Sofar Sounds Lisbon celebrou o seu 3.º aniversário no dia 26 de Março, no Lost Collective, o lounge do Lost Lisbon, no Cais do Sodré. Diz-se por aí que o espaço se repetiu, mas quem já conhece o conceito sabe que não fez diferença. A surpresa está lá, sempre, na música e nos pequenos momentos que se constroem com as pessoas.

Regressemos atrás no tempo, num exercício de nostalgia. É domingo, ameaça chover e começa a formar-se um futuro mar(zinho) de gente na Travessa do Corpo Santo. Pouco depois das 17h, a porta abre e a corrente começa a puxar, com ritmo, sem empurrões, só uma vontade de sentir um pouco mais de calor.

Antes de chegarmos ao destino surge o famoso chapéu dos donativos. Como os concertos não são pagos, aposta-se na boa vontade do público. Não há muito na carteira, mas deixa-se o que se pode e promete-se generosidade numa próxima. Sim, claro, não vale a pena fazer suspense, vamos querer voltar.

Sobe-se as escadas, em curvas e contra-curvas, e faz-se um esforço para não deixar cair o queixo ao pisar a madeira escura do Lost Collective. Que nome estranho. Se estávamos perdidos, tenho a certeza que ali nos encontrámos, nem que seja uns com os outros. De frente, não há palco, mas damos com as costas de dois sofás, relativamente espaçosos, orientados para os instrumentos de alguém. Um piano eletrónico, uma bateria, se há guitarras não reparamos a princípio.

Recordemos só que o segredo é a prata da casa. De Londres para Portugal, o Sofar Sounds mantém o mistério até à última. Para além da data não se sabe muito mais. Só um dia antes do evento o sítio é revelado. Os artistas só à hora dos concertos. Os curiosos e os impacientes estão tramados, está visto.

Não faz mal, enquanto se espera, aprecia-se o espaço com o olhar. As paredes azul turquesa, os tapetes antigos, os cadeirões e uma máquina de escrever, mesmo junto a uma jarra com um girassol. Na mesa de pingue pongue já há um jogo a acontecer. O chão enche-se lentamente. Os lugares a ser ocupados e o frigorífico, que nos desafia malandro “Prova que tens maçãs”, a ser assaltado por causa da Bandida do Pomar, que se tornou a minha sidra preferida com apenas um gole.

Passou uma hora e a música continua por acontecer. A vida não, está em movimento há muito, e um gato laranja, que entrou ao colo, salta com jeito felino para os cumprimentos da praxe antes de, finalmente, se pedir silêncio. Faz três anos que a Sofar chegou a Lisboa. Nelson Ribeiro é o autor do poster de aniversário. Elogia-se a arte e passa-se dos traços para o som.

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Royal Bermuda, o duo de guitarras de André Parafina e Diogo Esparteiro

Royal Bermuda a abrir um fim de tarde há muito esperado. André Parafina e Diogo Esparteiro são os cavaleiros de uma exótica saudade, que se difunde através de um duo de guitarras. Tão simples quanto isto. Sem artifícios, sentados frente a frente, sem fechar o círculo ao público.

De Salvador da Bahia a Odessa, de Miranda do Douro a Mindelo, as referências são muitas e tanto se toca uma balada, a dar vontade de fechar os olhos e nos deixarmos embalar, como uma folia que convida a dançar, que espicaça as pernas e os braços e instiga, mesmo os mais descoordenados, a marcar o ritmo.

Sem perceber nada de música (nem os três anos de violino me valeram, não sei distinguir um ré de um mi e acho as pautas autênticas obras de abstracionismo), arrisco dizer que a sentir todos somos bons. E se o corpo aquece e a alma se eleva, transborda da pele e viaja um pouquinho por memórias, reais ou imaginárias, então, deixem-se de tretas, é porque é do caraças.

O intervalo chega e dá para ir repor baterias (com café, fruta ou o bolo que alguém trouxe para assoprar velas que não existem), enquanto se pensa o quão incrível é que os miúdos que juntam a tradição à descoberta se tenham estreado há tão pouco, a três de fevereiro, a convite da Companhia João Garcia Miguel, no ciclo Filhos de Nenhures, no Teatro Ibérico.

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Alek Rein (Alexandre Rendeiro) e banda

Está entendido que a experiência às vezes não quer dizer muito, mas se há quem confie que o tempo afeta a qualidade (como no caso do vinho do Porto, quanto mais velho melhor), então dê-se as boas vindas a Alek Rein, o alter ego de Alexandre Rendeiro. Lançou o primeiro EP, Gemini, em 2010 e acabou por deixar passar seis anos até apresentar Mirror Lane, o seu primeiro longa-duração. Pelo caminho, estudou filosofia e cinema experimental, fez umas residências artísticas, mas nunca deixou de tocar.

O bom e velho rock ‘n’ roll. Com um toque de psicadelismo folk de quem vem de outro mundo. A minha colega de quarto, obrigada a ouvir o que me apetece sentir em voz alta, não hesita em dizer que lhe lembra a voz dos Beatles (porque no fundo os Beatles são uma só voz) e recorda a banda sonora do filme Across the Universe, “ah tão bom!”. 

Rendeiro não está sozinho, trouxe a banda para o acompanhar. Quando Luís Barros, o baterista, tem um percalço com as baquetas, faz um solo de guitarra elétrica até se voltar a ouvir os pratos. Agora que penso, talvez o baixo tenha ajudado à festa, mas não tenho a certeza. Três músicas que passaram num instante. Dou por mim a cantarolar a Tigerskin/Triple Divide Peak.

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Catarina Falcão a contra-luz

Bebe-se mais uma sidra. Esperemos que toda a gente tenha tido a oportunidade de provar a Bandida. O frigorífico está vazio e ainda falta ouvir Catarina Falcão, metade das Golden Slumbers, o duo de irmãs que este ano tentou a sorte no Festival da Canção, com uma música escrita por Samuel Úria, e que eu gostava de ter visto seguir em frente.

Com influências country e uma voz bonita, pinta-se um pôr do sol que provavelmente só aconteceu na minha cabeça. Não sei dizer se Margarida Falcão faz falta, pessoalmente gosto das harmonias, mas Catarina tem dom, não custa nada admitir. Tenho pena só de não a ter ouvido cantar em português.

São quase horas de jantar e está na hora da despedida. Leva-se os nomes fixados para se voltar a ouvir em casa, enquanto se aconchega o estômago. Os estreantes, numa tarde em que estavam claramente em maioria, contam de certeza voltar. Não só pelo mistério, não só pelos sons, não só pela amálgama de gentes, nem só por mimos como a raposa das maçãs ou pelos espaços que surpreendem. Sobretudo pelo sentimento de pertença, pela comunidade que se junta em celebração, sem holofotes, sem palco, só o presente.

Fotografias: Raquel Dias da Silva [em atualização]