Em jeito de antevisão dos espetáculos de revisitação de 10.000 anos depois entre Vénus e Marteque terão lugar na Aula Magna e na Casa da Música a 1 e 6 maio, José Cid esteve à conversa com o Espalha-Factos. Após desvendar um pouco do processo criativo do seu clássico de 1978, o artista nacional revelou alguns pormenores sobre Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid  e falou ainda sobre os projetos que têm emergido recentemente no panorama musical português.

Espalha-Factos: Nos dias correntes, 10.000 anos depois entre Vénus e Marte é, inegavelmente, um disco de culto mundial. Em 1978 passou-lhe pela cabeça, alguma vez, que esta obra poderia alcançar tal estatuto?

José Cid: Sem falsa modéstia, eu achei que sim, porque conhecia muito bem e tocava muitas obras de grandes bandas de rock sinfónico mundiais. Conseguia cantar Yes, que tinham temas de dificuldade extrema. Também cantava Led Zeppelin com uma perna às costas, sem problema nenhum. E, de repente, percebi que quando começamos a fazer o álbum, poderíamos estar a fazer qualquer coisa que iria ser altamente provocadora em Portugal naquela época, porque fomos alcunhados de tudo aquilo que possas imaginar – até de drogados e de malucos.

Foi um álbum que não vendeu cá. Depois, com a edição americana pela Art Sublime, em Los Angeles, em 1994, o álbum aparece a nível mundial de uma forma bem diferente. Achei que o álbum era altamente à frente e que, com certeza, poderia ficar, pelo menos, entre os 100 melhores do mundo dentro do género, como foi durante muito tempo.

EF: Durante o processo de gravação, quais foram as suas principais influências?

JC: Para sobreviver e ganhar um dinheirinho, tinha uma banda, que era o Quarteto 1111. Aos fins-de-semana tocávamos de tudo o que era bom em festas universitárias e de liceus. Depois tínhamos a nossa obra, que era paralela a essas atuações de sobrevivência, na qual tocávamos e gravávamos aquilo que era a nossa própria criatividade. A obra do 1111 é altamente original, na sua época, a nível mundial. Se Portugal começar a pensar seriamente em termos de inspiração e de criatividade, o Quarteto 1111 foi, de certeza, a banda da Europa continental mais original, mais rebelde e mais ousada da sua geração.

O primeiro álbum do Quarteto 1111 era um álbum muito à frente. A nossa obra não foi feita pelos parâmetros daquilo que o rock sinfónico mundial estava a fazer: é original. 10 000 anos depois entre Vénus e Marte é original e Vida (Sons do Quotidiano) é original. E Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, que para muita gente ainda é um senhor álbum.

É um álbum de intervenção política e social, mas de rock sinfónico. Isto é, de cor-de-rosa não tem nada. Portanto, toda a obra 1111 e minha, separadamente, é obra do rock sinfónico mesmo, custasse o que custasse, o mais original possível. Quando eu digo o mais original possível, digo-o porque é difícil afastarmo-nos de algumas sonoridades que existem, porque os instrumentos são os mesmos. Os mesmos Mellotrons que os Moody Blues ou os King Crimson já usaram, também nós usamos de outra maneira. Agora, não confundam sonoridade com criatividade. É muito diferente.

EF: Tem algum episódio marcante aquando desse período que possa partilhar?

JC: Tenho. O álbum estava pronto num gravador e alguém, inadvertidamente, com as fitas postas, esteve a desmagnetizar as cabeças do gravador, porque era necessário fazê-lo com gravadores analógicos. Quando desmagnetizou as cabeças do gravador analógico, apagou quatro faixas do álbum e tivemos de regravar as últimas quatro faixas do álbum do princípio ao fim, praticamente igual àquilo que fizemos anteriormente. Mas, a partir de Mellotron, O Planeta Fantástico, ninguém nota, porque tocamos exatamente com os mesmos instrumentos, com tudo o que estava no estúdio e com os mesmos técnicos.

EF:  Deve ter dado algum trabalho…

JC: Deu, podes crer. Tal como dão muito trabalho os ensaios para aparecermos nos espetáculos dias 1 e 6 de maio, o primeiro na Aula Magna e outro na Casa da Música. Posso desde já dizer que vamos aparecer na época de verão em algumas Câmaras Municipais, porque há presidentes que são completamente fãs deste álbum e me pediram para eu ir tocar às suas localidades. Vamos fazer uma coisa engraçada, que é abrir os nossos concertos durante 45 minutos com o 10.000 anos e depois entre Vénus e Marte e em seguida, durante uma hora e meia, teremos José Cid & Big Band.

EF: No passado dia 4 de fevereiro, assinalando a celebração das suas 75 primaveras, decidiu presentear os fãs com mais dois concertos, no mês de maio, do incontornável 10.000 anos depois entre Vénus e Marte. Essa decisão prendeu-se com algum motivo em particular, para além da quantidade monstruosa de pedidos que recebe frequentemente?

JC: Acontece que, nesta altura, saiu uma edição de luxo do 10.000 anos depois entre Vénus e Marte, com um vinil remasterizado e o Live in Lisbon, que é o nosso concerto no Coliseu em DVD. Na nossa interpretação, parece que o tempo não passou por cima das vozes, nem dos instrumentos. Está fabuloso e completamente renovado, com uma remasterização fantástica em Abbey Road, com o Simon Gibson e com 5.1 surround. Esta nova edição de luxo é limitada para 1000 álbuns. Nós nem sequer estamos a vendê-la na Fnac ou na Worten.

Criamos uma página de Facebook só para o 10. 000 anos e quem quiser comprá-lo, basta encomendar e nós enviamos pelo correio. É simples. Os japoneses e os brasileiros estão em cima de nós e já compraram muitas unidades porque são fãs absolutos do disco. Os espanhóis também, mas não tanto. Alguns deles vêm de propósito ver o álbum à Aula Magna e à Casa da Música.

EF: Os surpreendentes espetáculos de revisitação do 10.000 anos depois entre Vénus e Marte tiveram início em 2014. O que é que os fãs podem esperar do alinhamento dos concertos na Aula Magna e na Casa da Música?

JC: Não podemos mudar muito a ideia. Vamos tocar uma faixa do Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, o Vida (Sons do Quotidiano) na integra e duas ou três faixas do meu próximo álbum de rock sinfónico, Vozes do Além, que nem sequer comecei a gravar, mas que estão escritas. E depois sim, numa segunda parte, vamos tocar o 10.000 anos depois entre Vénus e Marte na íntegra.

EF: A idade parece não colocar entraves à sua carreira e, geralmente, possui uma agenda bastante preenchida. Excluindo estes dois concertos, estão previstos outros espetáculos para o presente ano?

JC: Sim, no verão vamos tocar em cidades e vilas. Temos, pelo menos, três ou quatro já agendadas só do 10. 000 anos depois entre Vénus e Marte. Não podemos revelar ainda, só depois de maio.

EF: Para quando o sucessor de Menino Prodígio? Em que fase do processo criativo se encontra?

JC: Em José Cid não há sucessores. A minha obra é muito camaleónica e não vou repetir nada daquilo que fiz no Menino Prodígio no meu atual álbum, que está pronto. Chama-se Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid. É um álbum de canções, de textos, de melodias e de poesia. Gosto muito da sua produção, mas não tem nada a ver com o Menino Prodígio. Só tem uma música bastante rockeira e psicadélica que se chama A Banda do Capitão Fausto. É a minha resposta como agradecimento aos Capitão Fausto pelo tema José Cid, do seu primeiro álbum.

O álbum está aí a sair, em vinil e CD. Já estão músicas a tocar na rádio. Já tocou a João Gilberto e Astor Piazzola, Se Chico Buarque me Cantasse um Fado e agora, em breve, sai o terceiro CD single, que se chama Saudades do Botequim. O álbum possui um grafismo muito beatleano, a copiar a ideia do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, mas com outros personagens.

Há muita coincidência entre as coisas todas. Temos um tema de homenagem aos Beatles, que é o único cantado em inglês no álbum. É meu, do Tozé Brito e do Mike Sergeant. É um álbum mais divertido que o Menino Prodígio, que é muito sério. Tem um sentido de humor muito cáustico. A abertura começa numa falsa atuação ao vivo do José Cid, numa aldeia do norte, em que o locutor de apresentação, sem autorização, salta para o palco e começa a apresentar o José Cid. O álbum tem esse lado hilariante também, mas é um álbum de que gosto muito.

EF: Qual é a sua opinião relativamente à nova geração de artistas que tem emergido no panorama musical português? Em que aspetos se aproxima e distancia deles?

JC: Se eu te disser que os Ganso, que os Savanna e os Capitão Fausto conhecem a minha obra profundamente e alguns deles até a tocam… Inclusivamente, os Ganso já tiveram um single com a minha colaboração. Para mim é muito emocionante ouvir essas bandas. Neste momento, a rádio que estou a ouvir mais é a Antena 3.

Depois da Antena 3, a rádio que oiço mais é a Vodafone FM, porque eles passam os novos projetos da música portuguesa, que são quase todos altamente criativos e muitíssimo interessantes. Era bom que outras rádios se abrissem a essas novas bandas emergentes em detrimento de algumas coisas que estão a passar e que não me agradam, concretamente o kizomba.

Acho aquilo sublixo poético. Os cantores, em vez de cantar, miam e têm a voz dobrada 10 vezes na mesma música para cantarem coisas semi-latinas ridículas. A Antena 3 está a promover muito essas bandas emergentes e ainda bem.