Uma parte importante de Vale de Amor – que o filme faz questão de reiterar sempre que pode – é a imagem de Gérard Depardieu empapado de suor. Bom, Death Valley é uma das regiões mais quentes do globo, isso já nós sabemos, mas a transpiração de Depardieu sinaliza uma outra aridez, interior, psicológica talvez, tão presente no filme quanto o deserto geográfico onde tem lugar esta história. E aqui lembramo-nos do suor de Meursault, a reação biológica que se impunha na ausência de uma emoção espontânea e significante, o suor que não seria mais que uma impassível resposta ao absurdo do mundo.

Há Camus suficiente em Vale de Amor para que ligações como esta não sejam assim tão rebuscadas como poderão parecer à primeira vista. Aliás, não nos surpreende esse gosto literário pelo pessimismo existencial se tivermos em conta que Michel Houellebecq é o protagonista do filme anterior de Guillaume Nicloux (em O Rapto de Michel Houellebecq, o escritor era sequestrado por um grupo de homens surpreendentemente afáveis por razões desconhecidas, e já aí andávamos no terreno do absurdo e do irresoluto). Vale de Amor, de certo modo, é também uma história de reféns, embora desta vez não haja raptores propriamente ditos, apenas vítimas.

Narra-se o reencontro de um casal divorciado, dois atores que uma tragédia partilhada reúne no Vale da Morte. Chamam-se Isabelle e Gérard e são interpretados por Isabelle Huppert e Gérard Depardieu (num jogo de auto-referência um pouco mal aproveitado, um piscar de olho que não se resolve nem se deixa ser resolvido). Os dois estão de luto pela morte do filho, Michael, e viajam até ao deserto californiano para cumprir o último desejo dele. Michael, antes de se suicidar, deixou-lhes uma espécie de roteiro de pontos turísticos que os pais deveriam visitar caso quisessem vê-lo novamente. Isabelle é a que está mais disposta a fazer a estranha peregrinação e a acreditar na ressurreição ou aparição espectral do filho; Gérard é o cético, pensa que só foi para aquele sítio insuportavelmente quente perder o seu tempo.

Dois vivos reféns da vontade de um morto, caminhando por um lugar desolado, estrangeiro (sim, como se a angústia não fosse já bastante, há que pôr alguma incomunicabilidade na mistura para obter o mais alienante dos xaropes existencialistas). Não parece coisa divertida de se ver, pois não? É penoso, sim, mas é coerente que assim o seja, é “de propósito”. A piada de O Rapto de Michel Houellebecq acabava depressa porque sentíamos que lhe faltava uma razão de ser, uma finalidade última para todo aquele acumular de esquisitices e divagações filosóficas. Já em Vale de Amor descobrimos uma ideia de fundo: a importância do sinal, do índice, da pista.

Entretemo-nos a ler o que se esconde nas entrelinhas de cada visão, cada acontecimento, até que o fim do filme se torna no próprio filme. Isto é, até que ficamos definitivamente presos à questão “irá o filho deles finalmente aparecer?” e tudo o resto começa a arrastar-se. Fixamo-nos nessa antecipação visto que, a dada altura, não temos muito mais onde agarrar. É uma pena que Vale de Amor chegue a esse ponto, mas a sua secura é implacável. Passamos certamente bons momentos com o casal, porque Huppert e Depardieu são dois excelentes atores que se complementam muito bem e há um evidente cuidado na construção dramatúrgica das cenas mais palavrosas em que os vemos juntos. A relação deles intriga-nos sobretudo por não se encontrar num ponto de partida ou in medias res: está tudo acabado; o que dividem é um passado, não um amor.

Vale de Amor deixa-se contagiar pela aridez da paisagem e enche-se de fantasmas – de pessoas, de conceitos, de outros filmes… Nestas condições, porventura mais até do que o previsivelmente formidável par de atores, o melhor do filme é a beleza extraterrestre da sua cinematografia, quando o cenário despido e rochoso a permite (já do lado menos fotogénico e mais humanizado do mapa sobressai um travelling noturno muito bem conseguido). Ficou ainda muito por fazer, mas a duração generosa de Vale de Amor e a oportunidade que nele encontramos para ver Huppert e Depardieu reencontrados situam-no algures entre o bom e o tolerável.

 

6/10

 

Ficha técnica
Título: Valley of Love
Realizador: Guillaume Nicloux
Argumento: Guillaume Nicloux
Elenco: Gérard Depardieu e Isabelle Huppert
Género: Drama
Duração: 95 minutos