No universo da sétima arte, todas as estrelas brilham. Porém, nem todas têm o mesmo espaço para brilhar ou recebem a mesma recompensa por fazerem-no. É que o flagelo da desigualdade de género está de tal forma enraizado na nossa sociedade, que nem o mundo da produção artística lhe escapou.

Se nos focarmos particularmente no suposto palco dos sonhos que é Hollywood, esta verdade que tantos insistem em negar, torna-se particularmente alarmante. Sigourney Weaver (na imagem de destaque) e Vivien Leigh são afinal tão excepcionalmente resistentes como as suas protagonistas em Alien – o 8º passageiro e E Tudo O Vento Levou: inamovíveis e, em última instância, triunfantes, na luta por um lugar de destaque num mundo que lhes é hostil.

Não espanta que para alguns seja difícil acreditar: afinal, são mais do que frequentes as ocasiões em que saímos à rua e nos deparamos com um belo e apelativo rosto feminino no cartaz promocional de um filme. Porém, a instrumentalização da imagem da mulher para fins lucrativos já é facto consumado e nada nos indica acerca do real lugar por ela ocupado no seio da indústria cinematográfica. Foquemo-nos primeiro nos números.

De acordo com um estudo realizado pelo Center for the Study of Women in Television and Cinema, no total dos cem filmes americanos mais rentáveis de 2015, as mulheres constituíam apenas 22% das personagens principais. Para as que trabalham atrás das câmaras, a situação agrava-se: dos 800 filmes mais lucrativos que estrearam entre 2007 e 2015, apenas 29 foram realizados por mulheres. Dados os factos, talvez não seja por isso de admirar que, em oitenta e nove anos de Oscars da Academia, apenas quatro mulheres tenham sido nomeadas para o prémio de melhor realização – Lina Wertmüller, Jane Campion, Sofia Coppola e Kathryn Bigelow – e apenas uma tenha ganho (Bigelow, pelo seu corajoso Estado de Guerra).

As estatísticas falam por si, mas não chegam para apreendermos a total dimensão do problema. Como de costume, o que está em jogo não é apenas a quantidade, mas também a qualidade. Afinal, quantas vezes vimos uma mulher ser a grande força e singular motor de uma narrativa? Todos já assistimos a filmes em que um único homem carrega às suas costas um enredo, não raras vezes com uma mulher no ingrato papel de interesse amoroso, atabalhoadamente incluída para apelar a um público feminino que, injusta e preconceituosamente, consideram ser movido pelo romance. Por outro lado, será que vemos a situação inversa ocorrer com a mesma frequência? E quantos destes papéis principais incluídos nos já em si vergonhosos 22% não são na verdade de mulheres que, ainda que com direito a estatuto de protagonista, tiveram de partilhar equitativamente o seu tempo de antena com um protagonista masculino, numa relação de co-dependência que a ofusca e não a deixa erguer-se nos seus próprios pés?

Algumas lufadas de ar fresco muito bem-vindas têm, no últimos anos, deixado a sensação – ou a ilusão? – de que uma mudança de paradigma se encontra de momento em operação. Afinal, duas das sagas infanto-juvenis mais rentáveis do século, The Hunger Games e Divergente, fizeram de personagens femininas a sua alma e coração. Se para os críticos os dois grandes franchises se revelaram fáceis de esquecer, ficámos com o legado deixado por milhões de jovens que em todo o mundo se deslocaram às salas de cinema e mostraram a Hollywood que o seu tão valioso “strong silent type” também pode ganhar forma no corpo e no rosto de uma mulher, sem nunca abdicar dos seus índices de popularidade. Da mesma forma, filmes premiados pela Academia como As Horas, O Cisne Negro ou Gravidade demonstraram a força que reside em histórias onde as mulheres não partilham com co-protagonistas masculinos as luzes da ribalta.

A idade não é um posto para todas

Contudo, dificilmente podemos falar de uma tendência. É que a quantidade e a qualidade dos papéis não podem ser os únicos factores a levar em conta quando avaliamos as implicações de ser actriz em Hollywood. O Center for the Study of Women in Television and Cinema debruçou-se também sobre as idades dos profissionais em actividade e concluiu que as mulheres são, em geral, mais jovens: 23% estão na casa dos 20 enquanto 30% estão na casa dos 30. Por outro lado, 53% das personagens masculinas têm mais de 40 anos, em contraste com os 30% de mulheres em idades correspondentes.

Estas estatísticas são relevantes porque nos permitem compreender que não existe em Hollywood o espaço necessário para que actrizes com décadas de carreira e de sucessos consolidem uma posição enquanto figuras de autoridade no âmbito da arte da representação. Que haja uma distribuição tão equilibrada pelas diferentes faixas etárias mostra-nos afinal que, na cidade dos sonhos, as mulheres não têm o mesmo direito a envelhecer. O seu conhecimento de experiência adquirido é secundário face à vivacidade e beleza física que os anos lhe custaram, porque o alcance do seu talento nem sempre interessa verdadeiramente a Hollywood. É convidada a superar-se até determinado ponto da sua carreira, a partir do qual as ofertas começam a escassear porque a cada ruga que vai surgindo discretamente na sua pele, a indústria considera-a menos e menos apelativa e, por isso, progressivamente menos rentável.

A óbvia excepção é a senhora perante a qual todos se dobram, Meryl Streep. Mas talvez estes números contribuam também para entendermos o porquê de ano-sim ano-sim o seu nome constar na lista de nomeados para as categorias de Melhor Actriz. Os papéis escritos para mulheres da sua idade são poucos e ainda menos são as actrizes que conseguiram sobreviver ao inexorável ordálio do tempo.

As disparidades estendem-se aos direitos dos trabalhadores. Em outubro de 2015, Jennifer Lawrence esteve no centro de uma polémica ao denunciar em carta aberta o facto de os seus co-protagonistas Christian Bale e Bradley Cooper terem recebido mais pelo seu trabalho no filme Golpada Americana do que Amy Adams e ela própria. Não tardaram a fazer-se ouvir as vozes mais críticas argumentando que Lawrence não tinha direito a protestar, uma vez que recebe cachets de milhões de dólares por cada filme no qual participa.

Esquecendo por momentos estas considerações – que, apesar da sua pertinência, foram utilizadas para mascarar uma questão bem real cuja gravidade transcende Hollywood e os seus orçamentos estratosféricos -, verificamos que a injustiça (porque não deixa de o ser) a que a actriz se refere é um facto bem conhecido em Hollywood. Os mesmos estudos concluíram que o salário das actrizes atinge o seu pico por volta dos seus 34 anos de idade, entrando depois numa acentuada curva descendente. Por outro lado, é aos 51 anos que os homens em Hollywood recebem mais, não se notando nenhum decréscimo significativo à medida que os anos avançam.

Porém, nem sequer é à frente das câmaras que o trabalho das profissionais do cinema mais é desvalorizado. E nem sequer é aqui que o problema da igualdade de género adquire maior gravidade. Porque se as mulheres que comandam as tropas atrás das câmaras são tão inferiores em número aos seus colegas no masculino, como podemos esperar que elas tenham o mesmo tipo de tratamento diante da objectiva?

Aplica-se semelhante princípio à situação dos argumentistas. Já Virginia Woolf apregoava no seu tempo que, mais importante do que os homens começarem a escrever sobre mulheres, é que as mulheres se escrevam a si próprias. Só assim poderemos esperar que elas surjam representadas justa, livre e condignamente. Tanto no mundo real como no palco dos sonhos.