Se existe um grupo de coisas que são fortes o suficiente para que todas as pessoas possam concordar com elas, nesse grupo está o facto de Portugal ser um país rico em festivais de verão (e música, muita boa música). Tanto em quantidade como em diversidade.

Apesar disso, de a escolha estar próxima de ser ilimitada e de haver opções para todos os gostos musicais e dimensões, arrisco-me a dizer que poucos ou mesmo nenhum festival de música em Portugal será tão singular como o Bons Sons, na aldeia de Cem Soldos, bem pertinho de Tomar.

Esta festa, que se dedica única e exclusivamente à música portuguesa e que faz da aldeia e dos seus limites a área do seu recinto, completa este ano o seu 11. º aniversário e, crescida, está como a saúde da música portuguesa: mais forte do que nunca.

A aldeia

Todos os festivais dependem de forma mais ou menos direta daquilo que se escreve e diz deles nos diversos meios de comunicação social. É por isso que todos têm press releases, é por isso que todos têm eventos exclusivos para convidados e jornalistas, é por isso que todos arranjam aqui ou ali rooftop bars onde montam mesas com croquetes e risotto de camarão para apresentar cartazes. Já o Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), que é a associação cultural local responsável pela organização do Bons Sons e de praticamente todos os eventos culturais da aldeia, faz as coisas de forma diferente. E mais bonita, por sinal.

Passava pouco das 9h30 desta terça-feira quando no cruzamento entre o Campo Pequeno e a Sacadura Cabral um autocarro nos apanha e se faz à estrada a caminho da aldeia. Duas horas depois pousamos os pés em Cem Soldos e a atmosfera sente-se de imediato.

Amigável, confortável, convidativa e lenta. Mas não daquele lento preguiçoso, é um lento de quem está bem, de quem não tem pressa para nada. Entre 11 e 14 de agosto, Cem Soldos terá 30 mil habitantes. Neste momento tem apenas mil. E, desses mil, todos aqueles que nos viram sabem quem somos, sabem ao que viemos e fazem questão de nos acolher de braços abertos.

Bom dia não é uma frase só para os conhecidos, é uma frase para todos aqueles que vemos. Começa a tornar-se evidente o porquê de o festival ter ganho em 2016 o prémio de melhor acolhimento e recepção, a par do prémio de melhor alinhamento no Iberian Festival Awards.

“Tudo é bonito, confortável e acolhedor em Cem Soldos”

De seguida, em jeito de passeio à vila e com direito a showcases de Valter Lobo e Surma – que atuarão no festival – são-nos mostrados os locais onde estarão cada um dos 8 palcos do evento, o centro de exposições onde este ano haverá performances e outras actividades paralelas, as ruas onde se fará o mercado e onde estarão as bancas de comida. Comida daquela real, da terra, dos locais. Não são os cachorros psicadélicos de outras andanças.

Tudo é bonito, confortável e acolhedor em Cem Soldos, mesmo sem o Bons Sons. A aldeia, o passeio, o mouchão com uma pedra de gelo e o bolo dos santos a acompanhar para o lanche da manhã; o cartaz apresentado (que pode ser visto no fim da página) no auditório que também será palco e o repasto com que nos presentearam ao início da tarde e que estava recheado de iguarias da terra.

Mas onde se chega com tudo isto? À ideia de que a organização quer tratar os “seus” jornalistas da mesma forma que tratará o seu público. Como velhos amigos que retornam e por uns dias ou apenas umas horas são e sempre foram habitantes da aldeia. O festival, na sua forma de produção, promove uma proximidade gigante entre artistas e fãs, entre campistas e trabalhadores, entre “estrangeiros” que vêm a Cem Soldos e os habitantes locais que, nota-se, vivem felizes por receberem tanta gente todos os anos.

A simbiose é perfeita: de um lado aqueles fogem à urbe em busca da calma do interior. Do outro, aqueles que os recebem e que sabem que tudo isto é um motor. Para o desenvolvimento cultural e económico da região, para fazer crescer a capacidade de garantir que aqueles que nascem e crescem na terra ficam na terra ou ela retornam.

Tudo isto me cresce na cabeça apenas e só através de uma visita de imprensa à aldeia. Visita que, para poupar trabalho, poderia ter sido simplesmente um beberete num lugar trendy qualquer em Lisboa. Mas as pessoas daqui sabem receber e batem o pé para o demonstrar em tudo o que fazem.

No autocarro para Lisboa eu, que até já tive a minha dose significativa de festivais de verão, não sou capaz de deixar de pensar onde é que andei a errar na minha vida para que, ao fim de quase onze anos de Bons Sons, nunca aqui tenha posto os pés. Pelo menos já sei que terei amor à minha espera.

Bons Sons 2017

10 agosto
Inês Lamim

11 agosto
Palco Lopes Graça
Virgem Suta
Holy Nothing

Palco Eira
Capitão Fausto
Glockenwise

Palco Giacometti
Surma
Whales

Palco Aguardela
Thunder & Co + Groove Salvation

Palco Tarde ao Sol
Manuel Fúria

Palco MPAGDP
Singularlugar
Band’olim

Auditório
Ana Jezabel e António Torres

12 agosto
Palco Lopes Graça
Né Ladeiras
Medeiros/Lucas

Palco Eira
Mão Morta
Throes + The Shine

Palco Giacometti
Señoritas
Filipe Sambado

Palco Aguardela
Zé Nuno / Sam U / Beatdizorder

Palco Tarde ao Sol
Les Saint Armand

Palco MPAGDP
Filipe Valentim
Lucía Vives + João Raposo

Auditório
Lander & Jonas

13 agosto
Palco Lopes Graça
Paulo Bragança

Palco Eira
Orelha Negra
Samuel Úria

Palco Giacometti
Joana Barra Vaz
Captain Boy

Palco Aguardela
Txiga / Celeste + Mariposa

Palco Tarde ao Sol
Sonoscopia

Palco MPAGDP
Sampladélicos
Moços da Vila

Auditório
Carlota Lagido

14 agosto
Palco Lopes Graça
Rodrigo Leão
Frankie Chavez

Palco Eira
Octa Push
The Poppers

Palco Giacometti
Valter Lobo
Marco Luz

Palco Aguardela
Rodrigo Affreixo

Palco Tarde ao Sol
LST

Palco MPAGDP
Sanct’Irene
Moçoilas