Depois de vermos um filme tão eficazmente inconsequente como este Kong: Ilha da Caveira, quase que nos sentimos tentados a perguntar se a competência basta. Mas pode ela sequer ser tida em consideração num texto que se quer crítico e baseado em critérios estéticos? É que, neste contexto, a avaliação segundo escalas como as da competência ou da eficiência admite, desde logo, que há filmes dos quais não se pode esperar muito mais que a regularidade utilitária dos serviços por eles prestados – e para este género de preconceito ser-nos-ão igualmente úteis os rótulos de cinema “comercial” ou “independente”.

É, por isso, terrivelmente revelador que não nos ocorra uma forma mais elogiosa de descrever o novo King Kong senão dizendo: é um filme competente. Sim, estamos decididamente longe de uma anomalia como muitas tem havido neste território dos blockbusters cheios de vedetas (vêm à memória monstros do Frankenstein como Suicide Squad, que não cumprem nem os mínimos exigidos para se tornarem próprios para consumo). O que temos aqui é antes um filme bem programado: tudo é liso, linear, e já foi visto pelos espetadores vezes suficientes para que não estranhem nada.

Competência, na melhor das hipóteses

Kong (sem King, numa abreviação que porventura serve para sinalizar o “épico”) é a enésima variação do formato monster movie, e o seu enredo escreve-se a partir de um conjunto limitado de opções de ação, espaço e tempo: caçar o monstro ou redimi-lo, selva ou cidade, presente atemporal ou passado histórico? Feitas as escolhas, a combinação que delas resulta é a que se segue: em 1973, um grupo de cientistas e exploradores (com escolta militar) decidem desbravar uma ilha selvagem, ausente dos mapas, e descobrem que lá vivem animais gigantes, de entre os quais o mais temível parece ser o gorila Kong, deus-guardião desse paraíso aonde os homens nunca tinham chegado.

O resto qualquer um adivinha. Este encontro inesperado com novas e fantásticas formas de vida fura os planos da expedição, e não faltará muito até que comecem os jogos de presa e caçador – estilo Jurassic Park mas com um espírito diurno, ingénuo. Depois há as pontuais tangentes a uma descontração verdadeiramente série B, que nos dão vislumbres, flashes de um filme mais divertido, menos preocupado em passar “mensagens” que este.

Pois, é verdade, há em Kong: Ilha da Caveira tentativas risíveis de criar subtextos pacifistas e ecologistas (isto num filme que encena, como tantos outros, o mito de um sádico “triunfo” do Homem sobre a Natureza). É claro que essa moral ambientalista e anti-guerra – em última análise, rejeitada pela própria narrativa do filme – está presente apenas porque, em 2017, é uma hipócrita exigência do mercado. Já não se concebe entretenimento destes que não nos surja obrigatoriamente justificado, racionalizado, e fundado numa espécie de ideologia “progressista” que não é senão senso comum.

Falemos agora nos adereços, onde se incluem os atores – que neste filme estão camuflados, facilmente se confundem com o cenário (uma maravilha, quase nem damos por eles!). Isto é, agarram-se aos dois ou três traços de personalidade (estereótipos) que definem as suas personagens e nunca mais os largam. Abre-se, no entanto, uma exceção para a extravagância e astúcia humorística de John C. Reilly, que ressuscita o filme assim que aparece em cena.

Solidária com os atores, a cinematografia é também ela competentemente invisível – o único momento digno de registo é o muito bem coreografado primeiro encontro dos militares com Kong. Já a banda-sonora aposta no efeito jukebox que parece estar na moda (voltamos a lembrar-nos de coisas abjetas do género Suicide Squad), com os Stooges, Bowie, Jefferson Airplane e outros a compor o cenário musical do início dos anos 70 – bom, pelo menos desta vez há alguma coerência na tracklist.

Na melhor das hipóteses, o que temos é isto: competência, na aceção pragmática do termo. É óbvio que Kong: Ilha da Caveira encontrará, certamente, o seu público, para o qual foi fabricado com precisão e cuidado. Mas, perante tanta eficiência, não há grandes elogios que se lhe possam fazer: seria absurdo aplaudir-se o trabalho de uma máquina.

 

4/10

 

Ficha técnica

Título: Kong: Skull Island
Realizador: Jordan Vogt-Roberts
Argumento: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly, John Gatins
Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson
Género: Ação/Aventura
Duração: 118 minutos