena de Zeca Afonso, um tema claramente político, que confirmava o bom andamento das operações para a revolução poder avançar e o sinal efetivo para a saída dos quartéis.

Para além de Zeca Afonso e Paulo de Carvalho, outros como Sérgio Godinho, José Mário Branco, Vitorino, Luís Cília, Fausto Dias, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e Carlos do Carmo são mais alguns músicos de intervenção com canções que marcaram aquela época.

Nos dias de hoje, a denominação específica de música de intervenção já não é utilizada como há 43 anos atrás, no entanto, não quer dizer este tipo de música não esteja a surgir atualmente. Muitos são os músicos atuais que usam a sua música para fazer críticas sociais, políticas ou económicas – que antes da liberdade instaurada com esta revolução seriam evidentemente censurados – e isso no fundo, é música de intervenção.

Em Janeiro deste ano, o É Apenas Fumaça – um podcast onde se fala sobre a sociedade – contou com a presença de B Fachada, onde foi discutida a Música de Intervenção, a História de Portugal e a Política de Hoje.

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Para celebrar esta data irá realizar-se um espetáculo de homenagem a Zeca Afonso no dia 29 de abril, sábado, n’A Voz do Operário, em Lisboa.

O espetáculo Em Cada Esquina Um Amigo conta com a presença de artistas portugueses como B Fachada, Allen Halloween, JP Simões, Benjamim e Éme, entre outros. Os bilhetes encontram-se em pré-venda por 7€, enquanto no dia do espetáculo estarão à venda por 10€.