Interior
Interior

“O público do interior é mais sincero do que o do litoral”

Reza a lenda de que a Beira Interior do país sirva apenas para falarmos do que se fazia no passado. Reza a lenda que apenas se conjuguem verbos nos pretéritos. Reza a lenda, e rezam os que mandam com vista para o mar, que se esqueçam que no Interior também se usa o Presente e o Futuro como manifesto, ou só por prazer.

Aqui fez-se. Aqui transformou-se. Aqui criou-se. Aqui conquistou-se. Aqui, a direção do vento sabia-se pelo fumo que as chaminés dos Lanifícios sopravam. O passado fica no sítio onde ele pertence, porque – pelo menos para alguns – o futuro é que interessa. Na antiga Moagem do Fundão, onde se transformavam cereais, agora ouve-se e partilha-se música fresca. A parceria com a Antena 3, provou que na Beira Interior nem só de folclore vive o povo.

Uma vez por mês, o auditório enche para que um artista – quase sempre – seja ovacionado de pé porque, ao contrário do que reza a lenda, por cá o talento para se viver em cima de um palco é tanto que até o nomeiam para prémios ao lado de nomes com os Radiohead, por exemplo. A pressão “talvez aumente com as expectativas que as pessoas trazem”, mas o fim primeiro da música é o mesmo com ou sem nomeações: “divertir o público a fazer o que mais se gosta que é tocar”. Quem o diz ao Espalha-Factos é Roberto Caetano, um dos membros dos First Breath After Coma. 

Sons à sexta – uma parceria vencedora no Interior

Depois dos Best Youth, Blind Zero, Sensible Soccers, Pega Monstro, ou Fadango, na passada sexta-feira – dia 10 de março – foi a vez dos leirienses First Breath After Coma. A atuação da banda no auditório d’A Moagem começou tímida (mas rapidamente se agigantou) para “um público diferente” do que se vê no litoral: “mais sincero”, revela a banda.

Recuaram no tempo três anos, e viajaram até ao Festival Aragens em Alpedrinha – também no distrito de Castelo Branco – para relembrar “a primeira vez em que o público se levantou para aplaudir de pé num concerto” da banda. Se os clichês existem é porque resultam e no Fundão o desfecho foi idêntico. O espetáculo findou e as pernas elevaram o corpo para louvar os cinco jovens depois de um concerto de encher o ouvido.

“A primeira vez que o público nos aplaudiu de pé enquanto banda foi aqui ao lado, em Alpedrinha, no festival Aragens.”

Com origens claras no pós-rock, a banda demarca-se – apesar do nome – dos Explosions in The Sky (o nome da banda portuguesa é retirado de uma música de 2003 dessa banda) pela utilização “da voz como fator de aproximação ao público”. Não por obrigação, ou preferência – mas sim por “evolução natural”.

Por exemplo, os The AllStar Project, seus conterrâneos, são praticantes mais fiéis dessa vertente do rock. A inexistência de voz e o instrumental como único elemento nas canções faz dela uma das raras exceções de pós-rock puro em Portugal, mas – pela inexistência desse “fator de aproximação” – “ainda não conseguiram chegar a mais gente, apesar de, ao vivo, destruírem completamente a casa”.

Em Leiria, a “água do cano” tem, certamente, um ph diferente que acrescenta uma musicalidade aos habitantes que não se verifica nas restantes cidades. O aparecimento da Omnichord Records “foi essencial para isso” (leia-se: esse crescimento). “Depois do tempo de paragem após os Silence 4 terem surgido, chegou a um ponto em que começaram a surgir pequenas bandas, uma editora liderada pelo Hugo Ferreira e a aposta nessas mesmas bandas originaram este crescimento”, acrescentaram os leirienses.

Toni Barreiros, programador cultural d’A Moagem, no Fundão, afirma que a ideia é trazer o que os Teatros vizinhos não trazem. “Todos querem Deolinda, The Gift, Amor Eletro. É sempre a mesma coisa. Com os First Breath After Coma podemos ver que Portugal está recheado de talento”, acrescenta.

“O foco é descobrir o que de bom se vai fazendo por cá. Foi por esse motivo que a Antena 3 se quis associar a nós.”

A vontade de trazer os novos talentos a uma região tendencialmente envelhecida revela o “foco” primeiro desta parceria: “queremos mostrar o que de bom se faz em Portugal. Se aparecerem grandes bandas com nome pelo meio que se queiram associar a nós, é claro que vamos aproveitar”. No entanto, o principal objetivo é “descobrir o que de bom se vai fazendo por cá”. “Foi por esse motivo que a Antena 3 se quis associar a nós”, adiantou o programador cultural.

A nomeação para o prémio europeu

O romantismo dos First Breath After Coma contagiou as cerca de 150 pessoas que compunham o auditório passados poucos minutos. As músicas do mais recente álbum, Drifter, foram entoadas de forma incrível conjugando o romântico tom das melodias com a arte de atuar em palco.

Recentemente, o talento da banda de Leiria foi nomeado para o prémio de Álbum do Ano da IMPALA – Associação de Empresas de Música Independente). A lista conta com 25 nomeados, oriundos de 19 países diferentes, e assinala o sétimo aniversário de existência do prémio. A concorrer contra o álbum dos portugueses estão A Moon Shaped Pool, dos Radiohead; Freetown Sound, de Blood Orange e Mechanics, de Jolly Mare.

Sobre a nomeação, a banda adianta em tom de brincadeira que “caso sejamos nós os premiados, tendo em conta que na lista estão também os Radiohead, talvez exista uma pequenina pressão adicional quando voltarmos a atuar”. Num tom mais sério, a expectativa que leva o público aos seus concertos é a “única pressão” que existe e é vista como saudável “para a evolução natural” da banda. O resto, é o de sempre: “agradar ao público”.

Drifter, data de 2016 e foi editado pela Omnichord Records. Noiserv e André Barros, são as colaborações presentes neste segundo disco da banda que foi parcialmente financiado por fãs, através de campanhas de crowdfunding.

 

O projeto do Sons à Sexta continuará “pelo menos até junho com os Mirror People“, mas espera-se que evolua “para um evento de região e não só de uma cidade”. Se a Câmara Municipal do Fundão “não quiser continuar, certamente que haverá outra cidade” a acolher as sextas-feiras da boa música. No próximo dia 14 de abril, será a vez de Legendary Tigerman atuar na Moagem. O preço dos bilhetes terá um custo de 10 euros.

O interior também é Portugal. Aqui, entre a Gardunha e a Estrela, a cultura passa ao lado da maioria dos habitantes que, ou se deslocam para as grandes cidades ou esperam um mês para visitar a Moagem. Dizia o escritor Al Berto que vivemos num não-futuro. Aqui, no interior  que também é Portugal – impera a cultura de angariação de voto. Dizia o mesmo escritor, numa entrevista à revista Ler que “a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que estraguem isto mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros”.

Mais Artigos
Kanye West e Donald Trump
Kanye West. Trump nega envolvimento republicano na candidatura