Virginia Woolf nasceu em 1882, em Inglaterra, e foi umas das figuras mais distintas do Modernismo literário.Criada no seio de uma família de alta sociedade, desde cedo contactou com livros e com questões do foro literário, não fosse o seu pai, como a própria viria a ser também, crítico literário.

Foi em sua casa, e por sua influência, que surgiu e se perpetuou o Grupo Bloomsbury. A este pertenciam inteletuais e artistas de grande renome, como T.S. Elliot (esporadicamente) ou Clive Bell.

O mês de março, em que se recorda o seu trágico falecimento, é também o mês em que o Espalha-Factos a homenageia com o título de Autora do Mês.

O início da vanguarda: a escrita moderna e a mestria do fluxo da consciência

Virginia Woolf é uma mulher num mundo de inteletuais maioritariamente masculinos. Embora estivesse em clara minoria, a mestria e o talento da sua escrita permitiu que se afirmasse nesse universo.

Quando começou a escrever e a publicar, paralelamente, as águas literárias em Inglaterra começavam a agitar-se. Fazia-se sentir a necessidade de romper convenções, paradigmas e de criar algo que, não sendo necessariamente novo, seria diferente.

Woolf rasga a maré e, de forma exemplar, apropria-se de uma nova técnica da escrita, a qual corporiza nos seus romances.  A escritora abstêm-se significativamente do papel de narrador e dá voz às personagens, que o fazem, ainda assim, de modo original.

É pelo desbravar dos pensamentos que povoam as mentes dos homens e mulheres da sua ficção, pelo deslindar do que os atormenta, do que os motiva, do que os explica e justifica, que o leitor os conhece.

De Mrs. Dalloway à consagração como escritora reputada

Virginia Woolf estreia-se na literatura a 1915 com A Viagem.

Fonte: Wook

Ainda assim, só passados dez anos desta publicação Woolf é aclamada pela crítica com o livro Mrs. Dalloway. Com esta obra,  a autora liberta a escrita dos cânones prévios e inaugura uma das primeiras publicações da era moderna.

A trama retrata um dia da vida de Clarissa Dalloway, no rescaldo da primeira grande guerra. Esta terá que preparar uma festa em sua casa, bem como receber os convidados.

Ainda que o enredo se organize num só dia,  em torno de um acontecimento principal, a autora (que enceta uma nova forma de escrever) coloca Mrs. Dalloway e os seus pensamentos, que viajam para lembranças ou aspirações, no cerne da narrativa.

Questionando o papel da mulher, dinamicamente situada entre aquilo que é e o que quer ser, Virginia Woolf consegue criar uma prosa crítica e social do processo de humanização.

“Mas, afinal, não serão as partes melhores da nossa vida pouco mais do que invenções?”

Rumo ao Farol, à família, às tensões e à indiferença dos laços

No livro que sucede Mrs. Dalloway, Virginia Woolf mergulha na viagem de uma família prestes a visitar um farol. 

Rumo ao Farol, publicado em 1927, volta a configurar a escritora num paradigma da escrita introspetiva, ensaística e por vezes, filosófica.

Na história desta família e da sua visita ao farol, as personagens falam-nos pela mão da escritora, revelando os seus pensamentos. Temporalmente, decorre por dois dias, separados por dez anos. As tensões familiares são o mote da obra, bem como os conflitos entre homem e mulher, que de novo, remetem para o questionamento do papel feminino na sociedade.

É também a história de uma família que está em guerra, num cenário de guerra externa (uma realidade familiar à autora). Uma análise às fragilidades humanas, à indiferença uns pelos outros, mesmo aqueles que comungam de laços que os transcendem.

“(…)ela sentia, muitas vezes, que não passava de uma esponja encharcada em emoções humanas .”

Orlando: Uma Biografia e Um quarto só para si: a literatura no entrelaçar com a condição feminina

Virginia Woolf foi uma mulher privilegiada numa fase histórica marcadamente patriacal e machista no que toca à produção artística. Isto permite que a autora, com conhecimento de causa, tenha a perícia para escrever sobre as questões de género e sobre o que implica ser mulher, especialmente em obras como Orlando ou Um quarto que seja seu.

Fonte: Wook

Fonte: Wook

Em Orlando, Woolf aposta num cunho diferente das suas obras anteriores. Pondo de parte o fluxo da consciência, este livro apresenta-se como semi-biográfico, relatando a história da sua amiga intíma Vita Sackville-West. 

Um livro bem disposto, divertido que relata a história de um homem, Orlando, que certo dia, ao acordar percebe que a noite o transformou numa mulher.

Um quarto só para si, por sua vez, é um ensaio da autora. Baseado em palestras que a autora proferiu relativamente às questões de género, assume-se essencialmente como uma obra feminista, que consciencializa o papel da mulher na sociedade.

O relato do humano individual em As Ondas

Em 1931, publica As Ondas

Perpetuando a técnica do fluxo da consciência, são nos apresentadas seis (ou sete) personagens, seis pessoas que são a conhecer expondo a sua interioridade.

Fonte: Wook

Bernard, Neville, Jinny, Rhonda, Louis e Susan- em torno destas personagens gira o enredo. Cada uma delas, com especificidades particulares, deliberam sobre as questões de individualidade.

Ondas por o próprio ritmo do romance sugere este movimento torrencial, com uma força tempestuosa.

No fundo, este livro de Virginia Woolf é uma reflexão sobre a humanidade que parte de próprios humanos, de pessoas aparentamente reais, que se nos revelam (quase sempre) sem intermediários.

Inevitavelmente, arrumar As Ondas como romance, ensaio, filosofia toma contornos indestrinçáveis , isto porque o livro reúne, em última análise, reúne-os a todos.

O fim: a depressão e a morte

Fonte: Brain Pickings

As dificuldades de saúde psíquica de Virgina Woolf são, desde cedo, relatadas.

Desde criança que a autora sofrera de severas depressões, muito devido também às mudanças familiares, sociais pelas quais passara.

Numa fase particularmente crítica da II Guerra Mundial, com a destruição da sua casa em Londres, embarca de novo numa forte depressão, da qual achou nunca sair.

Por isso, em março de 1941, preencheu os bolsos do seu casaco com pedras, caminhou em direção ao rio Ouse, e deixou-se afogar.

Deixou uma última carta ao seu marido, onde explica as suas razões e lhe agradece pelo amor, pela paciência e pela compreensão da autora como uma mulher diferente.