A comédia do homem começa assim. É Father John Misty que profere estas palavras ao abrir mais um disco que nos vai deixar as sinapses alteradas, os olhos esbugalhados e com o qual vamos também rir (ou chorar, quem sabe) da nossa própria tragédia.

Pure Comedy, o terceiro álbum de estúdio de Josh Tillman sob o nome de Father John Misty vem-nos apresentar um total de 13 faixas que retratam o século XXI e não apenas a realidade política atual. Não são necessárias meias palavras em nenhuma das músicas e Josh Tillman, o místico, não tem papas na língua quando é preciso criticar as escolhas de uma humanidade afundada na corrupção dos seus próprios alicerces.

Percorrer Pure Comedy em 74 minutos é como ler uma distopia do século passado que previa pormenorizadamente tudo o que hoje faz parte da realidade: é um álbum sobre aquela espécie mundana que nasce com o cérebro meio formado e as ironias que preenchem as suas vidas.

A pura comédia começa precisamente com Pure Comedy, o single de lançamento do álbum homónimo, com um novo-velho estilo de Tillman ao escrever versos longos, detalhados e descritivos que contribuem, em grande parte, para a magistralidade deste LP.

Father John Misty assume destemidamente o papel de um Deus que olha o mundo numa perspetiva de terceira pessoa e descreve-nos a vida do Homem, desde o milagre do seu nascimento, passando na política e acabando na religião. Na verdade, Father John tem razão quando diz que somos apenas matéria suspensa no escuro: quem é que nos pode redimir? Apenas nós próprios nos podemos salvar, quer acreditemos ou não. Father John Misty transcende-se assim fazendo uma ode ao espírito da humanidade sem escrever algo simplesmente technologyhating.

Segue-se Total Entertainment Forever, uma faixa importantíssima em tempos de fake news. Esta é dedicada aos famintos da tecnologia (todos nós) que fazem dela o ecstasy necessário a uma sobrevivência indolor numa vida atormentada. Diz-se que “na Nova Era, todos nós nos vamos entreter / ricos ou pobres, os canais são todos os mesmos” e assim, com a ascensão de algo que aparentemente é benéfico para a humanidade, nos auto-destruímos com esse mesmo antídoto.

É esta a demonstração nua e crua de como a nossa vida se aproxima cada vez mais de uma experiência de realidade virtual sem os óculos especiais que nos fazem parecer uns lunáticos.

Things That Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution é mais um exemplo de como Father John Misty não peca no seu tom sarcástico ao dispor vários cenários que poderiam ser reais se a civilização voltasse ao seu início. E, claro, “from time to time we all get a bit restless / with no one advertising to us constantly” voltamos sempre à famosa sátira da natureza (pouco natural) humana.

O que significa morrer no século XXI? Não, o Místico não poderia deixar a morte fora deste álbum. Enquanto o homem senil está prestes suspirar pela última vez, verifica o seu feed de notícias e vê o que está prestes a perder (ou será ganhar?). Ballad of the Dying Man é a elegia hiperbólica do que se pode chamar a “uma morte moderna”.

Não precisando de grandes instrumentais nem sons complexos vindos de outra parte do universo, Father John Misty presenteia-nos com a sua calmaria folk rock e a sua voz frágil em Birdie, uma homenagem à nossa falecida liberdade. Haverá maior utopia do que a de viver num estado de verdadeira liberdade? Hey, birdie, vem cá abaixo voar sob o nosso céu e liberta-nos se puderes.

“Another white guy in 2017 who takes himself so goddamn seriously”

Leaving LA, o espelho da alma de Josh Tillman, nua e vulnerável, que este compôs em nada mais nada menos que três anos. São 13 minutos em que Josh se confessa, se desilude e se mostra mais humano que nunca. A fama, Los Angeles, as pessoas, a própria carreira, as ilusões que cobrem a vida das pessoas.

Father John Misty luta contra a perda da sua identidade nestes minutos infindáveis mordazes e auto-depreciativos em que ele próprio se assume como “another white guy in 2017 / who takes himself so goddamn seriously”. Enquanto em Leaving LA Josh se auto-analisa, em A Bigger Paper Bag faz uma reflexão da persona por quem toda a gente o identifica – Father John Misty.

Em When the God of Love Returns There’ll Be Hell To Pay vemos naturalmente o que se trata nesta faixa com um título longuíssimo. Josh Tillman foi educado no seio de uma família cristã e, apesar de hoje se afastar dessa realidade, faz inúmeras referências bíblicas do apocalipse. Já se identificam agora? É para isso que o sarcasmo do Pai João existe.

Depois de Pure Comedy, Father John Misty transcende-se com esta faixa através de uma metáfora platónica da Teoria das Ideias, a fim de satirizar o formato monstruoso em que o ser humano se tornou. O mundo das ideias, na nossa mente, é superior ao superficial e exterior, então o Homem acomodou-se no mundo sensorial e desconectou-se totalmente de tudo aquilo que o pensamento/reflexão nos oferece.

Nem só de decepção vive a gente e Smoochie é uma injeção de esperança, um porto ao abrigo do amor e do conforto. Quando Josh está desesperado recorre ao amor, à sua smoochie. Two Wildly Different Perspectives triunfou pelo vídeo, mas basta atentar na letra. Despida de ironia, repleta de angústia, é uma balada suave que comenta cruelmente a polarização ideológica na política – esquerda e direita, comunismo e capitalismo. Nunca resultaram, nunca resultarão.

The Memo é uma balada que começa no folk e acaba num piano moroso e doloroso. Alicerça-se no narcisismo cultural em que tudo é considerado arte e até essa se consome, seja um quadro todo branco num museu conceituado ou uma banda de jovens que cative metade da população mundial. Vivemos neste mundo de aprovações de outros, de aparências, de ilusões tão marcadas que nem Narciso conseguiria sobreviver a tal explosão de aparente auto-realização.

Com So I’m Growing Old on Magic Mountain vê-se que Josh não gosta muito do estilo de vida “live fast, die young” e quer envelhecer vagarosamente, ruminando todas as fontes de juventude possíveis. Está saturado desta vida rápida e desprendida de valores, de sentimentalismo.

E Pure Comedy, esta obra prima aconchegante, finda com In Twenty Years or So – a rendição última de Father John Misty. “What’s there to lose / for a ghost in a cheap rental suit” resume o que Tillman tem tentado explicar – a existência humana. O ser humano é tão frágil e tão temporário que, se pararmos por um segundo, percebemos que todas as nossas ambições desmesuradas, toda esta nossa corrida por um “nada” é, afinal, supérflua.

Somos tão pequenos e julgamos ter nestes corpos delgados todo o poder, mas no final todos acabamos no mesmo sítio. Father John Misty quer tudo menos parecer niilista com isto, porque afinal ele é humano e reflete-se também nestas situações todas.

Chega assim ao fim esta narrativa de 74 minutos que nos transtorna a alma cada vez que a ouvimos. Father John Misty consegue o seu opus magnum com um Pure Comedy calmo, acústico em que a sua voz frágil e melódica se destaca. É um último grito de desespero por parte de Josh Tillman, mas que depois de uma intensa crise existencial, apreensão e medo termina com um “there’s nothing to fear”.

E apesar de isso representar uma ideia utópica atualmente, tudo o que precisamos é de um fio de esperança e uma pitada de humor. Quando a Humanidade falha resta-nos este sarcasmo de Pure Comedy, pois, por muito séria que seja a situação, nós fazemos parte dessa comédia.

Pontuação: 10/10