Foi em 1998 que Amália Rodrigues expressou o desejo de ver a sua vida transformada num musical pela mão de Filipe La Féria. Em 1999 Portugal vê falecer a grande artista cuja voz cabiam todos os poetas. Um ano depois o maior produtor de musicais em Portugal levou para o palco a história da maior voz portuguesa. É agora, em 2017, que após centenas de pedidos do público, “Amália – o Musical” regressa ao Politeama, numa nova versão. Será na realidade uma melhoria ou uma reinvenção?

“A Amália chora a cantar”. Esta é uma das mais importantes frases que ouvimos no musical que conta a vida de um dos maiores símbolos de Portugal. A história de Amália Rodrigues é, indiscutivelmente, pautada por uma enorme tristeza e solidão, e Filipe La Féria faz questão de transmitir isto no seu (quase) novo musical, embora esta melancolia não paute todos os momentos representados.

A peça começa imediatamente com a tentativa de suicídio de Amália em Nova Iorque após a descoberta do seu cancro. Este primeiro momento oferece desde logo uma pista sobre o tom melancólico em que a história se desenrolará. A partir daqui, assistimos à vida de Amália num flashback da cantora.

Amália em três tristes tons

As cantoras Anabela e Alexandra interpretam, respetivamente, a Amália jovem e a Amália adulta, como tinham feito há 17 anos na primeira atuação deste musical.

Num primeiro momento, vemos Alexandra na pele de uma Amália mais velha e já doente, que só não se suicida devido aos filmes de Fred Astaire que aluga e vê em Nova Iorque.

O público é então levado numa viagem no tempo até à infância de Amália, que em criança é encarnada por Filipa Ferreira. A pequena cantora, descoberta por La Féria no programa The Voice Kids, interpreta uma Amália já infeliz na sua infância, maltratada e ignorada por uma mãe severa, que a leva a uma infantil tentativa de suicídio quando bebe um copo de água cheio de cabeças de fósforos.

Filipa Ferreira surpreende e comove com uma voz estrondosa, sendo a mais aplaudida no fim do espetáculo, e encarna uma Amália que, apesar da tristeza, trazia já o fado no coração e o coração na boca, cantando nas ruas para os vizinhos em troca de rebuçados.

Filipa Ferreira no papel de Amália em criança. Imagem: Divulgação

Com o fim da infância da cantora, entra em palco Anabela, ironicamente uma voz que acompanhou tantas infâncias. Tal como fizera há 17 anos, Anabela mostra-nos uma das mais complicadas fases da vida de Amália. A descoberta do seu talento e a ascensão de vendedora de laranjas no Cais do Sodré para a grande voz de Portugal. O caminho para o estrelato, caminho esse que a mãe, sempre rígida e humilde, não apoia.

A sua rivalidade com Berta Cardoso, na altura a maior fadista portuguesa (interpretada irrepreensivelmente por Cristina Oliveira). O seu primeiro amor, o guitarrista Francisco da Cruz, amor esse que termina num divórcio carregado de ódio.

Filipe La Féria diz que “a verdadeira morte da Amália foi quando deixou de poder cantar”. Alexandra regressa ao palco para nos mostrar os restantes momentos da carreira e, consequentemente, da vida de Amália. Das suas inúmeras viagens quando se torna uma voz internacional até à forma como é atacada no próprio país, após o 25 de abril, sendo acusada de manter relações com o governo fascista.

Vemos as relações que desenvolve ao longo dos anos, do romance nunca assumido com Eduardo Ricciardi ao seu casamento com César Seabra (que não gostava de fado, mas com quem acaba por ficar casada durante 36 anos). As suas mais importantes amizades, desde o banqueiro Ricardo Espírito Santo, que se apaixona por ela, até ao seu “menino de coro”, Alain Oulman, que a ajuda a revolucionar o fado, antes de ser apanhado pela PIDE e expulso do país.

Curiosamente, é no meio de uma carreira e de uma vida tão cheia de pessoas que a solidão de Amália se torna ainda mais evidente, não apenas para o público, mas para todos os que a rodeavam.

Um musical diferente

Filipe La Féria nunca pensou trazer um espetáculo de volta, e Amália – o Musical foi a exceção que confirmou a regra. Após a sua última apresentação em 2006, os pedidos para que Amália regressasse ao Politeama não pararam. “Recebi imensas cartas e e-mails de pessoas que pediam uma reposição. E achei que a Amália merecia” explicou La Féria ao DN. No entanto, o encenador afirmou-se incapaz de fazer o mesmo espetáculo duas vezes.

Para além das alterações feitas ao texto, ao cenário e até ao elenco, a grande novidade deste espetáculo é o ciclorama no fundo do palco. La Féria modernizou o musical com a introdução de elementos 3D projetados no ciclorama. Desde excertos do filme Capas Negras, no qual Amália se estreou no cinema, até um brilhante live action do famoso quadro “O Fado”, de José Malhoa, é indiscutível que o ciclorama traz uma nova dimensão ao espetáculo.

A utilização deste elemento torna-se, na maioria das vezes, questionável. Não apenas se revela desnecessário em diversos momentos, como acaba por roçar o mau gosto em tantos outros (é exemplo disto o momento em que Amália e Ricciardi cantam um para o outro num palco cheio de fumo e com a projeção de nuvens ao fundo).

 

Um espetáculo bem-disposto

Num espetáculo que conta uma história tão triste, e que faz questão de sublinhar em vários momentos essa tristeza, noutros parece esquecer que representa uma narrativa tão desgostosa.

La Féria habituou-nos à pompa e circunstância dos seus musicais, e embora estas sejam algo mais contidas em Amália – o Musical, há várias situações que não deixam de ser pautadas pelo estilo festivo do encenador.

Sendo isto natural, não deixa de ser de certa forma anti climático vermos a triste e só figura de Amália envolta em tamanha alegria. A própria decisão de realçar certos momentos e personagens em detrimento de outras que mereceriam mais destaque, em particular num cenário tão melancólico, revela esta mesma incoerência. São exemplo disto o caso de Ricardo Espírito Santo e de Eduardo Ricciardi que, na nova versão do musical, são, talvez desnecessariamente, mais desenvolvidos.

Já da figura austera da mãe de Amália vemos pouco, tal como do primeiro marido, Francisco da Cruz, que deixa muitas perguntas sem resposta sobre uma das mais importantes histórias da vida da cantora.

Amália (Anabela) e Francisco da Cruz Imagem: Divulgação

“Quem tem fome, pede pão. Eu peço lágrimas”, diz Alexandra na pele de Amália. Sendo indiscutível o sucesso do musical, que na sua primeira versão teve mais de 3 milhões de espectadores, a sua lealdade à figura de Amália e à sua história já deixa algumas dúvidas.

Faltam lágrimas por Amália

O musical parece espelhar as palavras da própria Amália: “não sou feliz, mas sou bem-disposta”. Também este espetáculo é bem-disposto, mas não totalmente feliz, ou antes, não suficientemente infeliz para fazer jus à vida da maior voz de Portugal. Os aplausos são estrondosos, mas fazem falta as lágrimas pedidas por Amália.

Amália Rodrigues dizia ter dois aniversários. Embora tendo nascido no dia 1 de julho, “no tempo das cerejas”, só foi registada três semanas depois, no dia 23. Por esta mesma razão dizia que, quando morresse, não morreria realmente. A sua segunda morte ainda está para vir.

Ainda hoje, quase 20 anos passados da sua morte, o povo português chora a sua perda. Até hoje, pegando nas palavras de Eduardo Ricciardi para a cantora, “Lisboa fica tão triste sem si”. Resta-nos apenas esperar por um segundo (ou terceiro) musical sobre Amália que espelhe verdadeiramente a tristeza da cantora de forma crua e simples. E Portugal esperará. Até lá, poderemos contar com a boa disposição de Filipe La Féria no Teatro Politeama até junho de 2017.