Flying Cages
Sebastião Casanova (Sayonara)

Flying Cages: “Woolgather é sonhar acordado. É isso que nos faz lembrar.”

Woolgather, o segundo disco dos Flying Cages, chegou ao mundo na passada sexta-feira, dia 3 de março. O Espalha-Factos esteve à conversa com a banda, a propósito deste lançamento.

A aguardada sequela de um filme bem feito. Flying Cages chegam com o segundo álbum para fazer aquilo que em Portugal se deixou de fazer (ou nunca se fez). Vieram salvar o indie rock português e estão a fazê-lo de forma bem feita, embora discreta. “Como vai sendo uma cena diferente e não há muitas bandas a fazer o que nós fazemos cá, é um bom ponto de partida. Há demasiada oferta de música cheia de sintetizadores a passar na rádio.

No último ano e meio lançaram dois álbuns, tocaram no Mexefest e estão a planear uma tour pelo país. Mas experiência não lhes falta. “Num espaço de um ano lançamos o primeiro [álbum], tivemos o Mexefest e começamos a gravar o segundo. Mas nós já tocamos a sério desde 2012. Aproveitamos este tempo para ir ganhando algum corpo. Tivemos a sorte de que, quando lançamos o primeiro, foi bem recebido. Mas para trás temos alguma bagagem.

Os gostos variam com os anos. Se na década passada o que estava a dar eram os Arctic Monkeys e os The Strokes, hoje as influências são mais diversas. Mas vamos pôr um ponto final a uma história.

Nunca lhes digam que as músicas parecem cantadas por um certo senhor chamado Alex Turner. “O Miguel, dos Savanna, disse que tínhamos de mandar uma cabeçada em cada pessoa que nos perguntasse isso. (risos) Eu pessoalmente não acho [a voz] parecida, mas o rapaz também não tem culpa de ter a voz que tem. Uma vez convidaram-nos para tocar aqui em Coimbra e quem nos convidou chamou-nos “os Arctic Monkeys portugueses”. E nós mandamos logo uma mensagem para tirarem aquilo.”

O segundo disco dos Flying Cages, Woolgather

“Eu admiro muito mais o Casablancas, dos The Strokes. Eu de Arctic Monkeys já me fartei há uns dois anos, mas nunca me farto dos The Strokes.

 

Foi o próprio Miguel, juntamente com a família pontiaq, que acolheu os Flying Cages. Uma editora independente, pequena, mas que começa a alargar-se. O cardápio disponível só revela boas escolhas. SavannaBasset HoundsDitch Days, Marvel Lima e agora Flying Cages. Muitos mais faltam a esta lista. Fica o aperitivo.

E é este ambiente familiar, cada vez mais presente em Portugal, que marca a diferença na qualidade nacional. “Nós curtimos todas as bandas que estão lá. Eles curtiram de nós e quiseram lançar o álbum. É um ambiente pequeno mas tens controlo. Se lançares por uma editora grande eles quase não te ajudam. Com a pontiaq não é assim. Eu ligo-lhes e eles aconselham-nos. É o ambiente certo e a editora certa para lançarmos as coisas. O problema das editoras grandes é que nós vamos para lá e saímos apenas mais um produto deles.

Estas pressões das grandes editoras acabam por mexer na estrutura das bandas. Pressão feita não só na sonoridade, mas na língua em que as músicas são cantadas. Isto porque as críticas aos portugueses que cantam em inglês têm vindo a adensar-se. Relembre-se a famosa tirada “quando um português canta em inglês fica tristemente ridículo.”, de Vitorino.

E a resposta certeira dos Flying Cages: “A primeira coisa a pensar é o campo em que as pessoas estão mais confortáveis. É claro que eu domino muito mais a língua portuguesa, mas há várias coisas que o inglês tem e o português não tem, e vice-versa. Mas é interessante que a malta que critica, e tem todo o direito de o fazer, gosta sempre de falar da “língua de Camões” e da “pátria”, e esquecem-se que o próprio Fernando Pessoa escreveu muita coisa em inglês. Mas é fixe porque há comentários que fazem um gajo rir.”

Tem tudo a ver com fazer o que se quer fazer. Sem olhar a quem. Não há conceitos, só há guitarras e vontades afinadas. “Nós não começamos a fazer um disco partindo de um conceito. Temos a sorte de ter algumas músicas gravadas, e no final perguntamos porque é que fizemos isto e como é que isto se consegue interligar.”

“E daí nasceu o Woolgather, que como a própria palavra diz é sonhar acordado de uma forma muito intensiva. É isso que faz lembrar.

Há uns meses o blog canadiano Indie Music Filter destacou artistas portugueses que deviam ser mais conhecidos internacionalmente. Escrevia a autora, também ela portuguesa: “a lot of what’s been happening in the Portuguese music scene just isn’t getting the international recognition that it deserves…” Não é por falta de qualidade. Os Flying Cages são prova disso.

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