O Japão tem uma indústria de banda desenhada (Manga) e animação (Anime) incrivelmente rica. Sendo assim, é normal que o Ocidente tenha tido o interesse em adaptar algumas destas obras.

Mas nem só por adaptações esta cultura chegou ao cinema norte-americano. O realizador Daron Aronofsky chegou a inspirar-se em Perfect Blue (1995) para os seus A Vida não é um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010).

No entanto, as adaptações em live-action feitas por Hollywood não têm respeitado muito as obras em que se baseiam. Um dos piores exemplos é o de Dragon Ball Evolution (2009), um filme tão fraco que o próprio argumentista já pediu desculpa aos fãs. Por outro lado, o Japão também tem vindo a fazer as suas próprias adaptações. Já em desenvolvimento estão filmes de JoJo’s Bizarre Adventure, Fullmetal Alchemist e Bleach.

Num caso mais recente, a versão de Hollywood de Ghost in the Shell, que está agora em exibição nos cinemas, não tem escapado de controvérsia devido ao whitewashing de personagens japonesas. Até mesmo os críticos parecem estar divididos acerca da sua qualidade.

Desta feita, a rubrica 5 de hoje pretende analisar adaptações de anime e manga que não só funcionaram, como manifestaram ser excelentes filmes.

Lady Snowblood (1973-1974)

O manga original de Koike Kazuo (também autor do clássico Lobo Solitário) é uma história de vingança. A adaptação segue a mesma premissa e chega a retirar cenas diretamente das páginas da obra original.

A história em si centra-se numa busca por vingança: no século XIX, a família de uma mulher é assassinada por quatro indivíduos que enganaram a aldeia onde o crime aconteceu, de modo a escaparem impunes. Ela é levada por um deles, sendo que espera pela altura certa para o assassinar. Na prisão, consegue arranjar forma de engravidar, mas perde a vida ao dar à luz uma filha que apelida de Yuki (“neve” em japonês). Yuki passará a ser conhecida como Lady Snowblood, à medida que procura os três criminosos que arruinaram a vida da sua falecida mãe.

Se a premissa parece ligeiramente familiar, isso é porque esta duologia de filmes inspirou outra duologia mais conhecida: Kill Bill (2003-2004) de Quentin Tarantino.

O estilo dos filmes assemelha-se muito ao do manga, não tratando esta história de uma forma demasiado realista e procurando ter um estilo quase mítico que a faz funcionar melhor. Além disso, apesar de um orçamento muito limitado que obriga as cenas de ação a muitas vezes terem de ter planos fechados, deve-se dar mérito ao que foi feito sob tais limitações. Estas obras acabam por balançar tal facto com planos criativos e um uso de zoom que aumenta o impacto de determinadas cenas.

Umimachi Diary (2015)

Baseado num manga de Akimi Yoshida, Umimachi Diary pertence a um género comum em manga josei (demográfica no inicio da idade adulta): “Slice of life”. Como o nome indica, o foco deste género não está na ação, mas sim na vivência do dia-a-dia. Tanto pode-se focar em conflitos pessoais, como meramente na apreciação dos pequenos momentos da vida.

Esta história específica foca-se em três irmãs que acolhem uma meia-irmã na sua casa após o funeral do pai destas. A adaptação de Hirokazu Koreeda tem um estilo pausado e contemplativo semelhante ao dos filmes de Yasujirō Ozu. Procura fugir do melodrama e mantém-se fiel a interações cem por cento humanas.

Costuma-se dizer que adaptações de manga não funcionam, mas neste caso, Cannes não pareceu concordar, tendo Umimachi competido à Palme D’Or.

Trilogia Rurouni Kenshin (2012-2014)

Apesar de o seu titulo original ser Rurouni Kenshin, o anime baseado no manga original de Nobuhiro Watsuki chegou a Portugal sob o nome Samurai X. Ao contrário dos outros títulos referidos, Kenshin foi feito para uma audiência maioritariamente adolescente. Também tem a particularidade de ter originado na Weekly Shounen Jump, a mesma revista de origem de alguns dos mangas mais populares de sempre (como Dragon Ball, One Piece, Naruto, Bleach, Yu-Gi-Oh!, JoJo’s Bizarre Adventure, Campeões: Oliver e BenjiSlam Dunk, etc). Quem cresceu a ver desenhos animados no final da década de 1990, provavelmente lembra-se de ver este anime na TVI.

O protagonista é Himura Kenshin, um samurai que durante a guerra de Bakumatsu (1853-1867) era conhecido como Hitokiri Battōsai e agia como o assassino mais mortífero dos revolucionários que iriam ganhar a guerra. Agora, Himura usa uma espada com a lâmina revertida, de modo a não voltar a matar num duelo. Na sua tentativa de viver uma vida pacífica, várias figuras do passado vão surgindo, e desafiando a sua promessa de não voltar a tirar uma vida.

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O anime não chegou a adaptar a última história do manga na sua totalidade, e a trilogia de filmes decidiu seguir uma abordagem semelhante, ao concluir na história mais icónica da franquia (que é a penúltima). Tal como Lady Snowblood, estas adaptações não têm a pretensão de realismo, dando liberdade a alguns duelos de espada bastante impressionantes. Para além disso, deve-se destacar a excelente fotografia e uma banda sonora memorável.

Será que são adaptações perfeitas? Não completamente. Algumas partes da história até poderiam ter sido abordadas de uma forma melhor. No entanto, são obras que mesmo assim foram muito bem executadas e que acima de tudo captaram a essência das personagens (ao contrário de Dragon Ball: Evolution, por exemplo).

De certa forma, o sucesso desta trilogia tem voltado a despertar o interesse de estúdios japoneses por estas adaptações. Para além dos acima referidos – Fullmetal Alchemist e JoJo’s Bizarre Adventure – este ano já estão agendados os lançamentos de versões em live-action de Tokyo Ghoul e Gin Tama.

Oldboy (2003)

Poucos sabem, mas este clássico do cinema Koreano teve origem num manga japonês. A história centra-se num homem que passou cerca de uma década dentro de uma sala (10 anos no manga, 15 no filme), uma encarceração encomendada por um homem misterioso com ligações ao seu passado.

Apesar de se manter fiel ao conceito, ambas as obras vão divergindo cada vez mais. O filme é muito mais violento e o final é completamente diferente. As próprias motivações do vilão também fazem mais sentido na adaptação. Esta torna-se então numa das poucas adaptações que é não só de qualidade, como acaba por superar a sua história de origem. Até a icónica cena em que o protagonista está a lutar com grupos de pessoas, usando apenas um martelo, foi uma ideia original do filme.

Neste momento, Oldboy é considerado um dos grandes clássicos do cinema koreano, tendo chegado a aparecer na lista de melhores filmes do século XXI compilada pela BBC, em 2016.

Saga Lobo Solitário (1972-1974)

A lista termina com adaptação do “Magnum opus” de Koike Kazuo: Lobo Solitário. Esta saga conta a história de Itto Ogami, um guerreiro que era o executor do Shogun durante o Shogunato de Tokugawa (a posição de maior poder dessa época). Após ter sido acusado injustamente, Ogami viaja pelo Japão com o seu filho Daigoro, enquanto assassino a contrato.

O manga original é considerado um dos grandes clássicos da indústria de banda desenhada japonesa; sendo assim, seria difícil uma adaptação poder-se equiparar (ainda por cima, uma obra que conta com 27 volumes). No entanto, a adaptação ao cinema manteve-se relativamente fiel e dividiu-se em seis filmes. Tal como acontecera com Lady Snowblood, as limitações de orçamento são complementadas por boas escolhas de edição e um trabalho de câmara criativo. Aqui é ainda de notar que há um maior controlo sobre os aspetos técnicos.

Hollywood tem estado a planear um remake há vários anos, mas é pouco provável que supere estes seis épicos.