25 de abril de 1974 – a data está na ponta da língua de quase todos e, para nós, que já nascemos com este direito tão precioso, por vezes torna-se difícil conceber um país onde não poderíamos ouvir aquilo que nos apetecesse, de forma livre, sem ser às escondidas.
Foi justamente este o exercício da secção de Música este ano: se não vivêssemos em liberdade, a que nomes é que teríamos o acesso vedado? Que artistas é que, devido aos temas, sonoridades ou carga política, só podemos vivenciar porque vivemos num país livre? Ora espreita. 

Buraka Som Sistema

Toda a trupe da Enchufada caberia claramente neste texto. A verdade nua e crua é que, sem o 25 de abril de 1974, a mistura de géneros, os temas que tanto são de Angola como da Damaia, as danças sensualonas de Blaya, não seriam possíveis. Se o 25 de abril se fez para algo de jeito, foi definitivamente para isto. – ACS

Anohni

“Mas o Antony agora é uma mulher?” Ainda há quem pergunte, em 2017, se aquilo que nos nasce entre as pernas define a nossa forma de estar na vida. Anohni é artista de sete costados com um som e uma performance indizíveis e sem liberdade não a poderíamos ter visto num concerto assombroso no Coliseu. – ACS

Capicua

Uma mulher a fazer arte já seria desconfortável o suficiente para o antigo regime. Ainda por cima uma mulher feminista, defensora dos direitos dos trabalhadores, ecologista e destemida? Ana Matos reivindica para si e para uma nova geração de poetas-músicos o exercício pleno da liberdade pelo direito ao protesto. – ACS

M.I.A

As Bad Girls não eram muito bem vistas durante a ditadura portuguesa e M.I.A não encontraria muita simpatia durante esses tempos. Controversa e sem papas na língua, a rapper cresceu no Sri Lanka, num ambiente de guerra e violência, sendo que as suas músicas expressam algumas das experiências e realidades que conhece sem qualquer tipo de filtro.
A sua frontalidade iria deixar o lápis azul bem atarefado – se cá conseguisse chegar, claro. Se nos Estados Unidos, o videoclipe da música Born Free foi censurado pelo seu carácter gráfico e sexual, nem se pensaria em algo tão explícito se a ditadura ainda prevalecesse. – AR

Unknown Mortal Orchestra

Graças à Revolução dos Cravos, hoje é possível cantar o amor nas suas várias expressões e, em Multi-Love, mais uma é trazida a público. Os sons mais hipnóticos e psicadélicos do terceiro álbum da banda americana e neozelandesa trazem consigo o retrato da relação poliamorosa que o vocalista Ruben Nielsen e a esposa mantiveram durante algum tempo com outra mulher.
Nielsen admite que as canções vêm numa tentativa de normalização deste tipo de relações ainda algo tabu nos dias de hoje, estando o álbum repleto de referências discretas à união mantida entre os três e também algumas não tão discretas (Multi-Love has got me on my knee/ We were one, then become three, canta na faixa principal). Imagine-se o escândalo que não teria sido há meio século. – AR

Hinds

O quarteto espanhol constituído por Carlotta, Ana, Amber e Ade é um nome consolidado nas playlists de lo-fi e garage rock. Concertos marcados por cabelos longos, guitarras arranhadas, versos que nos apresentam raparigas sem rodeios, gritos e crowdsurfing. Puro rock no feminino com um estilo effortlessly cool à mistura e estão reunidos os ingredientes para a afirmação do girl power. Se agora se deparam com crítica sexista, nem queremos imaginar como seria antes de abril de 1974. – BP

B Fachada

Um álbum de faixa única intitulado Deus, Pátria e Família poderia deixar-nos a pensar sobre a posição política de Bernardo Cruz. Basta ouvi-lo para ficarmos esclarecidos e a verdade é que este não é o único tema em que aborda questões sociopolíticas. Obrigada, Capitães, pela Revolução e por nos permitirem ouvir cantar “em fachadês”. – BP

Zeca Afonso

E quem se esqueceria de Zeca? De todos os artistas nacionais, José Afonso dos Santos é a mais completa personificação da frase “stick it to the Man”. Ainda hoje, as suas canções intervencionistas são de conhecimento geral para a população, sendo Grândola Vila Morena quase um segundo hino nacional, se tal fosse necessário. Apesar da diferença sociopolítica da sua época e daquela em que vivemos, as temáticas cantadas pelo aveirense são bastante atuais, já que realmente “eles comem tudo e não deixam nada”. – FS

Bezegol

Outro artista nacional que aproveita bem a liberdade de expressão presente no nosso Portugal, é sem dúvida Bezegol. Para quem conhece o trabalho do artista “com voz de cana rachada” , sabe que as suas letras estão cheias de denúncias e indignações de um país corrupto, onde reina a desigualdade. Com um estilo hip-hop/reggae, o compositor portuense está bem colocado na lista dos que mais se opõem ao seu governo através da música. – FS

José Mário Branco

Desde que aderiu ao Partido Comunista Português, José Mário Branco inscreveu o seu nome na lista negra da polícia política. As perseguições de que foi alvo por parte da PIDE levaram-no a procurar exílio em Paris, à semelhança de muitos outros artistas portugueses incompatibilizados com o regime autocrático de António de Oliveira Salazar. Foi durante os anos de exílio político, e gozando de uma liberdade criativa que lhe estava vedada em Portugal, que iniciou a sua carreira musical – entre 1963 e 1974, editou dois álbuns, um EP e um single, e em todos eles deixou clara a sua insatisfação contra o Estado Novo. O 25 de abril ditou o seu regresso a Portugal, e marcou o início de uma profícua fase de colaborações com outros músicos nacionais.
Todavia, só em 1982, por virtude do lançamento do álbum FMI, é que José Mário Branco atinge o estatuto de personalidade mais interventiva do panorama musical português. FMI é um álbum que, sob todos os prismas, jamais teria passado incólume pelos filtros da censura ditatorial. Manifesto, poema, canção, clamor panfletário, pranto sarcástico, FMI – editado entre os dois primeiros resgates financeiros do Fundo Monetário Internacional a Portugal – é um grito de liberdade e descontentamento capaz de, ainda hoje, impelir os atávicos censores do Estado a darem voltas nos seus próprios túmulos. – AC

Escolhas de Alexandra Correia Silva, Ana Rosário, Bárbara Pereira, Francisco Serra e António Costa.