No Dia Internacional da Mulher, Darko, Kika Cardoso e vários artistas do The Voice pisaram o palco do evento One Bilion Rising, montado na Estação Ferroviária do Rossio, e cantaram em apelo ao fim da violência que faz vítimas mil milhões de mulheres em todo o mundo.

“Todas as semanas uma mulher é assassinada ou agredida pelo companheiro ou ex-companheiro. Experimentem perguntar a uma amiga ou uma prima se já passaram por isto e talvez se surpreendam com a resposta”. Este foi o alerta da apresentadora Filomena Cautela no passado dia 8 de março, no evento One Billion Rising organizado pela Changing Wave.

O One Billion Rising é já um fenómeno mundial. A associação, criada por Eve Ensler, é um dos maiores movimentos na luta pelo fim da violência contra as mulheres. O seu mote é protestar esta violência que atinge uma em cada três mulheres ao longo da sua vida (perfazendo mil milhões em todo o mundo) através da dança.

A organização, que conta com cinco anos de existência, nasceu de um exemplo real. “A diretora estava numa terra em África e observou que as mulheres faziam um ritual de dança de cerimónia para esquecerem a violência que era praticada contra elas e isso é fenomenal. A partir do momento em que ela observou esse ritual de dança, começou a fazer disso um evento e tornou-se mundial e nós temos muito carinho por esse evento, é algo que queremos implementar aqui em Portugal”, explica Sara, uma das fundadoras da Changing Wave.

Por sua vez, também a Changing Wave pretende mobilizar as pessoas, em particular os jovens, através das artes performativas (teatro, música e dança). Esta associação, fundada em 2014, tem como mote a promoção da igualdade e o fim da discriminação.

Pretende ser uma “onda de mudança” na mentalidade das próximas gerações e a forma como se manifesta é uma reflexão do seu público-alvo, os jovens.

“Neste momento, unimos as pessoas muito pela dança, pela música, pelo teatro, pelas artes. Porque se o nosso público-alvo são os jovens e o objetivo é alterar a próxima geração em termos de mentalidade, faz sentido que seja através das artes e parece-me a mim que essa é também a forma mais positiva, porque quando se lida muito com estas questões de reivindicar direitos humanos, ao longo do tempo pode tornar-se um pouco pesado”, explica Sara.

A associação junta pessoas de diversas áreas, todas elas com um mesmo objetivo: “promoção da igualdade e discriminação zero”. Em três anos de existência, a Changing Wave reivindicou os direitos humanos em campanhas como a #Igualdade, mas continua em processo de construção.

“Foi uma mistura de ideias, não foi do género ‘sabemos o que queremos fazer hoje e agora’. Nós ainda estamos numa descoberta constante. Foi entre conversas e conhecimento de muitas áreas diferentes: economia, antropologia, finanças, marketing. Nós sabíamos que queríamos fazer algo pelos direitos humanos, com uma veia muito humanitária” revela-nos Sara, a coordenadora de campanhas deste evento.

One Billion Rising Lisboa

Melisa Rodrigues, fundadora da Changing Wave, participou no One Billion Rising na Índia e resolveu trazer a iniciativa para Portugal. Quando regressou do trabalho no estrangeiro, a Changing Wave nasceu e o primeiro One Billion Rising português também.

“Eu vi que não estava ninguém a organizar isto em Portugal por isso organizámos nós o One Billion Rising em 2014. Era um movimento em que eu já tinha participado em Nova Deli, em que 3 mil pessoas tinham parado na rua para isto e achei que fazia todo o sentido trazê-lo para Lisboa”, explica Melisa.

Em 2014, o evento tomou os moldes do evento original: um flashmob da coreografia original da One Billion Rising, acompanhada pela música Break the Chain. Para esta segunda edição do evento, a Changing Wave trocou a dança pela música e organizou um conjunto de concertos direcionados para esta luta pelo fim da violência contra as mulheres.

“Nós temos este dom que é a música e devemos aproveitar o nosso dom para chegarmos às pessoas de uma forma diferente e passar uma mensagem”, diz Francisco Murta, ex-concorrente do The Voice, ao pisar o palco.

A própria escolha das músicas reflete a luta a que o evento apela. Desde Til it happens to you até um final estrondoso com We Are the World, cantada por todos os artistas convidados, as músicas escolhidas espelharam a batalha.

“Nós quisemos que as músicas fossem sempre passíveis de incluir dentro da campanha. Claro que eles tiveram algo a dizer, há músicas que estão mais confortáveis a cantar, mas nós tentámos puxar para todo um conjunto de músicas que representasse o women empowerment”, explica Melisa.

A criação de um videoclip One Billion Rising

Para o evento foi também escrita e produzida uma música original pela Changing Wave, apelidada pelos apresentadores Filomena Cautela e Filipe Santiago de hino do evento”.

Sopra a Dor conta com as vozes de Darko e Kika Cardoso e com a participação de todos os ex-concorrentes do The Voice que marcaram presença no evento. Foi a abertura do evento, sendo a primeira música a ser cantada pelos artistas, e também o que o encerrou, com a projeção do videoclip.

O vídeo, que foi posteriormente divulgado na Internet, apresenta uma série de situações de violência e discriminação contra as mulheres.

“Para o videoclip queríamos fazer um making off da gravação em estúdio, e queríamos intercalar com cenas de violência que dizem muito respeito ao dia a dia, mesmo aos jovens. Desde tentar esconder o olho negro numa casa de banho pública, assédio sexual no trabalho, a discriminação contra uma grávida que tem de fingir que não está grávida no emprego, o assédio na rua quando vais beber copos e uma última situação de violência no namoro, mesmo dentro de casa”, descreve Melisa após a projeção do vídeo, que também contou com a atuação de alguns dos artistas e do próprio apresentador, Filipe Santiago.

 

Consciencializar para um problema real

Acima de tudo, o evento espelhou uma realidade que nos envolve, e tanto os convidados como os apresentadores fizeram questão de o relembrar entre concertos.

“É fundamental falar disto todos os dias. Existem tantas notícias que são supérfluas e é importante que isto saia, este assunto está muito escondido. É tabu em Portugal, e no resto da Europa. Os dados de violência no namoro lançados agora pela União Europeia são dramáticos, é muito assustador e é uma realidade mesmo perto de nós, as pessoas é que ignoram”, explica a fundadora da Changing Wave.

O alerta dado por Filomena Cautela no início do evento acaba por se tornar ainda mais pertinente pelo facto de que várias vítimas estiveram presentes na organização do mesmo.

“Tivemos contacto com mulheres que efetivamente passaram por este tipo de problemas e isso ajudou-nos a motivar a concretização do evento, não só na construção do videoclip, mas a ajudar a perceber se estávamos a passar a mensagem certa”, conta Melisa Rodrigues.

Acrescenta ainda que “Para nós é muito importante ouvir as vítimas. E é engraçado porque vêm falar comigo por causa desta campanha pessoas que dizem ‘eu não conto isto aos meus amigos nem à minha família’, mas contam-nos a nós. E nós temos toda uma rede de outras ONG’s a que as vítimas podem ir e onde podem pedir ajuda e usufruir de apoio psicológico. Acabamos por ser uma ponte entre as vítimas e todo um conjunto de serviços de apoios que existe em Portugal e em Lisboa”.

A própria associação contou com uma série de parcerias e apoios de várias ONG’s para a organização deste evento, sendo que mais de 40 associações foram convidadas a participar.

Melisa Rodrigues, fundadora da Changing Wave Fotografia: João Marcelino

Uma mensagem humanista

Nas palavras de Filomena Cautela, “é de vozes que falamos hoje”. E a todos foi dada uma voz, fosse a cantar ou a escrever.

A Changing Wave criou a iniciativa de encher uma parede com cartazes onde o público poderia escrever frases. Desde frases que diziam “I’m proud to be a woman” até “O meu corpo, os meus direitos”, e assim cada pessoa presente pôde dar o seu testemunho.

“Quando há a participação do público, das pessoas, que é o tipo de impacto que nós queremos causar, vale muito a pena. Ver o que as pessoas decidem escrever é incrível”, explica Sara.

É este o apelo da Changing Wave. A associação pede a cada um que use a sua voz, que lute pelas mulheres, pelos homens, por todos os que são discriminados.

A organização reflete as palavras de Darko: “A minha mensagem nunca será nacionalista, nunca será sexista, será sempre humanista”. Também a Changing Wave apregoa uma mensagem que, em três anos de vida, foi, sobretudo, uma mensagem humanista. A sua luta, tal como a daqueles que protege, continuará.

E o público aguardará mais campanhas da associação e mais oportunidades para usar a sua voz pelos que não o podem fazer.