Se apenas pudéssemos levar uma cena de São Jorge connosco, guardávamos um momento que na sua amarga simplicidade é capaz de sintetizar todo o filme: pai e filho saem do hipermercado trazendo comida dentro de um saquinho miserável (o único jantar que a pobreza lhes consente) e cruzam-se com uma família bem mais abastecida, que vai arrumando as compras na bagageira do carro. Será um exagero fazer-se este contraste? Um histerismo dickensiano?

Não, muito pelo contrário. Há na aparente falta de subtileza a pertinente intenção de, por uma vez, responder pela mesma moeda – porque também há que combater explícita e violentamente uma realidade ela mesma explícita, violenta e, pior ainda, atual. Ou seja: precisávamos de imagens práticas, robustas, para falar da nossa crise. E encontramo-las aqui, no filme de Marco Martins.

Aliás, voltando a essa cena que destacámos, o horror aí não está tanto no fosso entre classes ou condições, mas nos seus pontos de encontro, nos espaços partilhados, nesses desconfortáveis instantes em que, por força das circunstâncias, as pessoas têm de se ver umas às outras. É um desconforto que se estende ao resto do filme: desde amantes que se mantêm fisicamente afastados (salvo raras reuniões que mais parecem invasões territoriais) até visitas indesejadas de um grupo de cobradores de dívida a locais de trabalho, todos parecem incomodar com a sua presença.

E nisto tudo onde entra Nuno Lopes, premiado no último Festival de Veneza pelo seu desempenho em São Jorge? Pois bem, ele é o herói, o boxeur que a família e o desemprego encostaram às cordas. E é ele que, sem pestanejar ou sentir pena de si mesmo, nos guia pelos bairros da Jamaica e Bela Vista, pelos descampados e armazéns decrépitos, por uma margem sul do Tejo esquecida e arruinada (que está para Lisboa – sobretudo a de João Salaviza, em Montanha – como a noite para o pôr-do-sol).

Esfomeado, esmurrado e esgotado, o pugilista começa a trabalhar para uma empresa de cobranças difíceis – um emprego para além da lei e da moral, cujo preço se revela demasiado caro para o lutador. A partir daí, o filme é vê-lo hesitar e recuar, é vê-lo tomar controlo do seu corpo e decidir se o quer usar como arma de intimidação ou se como última hipótese de fuga, de sonho (não será por acaso que ele dança, perto do fim…).

Admite-se que aqui o boxe e a crise económica portuguesa são novos veículos para o neorrealismo do costume, e Marco Martins – arriscaríamos dizer – está consciente disso, pondo São Jorge em estreita ligação com, por exemplo, Os Verdes Anos, que é citado ou pelo menos evocado pelo desenlace da história, uma aflição noturna. Talvez para esse déja vu também contribua a incoerência da cinematografia, que oscila entre um naturalismo de intenção documental e uma fotogenia de planos fixos, mas nunca assenta inequivocamente num dos dois campos.

Está claro, portanto, que o filme não faz muito (ou o suficiente) para se afirmar estilística e conceptualmente como um olhar “de autor” sobre os anos da troika e da crise portuguesa, o que tem tanto de desvantagem como de ponto a seu favor. Ainda que lhe falte a ironia criativa e mordaz de um filme como o primeiro tomo d’ As Mil e Uma Noites, nunca São Jorge corre o risco de se tornar opaco ao ponto de não deixar ver outra coisa que não a marca inchada do seu autor, o “eu estou aqui”  que por vezes se começa a impor na obra de Miguel Gomes. São Jorge está mais empenhado em falar da crise do que de si próprio – gesto humilde que quase compensa a esterilidade das suas soluções formais.

Outra “humildade”: mesmo a interpretação notável de Nuno Lopes não faz demasiado barulho nem ocupa o ecrã todo. É tudo seco neste São Jorge, o que porventura é justo, mas não é belo. Ou não é tão belo quanto gostaríamos que fosse. Ainda assim, resta a certeza de que achámos aqui um bom ponto de partida para discutir o que raio se tem passado em Portugal nos últimos anos.

 

6/10

 

Ficha técnica
Título: São Jorge
Realizador: Marco Martins
Argumento: Ricardo Adolfo, Marco Martins
Elenco: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, Gonçalo Waddington
Género: Drama
Duração: 112 minutos