DAMN., Kendrick Lamar acertou novamente na fórmula do sucesso

Ontem foi dia de São Kendrick e aqui está DAMN., acabadinho de sair do forno. É o regresso oficial de Kendrick Lamar, o auto-proclamado “greatest rapper alive”, o verdadeiro messias de toda uma geração considerada perdida e desligada. Muitos consideram que tudo o que K-Dot faz é imediatamente adorado sem razão, mas, na verdade, o rapaz de Compton merece todo o reconhecimento.

Ele é o amparo de uma aparente minoria – a camada mais jovem da sociedade -, que sofre com a falta de modelos de vida, de esperança, de um “we gon’ be alright” quando é mais necessário. É esta a explicação do fenómeno Kendrick Lamar, um miúdo (que disto mostra ser pouco) que carrega às costas as histórias, os dilemas e os problemas do mundo.

Se To Pimp A Butterfly já era considerado um disco sólido… bem, DAMN. acabou de chegar e já está a cimentar outro degrau que Kendrick Lamar vai subir para atingir o topo do rap game. Basta de títulos longos que contam histórias ainda mais longas: BLOOD. é suficiente para Kendrick fazer um statement ao inaugurar o álbum. Simples, curta e storytellinglike com direito a um sample do jornalista Geraldo Rivera a criticar a sua luta contra a violência da polícia nos EUA muito presente em Alright, um dos muitos sucessos do rapper.

Depois de tanta aclamação, de que mais precisa este rapaz? Depois de um To Pimp A Butterfly com influências do jazz e bastante trabalhado instrumentalmente, DAMN. vence pela simplicidade conceptual que apresenta.

DNA é a verdadeira prova disso, com Kendrick a fazer uma retrospectiva da sua própria vida. Era um miúdo pobre que cresceu num bairro da problemática Compton e que hoje é um dos artistas mais bem pagos do mundo, mas nem isso o impede de celebrar o seu passado e a black culture.

A batida hiper-agressiva combina com os versos hostis que nos fazem soltar um verdadeiro damn. YAH. continua a saga auto-reflectiva e torna-nos ao conflito de Kendrick com a FOX News (ou fake news) que tentam fazer dele um vilão, mas ele avisa “I’m not a politician, I’m not ‘bout a religion”. 

Se a carapuça serve…

É certo e sabido que K-Dot não tem papas na língua quando escreve os seus versos que vão sempre diretos ao assunto, mas as novas lines são cada vez mais crípticas. ELEMENT., no entanto, é dica certa para muitos que se julgam no topo do rap game. Chega de rappers que escrevem sobre fama e dinheiro. King Kendrick avisou: “last LP I tried to lift the black artists / but it’s a difference between black artists and wack artists”. Não é em vão que ele atira estas palavras para o ar, aliás, aconselho até aquele típico “apply cold water to burned area”.

FEEL., com um beat ansioso e lyrics em constante anáfora aborda o negativismo que a fama trouxe a Kendrick, bem como a depressão, uma antiga amiga que o visita frequentemente. E o que esperar de uma colaboração com Rihanna? Algo comercial, claro está, mas nem isso impede o rapper de brilhar em LOYALTY.

PRIDE. e LOYALTY. encontram-se lado a lado na tracklist do álbum e são a genuína antítese, pois enquanto LOYALTY. é uma verdadeira faixa que vai rodar as rádios durante meses, PRIDE. é o cunho mais pessoal do rapper neste disco não querendo ele saber se gostamos ou não do seu desabafo. O orgulho, segundo o Cristianismo, é um dos sete pecados mortais e o de K-Dot recai sobre a sua crença em ser o melhor rapper vivo.

Mas Kendrick não faz nada sem um real propósito e lança o seu orgulho junto de HUMBLE., o tão aclamado primeiro single de DAMN. A humildade dos versos de Kendrick Lamar contrasta com o seu orgulho desmesurado enquanto ele eleva o rap game e desafia os inimigos a ajoelharem-se perante o seu rei – o próprio Lamar. Com o instrumental mais badass que o mundo testemunhou nos últimos tempos faz-nos obedecer ao seu repetido “sit down, be humble”.

Em DAMN., Kendrick atiça o lume com referências bíblicas infindáveis e LUST. não foge à regra. Não é o desejo sexual propriamente dito que o rapper quer evidenciar, mas sim o desejo pelos prazeres mundanos, os vícios que a vida de estrela lhe entrega de mão beijada. Afinal, uma vida de celebridade pode trazer a mesma monotonia mortal que as nossas vidas têm.

Em contraposição a LUST. somos presenteados com LOVE., o sentimento salvador de Kendrick que faz uma serenata à sua “mais que tudo”. Digamos que é uma nova versão de Poetic Justice. Todo este álbum vive precisamente destas contradições que são o combustível da mente do rapper.

Então mas, Mr. Lamar, onde andam essas críticas flamejantes à atualidade? (Dizer “atualidade” hoje em dia resume tudo e poupa-me as palavras). Aqui chega-nos a colaboração mais surpreendente do mundo do hip-hop quando Kendrick Lamar se une aos U2 para nos presentear com XXX., a música mais problemática do álbum.

O rapper não tem medo de pôr o dedo nas feridas da América no que toca ao problema da proliferação das armas no país. Regressam as lines sobre o black power, morte e violência. Depois do beat violento e das palavras cuspidas, Bono interrompe para falar a um país, um país que é chamado de “terra das oportunidades” onde se vive segundo o american dream, mas que hoje é a casa da demagogia onde o terror e o medo estão presentes.

Real – até nas fragilidades

FEAR. é um throwback a To Pimp A Butterfly, onde Kendrick Lamar reflete sobre os seus medos, o seu passado, os seus 7, 17 e 27 anos. “Why God, why God do I gotta suffer?” é constantemente repetido. Kendrick hoje pode ser o maior e pode estar confortável na vida, mas nada o impede de relembrar a sua infância: aos 7 anos vivia num lar onde a violência doméstica era o pão nosso de cada dia, aos 17 tinha medo de morrer nas mãos da droga ou dos gangues em Compton e aos 27, quando lançou To Pimp A Butterfly, tinha medo de perder… tudo. Os versos de rei podem ser duros de roer e difíceis de encarar, mas K-Dot tem tudo menos medo de expor as suas fragilidades num mundo tão tough como como o do hip-hop.

Sexta-feira santa, as referências bíblicas… tudo isto tem sentido para Kendrick Lamar e para nós. Sente-se um Deus e pode realmente afirmá-lo depois de tudo o que já alcançou na sua curta carreira. Tem o respeito da indústria, dos fãs, de Obama e conseguiu levar o rap a camadas sociais que, sem ele, nunca lhe tomariam atenção: King Kendrick ganhou agora o título de God Kendrick.

Mas apesar de toda a pompa e circunstância que ser um Deus pode trazer à vida de alguém, o miúdo de Compton só se quer sentir humilde como Deus e quer que todos os seus pares sintam o mesmo.

O homem é Kendrick Lamar Duckworth e DUCKWORTH. dá nome à última faixa de DAMN., uma explosão incessante que culmina com uma história, contada por Lamar, um tanto ou quanto curiosa. O CEO da produtora de Kendrick Lamar, Anthony “Top Dawg” Tiffith, num passado distante, era um criminoso que quase assassinou o pai de Kendrick, Kenny Duckworth, num assalto. É uma homenagem extraordinária aos dois: a Top Dawg porque sem ele hoje não seria o melhor rapper vivo e ao próprio pai que ali podia ter perdido a vida.

DUCKWORTH. é o último statement do rapper e a forma mais intimista de terminar este disco que, na verdade, me fez suspirar um damn! assim que o terminei. Nada como o pormenor no fim da faixa em que se retrocede todo o álbum até ao início de BLOOD. Depois de três álbuns de um sucesso incrível que puseram Kendrick Lamar num pedestal para todos admirarem, ele chega-nos com DAMN., o trabalho mais maduro, straightforward e ao mesmo tempo difícil de assimilar.

A batida é completamente diferente e mais agressiva, em comparação aos seus restantes discos, mas o rapper transcende-se sempre. Kendrick, embora hoje tenha a vida feita, não lança rimas dentro de uma redoma. O rei do hip-hop está bem na vida, mas não é intocável e lembra-nos de que cresceu num meio difícil (como já tínhamos ouvido em good kid, m.A.A.d city) do qual é quase impossível de sair, e superou todas as adversidades para ser o redentor de uma geração. Entre instrumentais atrevidos, lines que nos incendeiam e um álbum, no seu todo, abrasivo, DAMN. devia passar a ser DAMN!.

Nota: 9/10