Quiseram os Capitão Fausto que os seus dias contados tivessem fim na noite passada, na portuense Casa da Música, depois de uma digressão de mais de dois meses um pouco por todo o país. Para os outros, uma noite normal de sábado; para os fãs da banda lisboeta, uma oportunidade para matar saudades dos três álbuns que compõem a sua carreira.

Uma sala com quase 1300 lugares sentados é um cenário pouco comum num concerto dos Capitão Fausto, mas que ainda assim segue o padrão das salas de espectáculo que assinalaram o resto da digressão.

A lotação é quase esgotada e faz-se ouvir em palmas e assobios com a entrada da banda em palco, que hoje tem dose dupla na bateria, com Vasco Magalhães a substituir o braço direito que Salvador ainda traz ao peito (mas que não o impede de dar tudo de si). Os Capitão Fausto podem ter os dias contados, mas é o álbum Pesar o Sol, de 2014, que faz as honras da noite, com Lameira a ser imediatamente reconhecida pelo público.

Tomás Wallenstein cumprimenta-nos com um “boa noite” entre os versos da canção, à qual se segue Semana em Semana. Todos os músicos sabem que elogiar o público portuense nos aquece o coração e o vocalista não é excepção, dai que a frase “Sejam bem-vindos, já tínhamos saudades vossas!” seja uma boa maneira de começar o concerto.

Antes de continuarmos com a setlist, ainda há tempo para Domingos Coimbra dar uma pequena palavra de apreço aos nossos bateristas (assim como ao bonito fato de Tomás): “A maior salva de palmas para o Vasco Magalhães, que teve uma semana para aprender as músicas todas. E para o Salvador também!” ninguém diria que o tempo para aprender foi escasso, porque Vasco parecia ter conhecido o repertório desde sempre.

Eu vou morrer / Eu vou morrer / Mas antes vou aproveitar bem” são versos de Os Dias Contados que nos apelam a aproveitar bem a vida, nem que seja debaixo das saias da mãe, onde estamos tão bem. Um pouco nesta lógica, já há quem estoicamente se levante para improvisar uma pista de dança nos seus lugares, sem esquecer as palmas bem ao ritmo das baterias de Salvador e Vasco.

“Boas palmas”, observou Tomás, ainda antes de Mil e Quinze. Por esta altura já a dança se dissipou, mas regressa assim que as Maneiras Más começam a ecoar na Sala Suggia, mostrando que o álbum Pesar o Sol é, sem dúvida, um crowd favourite; mas é com o ritmo eléctrico de Litoral, que tanto difere da descontracção e calmaria do novo álbum, que a plateia aquece realmente.

Este é o último concerto da digressão e fez muito sentido que fosse no Porto, porque gostamos muito de vocês”, é a declaração que Domingos faz ao público, garantindo que não diz isto a todos, ao contrário do que possamos pensar. Segue-se Flores do Mal, que nos proporciona um bom solo na guitarra de Tomás, antes de nos fazer uma pequena confissão.

O jantar estava salgadíssimo, estou aqui cheio de sede e calor” foi a justificação para os copos de cerveja e o casaco que já tinha tirado, por entre assobios do público. “Se eu continuasse a tirar, vocês ficavam desiludidos”, garante-nos. É pelo conforto e proximidade com o público que os Capitão Fausto fazem os concertos valer a pena – no fundo, é como se estivessem entre amigos.

“Pontas soltas, isso é comigo / E por isso queres também ser assim” é o refrão de Corazón, que toda a gente sabe de cor e não hesita em seguir com palmas sincronizadas. Aos primeiros acordes da canção seguinte – Raposa, do álbum de estreia, Gazela (2011) – alguns membros do público não contém um berro de entusiasmo, levantando-se imediatamente para dançar, como se a cadeira tivesse ganho molas.

O instrumental é tão contagiante que a plateia inteira segue o exemplo durante o resto do concerto. E nunca mais ninguém se sentou, nem mesmo em Santa Ana, a canção do mesmo álbum que serviu de ponte para os acordes inconfundíveis de Amanhã Tou Melhor.

Continuamos a ter direito a elogios de Tomás: “deixem-se estar, tá muito bom!”. A Febre dos Capitão Fausto continua e têm o público completamente rendido; mesmo aqueles mais adeptos do lugar sentido e resistentes ao ritmo já se deixaram levar. Continuamos a revisitar o álbum Gazela com uma das músicas com mais sucesso, que nos garante que “a verdade é uma coisa qualquer, diga eu o que disser” e que “o mundo ainda tem de crescer”.

Tomás agradece ao público, a quem chama de “queridos” e apresenta a banda: Vasco Magalhães e Salvador nas baterias, Francisco no teclado, Manuel na guitarra e Domingos no baixo. Os mais inocentes podem achar que vem aí despedida, mas os experientes sabem que vem aí encore.

Depois de Morro na Praia, os Capitão Fausto fingem que vão embora, enquanto uma plateia ainda não satisfeita vai gritando e assobiando pelo seu regresso. Nem um minuto depois já Tomás regressa ao palco, claramente divertido: “Acho um piadão a como vocês continuam a ficar surpreendidos com este truque”. Por entre risos do público, cantam-se e tocam-se a solo as primeiras notas de Alvalade Chama Por Mim, enquanto o resto da banda se junta a Tomás para cantar pela mocidade que para eles chegou ao fim.

Mas o fim do concerto é inevitável e Tem de Ser, a ode às pirosadas, passeios e casamentos em barcos a vapor, foi a canção escolhida para encerrar a noite, com direito a uma pequena coreografia de Manuel, Tomás e Domingos, de passos dados para o mesmo lado em perfeita sincronia. Agora sim, sabemos que é altura de ir embora; os Capitão Fausto voltam a agradecer, juntam-se os seis no palco e fazem a vénia à plateia portuense que os acolheu.

Fotografia: Mariana Gomes