Nélson Rodrigues, anjo pornográfico, o brasileiro de contos sórdidos, o mito do Rio de Janeiro, foi publicado pela primeira vez em Portugal, no final do passado ano.

Pela mão da Tinta da China, volumes do conhecido autor como Homem Fatal, A Menina Sem Estrela A Vida como ela é…, passam a estar disponíveis nas livrarias portuguesas.

Espalha-Factos levanta hoje o véu d’ A Vida como Ela é… . Nesta compilação de 60 contos, por Abel Barros Baptista, o humor e a tragédia, a violência e a paixão compõem os retratos duros ainda que doces, daquilo que é ser humano.

A vida como Ela é…, nasce dos contos que o autor publicou, durante cerca de dez anos, no jornal A Última Hora, na coluna intitulada com o mesmo nome do agora livro.

De repórter policial a ficcionista do insólito

Nélson Rodrigues foi um dos escritores e dramaturgos mais influentes da história do Brasil. Desde menino, começou a escrever no jornal do pai, Mário Rodrigues, ex-deputado federal.

Estava ao seu encargo cobrir os temas policiais e, no contacto com a realidade mórbida, a sua imaginação floresceu. Crimes passionais, amores forçados a terminar tragicamente, adultério alimentam e fundam muitos dos contos que viria a escrever anos mais tarde.

O autor aproveitou assim, relatos da realidade, das histórias que ouviu, que contou, para as rescrever de forma por vezes cómica, por vezes catastrófica. Resulta numa crítica à sociedade brasileira da altura, especialmente no que diz respeito às questões e às formas do amor.

É possível Amar a Três?

Por volta dos anos 50, quando o autor começa a escrever a sua crónica, o Brasil vê-se embrenhado ainda no conservadorismo povoado de falsas moralidades.

Nélson Rodrigues empenha-se em desvendar o manto que obscurece a vida normal e quotidiana das pessoas. Com um foco luminoso, num registo altamente provocatório e irónico, cada publicação deste segmento era um escândalo em crescendo.

“A virtude é triste, azeda e neurastênica”

Será possível amar a três? O autor não se poupa nas palavras.  No conto Casal de Três, talvez um dos mais polémicos, com ironia, questiona o papel da mulher generosa e virtuosa, disponível.

Claro que o progresso da história é ainda mais polémico. Que dirá o marido, quando a sua mulher azeda, descuidada se torna, de repente, requintada e gentil? Poderá um homem conviver com o amor da sua mulher por outro? Poderá até aceitá-lo?

A ousadia, a sordidez e o adultério

Nélson Rodrigues foi com certeza, um dos autores mais controversos e que rompeu com os grilhões da estética literária da altura.

As suas narrativas revelam as intimidades mais indecorosas e pervertidas do dia a dia da vida burguesa brasileira.

Desde mães que não conseguem aceitar que os filhos cresceram e uma nova mulher ocupará o seu lugar de privilégio (Amor de Mãe), recém-casados, mas que se recusam a falar (O Marido Silencioso), o autor joga brilhantemente e com humor para uma faceta censurável do ser humano.

Ainda assim, o apanágio desta compilação é a infidelidade. Homens que publicitam as más qualidades de outros ao ponto das suas mulheres se tornarem suas amantes (O Canalha), mulheres de bem corrompidas a traírem os seus maridos (O Marido Sanguinário), sogros que traem os filhos e as mulheres com as noras (Os Noivos) e até cunhadas que seduzem os cunhados (O Monstro).

É nesta sujeira emocional, com Rio de Janeiro como pano de fundo, que os enredos se desenrolam. De polémico, rapidamente Nélson Rodrigues se tornou uma lenda mítica da indecência.

“O marido a olhava, pasmo de a ver linda, intacta, imaculada. Como é possível sentimentos e atos não exalem mau cheiro?”

Hino à escrita moderna com reminiscências realistas

Em pleno Modernismo, Nélson Rodrigues em A Vida Como Ela é…, não abdica da linguagem e das caraterísticas pelas quais vê a vida.

Recuperando a tragicomédia, o autor relata histórias da vida improváveis, mas ainda assim, possíveis de serem reais. Apesar de tudo, até mesmo do conservadorismo a que é associado, o autor inovou e transfigurou a era literária brasileira.

As personagens, as casas, as paisagens e as ações não são revestidas de nenhum filtro. Surgem mulheres que espremem borbulhas no espelho, homens que comentam os engates da noite passada com o grupo de amigos.

Recusa palavrões, mas incorpora expressões da gíria carioca, como “Batata” , “Cacete” ou “Cafageste” para marcar o tom tradicional e simples da sua escrita.

De leitura acessível, A Vida como Ela é… culmina num retrato etnográfica da sociedade brasileira dos anos 50. Ainda que a estrutura temática se possa tornar vagamente repetitiva e, sendo também uma obra datada em questões sociais (nomeadamente no que diz respeito ao papel da mulher), a leveza da escrita do autor é fascinante, num registo que roça o profano, sem nunca o ser.

As pequenas novelas que se desenrolam perante o leitor embrenham-no na expetativa da sordidez e do insólito, do “sem vergonha”. Passados 50 anos, as críticas provaram ser intemporais e ainda hoje, Nélson Rodrigues  é um vulto da literatura brasileira que gradualmente foi sendo mostrado ao mundo inteiro.

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. O buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”- Nélson Rodrigues

Nota: 9/10