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Sangue Novo: prémios, ativismo e muita fruta na ModaLisboa

Sob o tema Boundless, arrancou esta sexta-feira mais uma edição da ModaLisboa que agora viajou pela cidade e instalou-se no Centro Cultural de Belém. Como manda a tradição, a plataforma Sangue Novo abriu a maratona e desfiles e foi marcada por mensagens políticas e uma evidente miscelânea entre o clássico e o irreverente entre os jovens designers.

Rita Carvalho, Mariana Laurência, Rita Afonso, Micaela Sapinho, João Oliveira, Liliana Afonso, Alexandre Pereira e Carolina Machado formam a equipa maravilha do Sangue Novo nesta 48.ª edição da Moda Lisboa.

No final dos desfiles dos oito designers portugueses da nova geração a concurso no Sangue Novo, o júri distinguiu, nesta edição, João Oliveira como o vencedor do prémio. O jovem de 23 anos leva para casa cinco mil euros, um estágio na Domus Academy, em Milão, e a oportunidade de ver a sua coleção à venda nas lojas The Feeting Room, em Lisboa e no Porto.

João Oliveira apresentou a coleção Society repleta de peças oversized, um tipo de silhueta que diz representar “um símbolo da jornada e do fardo acumulado” da sociedade. Uma paleta que puxa os brancos e cores mais garridas como o azul elétrico e o vermelho.

Vencedor há só um, mas também há quem mereça destaque

Apesar do grande vencedor do prémio Sangue Novo ter sido João Oliveira, houve tempo e espaço para entregar duas menções honrosas a outros dois dos designers desta plataforma. Rita Afonso e Alexandre Pereira foram os felizes contemplados por estas menções honrosas que não deixaram que o seu trabalho nas respetivas coleções fosse desvalorizado.

Alexandre Pereira levou Noise à ModaLisboa Boundless, uma coleção cheia de automatização, barulho, mas sobretudo um barulho para a sociedade acordar do sono do mundo virtual. O designer diz ser uma coleção “longe do toque”, onde as pessoas se veem e sentem “através de imagens e em ecrãs”, enfim “um muno afundado em ruído”.

ModaLisboa leva Portugal lá fora 

O concurso Sangue Novo é sempre visto como uma oportunidade de evolução para aqueles jovens designers que dão os primeiros passos no mundo da moda. A distinção de João Oliveira não foi a única da noite. Já é habitual haver um designer que salta das passerelles portuguesas e vê a sua coleção ser apresentada no Fashion Clash, em Maastrich, na Holanda.

Rita Afonso, além da menção honrosa, teve a sorte e o talento de ser reconhecida, tendo sido eleita para representar Portugal no Fashion Clash, sendo que um dos momentos altos da noite foi, sem dúvida, a coleção desta jovem designer.

Sou Jarra, Mas Eu Grito é o nome da coleção e dá o mote para o grito artístico, já com uma mensagem ativista à espreita como tem sido habitual no mundo da moda nos últimos tempos.

Para Rita Afonso, nunca é demasiada fruta. Ela é bananas, ela é maçãs, uma autêntica Carmen Miranda das passerelles. Cores vivas como o vermelho, o amarelo a cortar os brancos e pretos que serviam de base à maior parte dos coordenados.

Rita revela que “os frutos substituem os seios, as pernas e os corpos nus das artes maiores”. Uma homenagem da designer às mulheres da História e que fizeram história.

A moda conta histórias e é ativista

Não é novidade nenhuma que Micaela Sapinho gosta de fazer passar uma mensagem através das roupas que desenha. Se na edição anterior da ModaLisboa levou o feminismo, a mulher e as suas formas para a passerelle, esperava-se que também nesta edição a designer surpreendesse. E assim, de facto.

Intitulada de #MeMySelfieAndI, a coleção deu ênfase à era dos likes, dos tweets, dos posts, das selfies, mas também à era da perda de identidade, da autoestima atestada por estranhos do outro lado do ecrã e pelas aparências que transparecem no mundo virtual.

 

Micaela Sapinho do Sangue Novo e a sua enchente de likes. #modalisboa #boundless

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Micaela lançou-se novamente nos padrões que diz serem “auto-críticos” e que têm como objetivo serem “o despertador coletivo de uma consciência libertadora”.

Em tons rosa e azul pastel o símbolo do like é usado em excesso em quase todas as peças – de camisas a brincos –, tudo para uma demonstração da banalização deste ação quase automatizada e inconsciente a que todos estamos sujeitos.

E porque a passerelle também é um palco – e Micaela Sapinho sabe usar isso em seu proveito –, as modelos iam alternadamente parando de fazer o que estavam a fazer, ou seja, desfilar, para tirarem uma selfie. Por vezes, não há ironias mais claras do que a piada fácil.

 

Fotografia: Inês Lopes da Costa

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