No dia 12 de março de 1922 em Lowell, Massachussets (EUA), nascia Jack Kerouac, que se viria a tornar um dos nomes pioneiros da Geração Beat. Agora, 95 anos depois, recordamos o movimento literário dos inconformados, a quebra do tradicionalismo, uma roadtrip lendária e um livro escrito em três semanas.

Futebol e religião: as raízes da contracultura

Imagem: Alchetron

Filho de canadianos e nascido nos EUA, Kerouac foi criado num meio acerrimamente católico. A sua mãe, Gabrielle-Ange Lévesque, era uma católica devota que desde cedo instilou a fé nos seus filhos. Gerard, o seu irmão mais velho, morreu de febre reumática aos nove anos. A educação religiosa e a morte do irmão afetaram-no profundamente, tendo vindo a escrever, em 1956, Visions of Gerard.

A literatura era uma paixão de criança, juntamente com o desporto. Mas não era na escrita que Kerouac via o seu futuro e, por isso, foi aceite na Universidade de Colômbia através de uma bolsa académica de futebol americano.

Porém, no seu primeiro ano de universidade partiu uma perna. No segundo envolveu-se em discussões com o treinador, o que o levou a abandonar a sua carreira desportiva e, consequentemente, a deixar a universidade.

Mais tarde, depois de uma temporada de trabalhos esporádicos e uma curta carreira de 10 dias na Marinha americana, regressou a Nova Iorque. Aí iria, finalmente, germinar Jack Kerouac enquanto ícone da contracultura.

Sexo, drogas e jazz

Imagem: Le Cinéma @ Twitter

Nova Iorque, anos 40. Jack Kerouac conhece Allen Ginsberg, aluno da Universidade de Colômbia, e William Burroughs, outro desistente da universidade. Juntos, são considerados o epítomo e o culminar de uma época marcada pela quebra do status quo e da rigidez social.

Este segundo, mais intenso choque entre a sua infância e educação familiar numa pequena cidade e as maravilhas da grande cidade, vieram a originar o seu primeiro romance publicado – Town and City, em 1950.

Apaixonado pelo jazz desde a sua primeira estadia em Nova Iorque, aquando dos seus tempos de universidade, a sua obra é inspirada por artistas como Charlie Parker. Não só nos seus trabalhos poéticos, que se estruturavam com os ritmos bebop do género, mas também na aura que envolve On the Road, que viria a ser a bíblia da Beat Generation.

Três anos na estrada, três semanas de escrita

Imagem: Esquire

No final dos anos 40, Kerouac e Neal Cassady, também ele um poeta e figura notável do movimento Beat, embarcaram numa série de roadtrips sem destino pelos EUA. Foram à descoberta do verdadeiro sonho americano, do seu lugar numa América pragada pela Guerra Fria, ou apenas numa tentativa de libertação. As suas viagens levaram-nos a lugares como Chicago, Los Angeles, Denver, e até à Cidade do México.

Embebido das experiências e após anos de preparação a organizar os seus apontamentos sobre as viagens, Kerouac escreveu o livro em três semanas, num rolo de papel de 36 metros, para que não tivesse de perder tempo a mudar de folha. Foi um momento de “prosa espontânea”, como Kerouac o viria a denominar, diretamente inspirado no improviso dos seus ídolos do jazz.

Nothing behind me, everything ahead of me, as is ever so on the road.

(On The Road)

A ideologia dominante do movimento – o carpe diem perfeito, o aproveitar o momento sem preocupações com o passado ou futuro – é central no magnum opus de Kerouac. Diretamente inspirados em si e em Neal Cassidy, as personagens Sal Paradise, um escritor jovem e inocente, e Dean Moriarty, um rebelde louco e apaixonado pela vida e aventura, partem numa viagem pela América através da mítica Route 66.

No entanto, o formato inconvencional da obra criou obstáculos à sua publicação. Nenhum editor se arriscava a publicar um romance aparentemente sem formato, entregue num único rolo de papel. Passaram-se seis anos até que este fosse publicado, em 1957, e tornou-se imediatamente num sucesso, enaltecido pela crítica como a pedra armilar e o testamento do movimento Beat.

Apesar de com as suas obras (como Tristessa, Desolation Angels ou Vanity in DuluozJack não ter conseguido o boom que On The Road atingiu, para sempre ficou imortalizado como a voz de uma geração rebelde, inconformada, em busca de um futuro mais livre.

Kerouac veio a morrer com 47 anos, em 1969. Até hoje, cativa gerações após gerações de sonhadores.