A Perna Esquerda de Tchaikovski
Fonte: página oficial CNB no facebook

‘A Perna Esquerda de Tchaikovski’: “Dançar é não morrer”

Numa fusão entre bailado e teatro, A Perna Esquerda de Tchaikovski é um espetáculo que transporta os espectadores para a realidade por trás da beleza celestial dos bailados clássicos.

Tudo aquilo que fica nos bastidores, as dores e os ‘problemas técnicos’ das bailarinas, surge pela voz e pelas memórias corporais de Barbora Hruskova, que integrou a Companhia Nacional de Bailado (CNB) em 2003.

O aquecimento

Mal se entra, enquanto há ainda luz de sala, reparamos nas cortinas abertas. Vê-se o piano e a barra iluminados. A bailarina aquece, vestida com uma roupa confortável. O cenário é o de uma floresta, onde a bailarina irá correr.

No entanto, é num enorme quadro de ardósia e nas palavras nele escritas que se prende o olhar do espectador: “tremor, Prokofiev, tripla cirurgia ao pé, filho, reverence, ursa maior, dedo do pé partido, cirurgia ao joelho, costela partida, dor, elásticos, floresta, Siegfried, Tchaikovski, aspirador, mais dor, correr correr correr, problemas técnicos, pas de deux, grand jete, cisne negro”. Todas elas são reflexos da carreira e da vida de Barbora.

Com o seu sotaque marcadamente francês, a bailarina começa por contar que gosta de se preparar para um espetáculo mais cedo que os outros bailarinos. Quando ainda só lá está o pianista, sobe ao palco e aquece ao som do ‘afinar do piano’.

“Isso é a minha alegria antes da alegria dos outros. […] Aqueço o meu corpo ao som da promessa da música. O aquecimento ainda não é dança, é a promessa da dança”.

As marcas no corpo que nunca vencem a vontade de dançar

A bailarina fala com o seu corpo enquanto o aquece e suplica-lhe por apenas mais um espetáculo, prometendo-lhe que depois correrão juntos na floresta.

Barbora sempre afirmou que ela e o seu corpo são “duas pessoas diferentes”. O corpo escolheu que já chegava, mas a sua vontade nunca foi essa. Depois de ter sido obrigada a deixar de dançar em junho de 2014 devido a uma lesão grave no joelho esquerdo, a ex-bailarina da CNB encontrou neste espetáculo o ‘talvez volte a dançar’ que sempre esperou.

A atual mestra de bailado da companhia, chegou a afirmar que teve amigos que deixaram de dançar porque queriam passar a outra ‘coisa’. Barbora não. Filha de bailarinos e nascida quase dentro do teatro, sempre quis dançar e, apesar dos pais lhe terem dito desde cedo que não tinha corpo de bailarina, não desistiu.

“Já fiz as contas e tenho a certeza de que já passei mais horas da minha vida a dançar do que a dormir. Sonho mais quando danço do que quando durmo. Quando danço, tudo parece um sonho, mas, como tenho dores, sei que é real. Dançar dói, mas dói mais quando estou parada”.

Através das frases que pautam o espetáculo, assim como com os excertos de grandes bailados que Barbora vai dançando, o espectador vai entrando, quase a medo, dentro de uma paixão incandescente pela dança. Com isso, vai entendendo, juntamente com a expressão tão genuína da bailarina, que dançar é a sua vida e que, apesar de todas as dores, é a dançar que Barbora é feliz.

Um bailarino é também um ator

O instrumento de trabalho de um bailarino é o seu próprio corpo. Um corpo cansado, um corpo com dores, que envelhece. Um corpo que, como todos os outros, é reflexo de uma vida. Pondo de lado os problemas pessoais e as dores deixadas pelas longas horas de trabalho, o corpo dos bailarinos tem de refletir beleza e não dor, harmonia com a música e não esforço.

Os bailarinos têm de conseguir transmitir emoção e de passar para o público todos os sentimentos de uma personagem. Sem falar, têm de tocar cada espectador, têm de conseguir agarrar cada um deles. Tudo apenas através do seu corpo, de movimentos e de expressões faciais. Barbora dá como o exemplo o momento em que teve de ser um cisne.

“Este é o meu corpo e com isto tinha de dançar O Lago dos Cisnes. Era um esforço imenso para parecer um cisne. Eu não era um cisne. Um cisne não tem os ombros ao lado das orelhas.”

Sobre O Lago dos Cisnes, a bailarina conta-nos que, estando de costas voltadas para o público e sem conseguir recorrer à expressão facial, as suas costas têm de mostrar que parte dela quer ir-se embora e que a outra parte quer ficar com Siegfried.

O príncipe Siegfried, o par amoroso de Odete, a personagem principal, é o afinador de pianos. Este acompanha a bailarina desde o início da peça, para a qual compôs a música original. Mário Laginha, que acompanha Barbora ao piano, chega até a dançar com ela pequenos passos, quase como interpretando a personagem do ballet de Tchaikovsky.

A busca pela perfeição inalcançável

Barbora Hruskora grita bem alto que “dançar é não morrer”. E se deixa de puder dançar então morre. Este espetáculo é, por isso, o ‘talvez volte a dançar’ de Barbora. Apesar de ter sido afastada dos palcos, este espetáculo é o que a mantém viva, porque, apesar das dores ou dos impedimentos, quem é que consegue realmente deixar de fazer aquilo de que mais gosta?

Ao longo do espetáculo, a bailarina relata acontecimentos da sua vida, mas deixa de ser ela própria para ser todas as bailarinas e mostrar ao público tudo aquilo por que passam. A vida de uma bailarina é sempre em busca de uma perfeição inalcançável, uma vida cheia de regras e de trabalho, mas é também uma vida de prazer. Dançar é a vida e o corpo de qualquer bailarino.

A Perna Esquerda de Tchaikovski é, por isso, o espelho daquilo que é dançar, de tudo aquilo por que tem de se passar para dançar e para criar um espetáculo. Cheio de pausas bruscas, de dores e com a perna esquerda nua e sem ponta no pé (o que incomoda e quebra a harmonia que tudo o resto cria), este é o espetáculo sobre a vida das bailarinas que não foram capazes de resistir à música e que chegaram às estrelas.

Barbora Hruskova, a bailarina por trás da história

De nacionalidade francesa, Barbora Hruskova ingressou na CNB em 2003 como primeira bailarina, mas, no seu percurso, constam também a Companhia de Bailado de São Francisco, nos Estados Unidos, e o Ballet Real da Flandres, na Bélgica.

Em Portugal, dançou praticamente todo o repertório da CNB, desde clássicos como O Lago dos Cisnes e D. Quixote, a peças de Olga Roriz, Rui Lopes Graça, entre outros.

A bailarina principal da CNB terminou a carreira em 2014, por força de uma grave lesão, e fez a sua despedida com o bailado Giselle.

Tiago Rodrigues, é o dramaturgo, produtor e encenador que revisita a carreira e as marcas que essa traçou no corpo de de Barbora, com A Perna Esquerda de TchaikovskiMário Laginha, músico português, é o pianista que partilha o palco com a bailarina.

Onde podes ver…

Depois de passar pelo Teatro Camões, em Lisboa, A Perna Esquerda de Tchaikovski segue em viagem pelo país dentro da digressão nacional 2017 da Companhia Nacional de Bailado.

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