Decorreu na passada quinta-feira, 2 de março, o debate sobre “Como escrever um bom romance?”. Contou com a presença dos escritores João TordoTeolinda Gersão Tiago Salazar (a quem ficou a cargo a moderação da conversa). O Espalha-Factos marcou presença e desvenda agora algumas notas sugeridas e a ter em conta para todos aqueles que esperam conseguir escrever um bom romance.

O primeiro evento do projeto Escritores.online foi recheado de dicas que os escritores consideram importantes, sendo também o levantar do véu dos processos de criação de cada um.

O romance não tem de ser só um produto de ficção

Teolinda Gersão afirma que não consegue escrever sobre aquilo que não conhece. Ainda que considere que não se controla a criação, reforça que no seu caso precisa do contato com a realidade e com o concreto.

Já João Tordo recordou a construção de uma das personagens principais d’O Paraíso Segundo Lars D., onde deu voz a uma mulher de 63 anos. Viajou até à sua infância, até à sua avó, à sua mãe para descobrir a compaixão.

Ambos relevam a importância da compaixão, da empatia no trabalho de criação.

“O romance é a tentativa de ver na ficção aquilo que é difícil ver na realidade”, diz-nos João Tordo.

A inspiração exige trabalho

João Tordo não descura o papel de tentar, de fazer e re-fazer. Afirma ter escrito “romances maus” e “tentativas de romance”, mas que pelo fracasso conseguiu chegar a “lugares menos complicados”.

Teolinda Gersão reforça esta ideia, e ainda que o processo criativo conheça os seus próprios meandros, um ponto fulcral neste trabalho é a auto-disciplina, o método (se o houver).

“Se procurarmos a inspiração, podemos esperar sentados”, revela Teolinda Gersão.

Escrever à procura das intenções

Perceber porque se escreve, as razões que motivam o escritor a querer sê-lo é, muitas das vezes, um dos passos mais importantes na própria escrita.

João Tordo reforça a importância de encontrar as motivações por detrás da redação, nem que seja pelo simples prazer de escrever, sem preocupações de chegar a um fim.

“O prazer [de escrever] está no caminho” (João Tordo)

Para Teolinda Gersão, o prazer faz-se na chegada. O processo da sua escrita, sendo doloroso, um “caminho sofrido”, apenas é aliviado com o seu término, com a conclusão da sua obra, com o fim do seu isolamento.

“Aprendi a não ter medo dos meus fantasmas. Já não me assustam e já não recuo” (Teolinda Gersão)

Tiago Salazar reforça também o quão deficitária a escrita se torna quando tem o lucro como intenção e objetivo maior.

A importância da instabilidade

Para João Tordo, este estado de espírito é o mais interessante na escrita de romances. Na sua obra, afirma gostar de colocar as personagens em “situações das quais já não há retorno”. Por isso, considera que o romance tem de tratar sempre da parte que dói, daquilo que está em desequilíbrio.

Segundo Teolinda Gersão, perante um conflito e perante a dor, é na escrita que se procura a harmonia. Para a autora, o papel do escritor envolve também a responsabilidade social. Assim, escreve com o intuito de ajudar o leitor e, por isso privilegia a literatura baseada nos bons sentimentos.

“Não me encanta nada o escritor drogado ou neurótico. Isso são romantismos”, confidencia Teolinda Gersão.

A verdade na validação de um bom romance

Tiago Salazar questiona os escritores sobre a importância da verdade na criação, afirmando que esta pode olear o processo de escrita e permitir a sua fluidez.

Já João Tordo reporta-se ao seu próprio processo criativo. Ainda que não saiba o que é um “bom romance”, uma vez que essa validação é externa e absolutamente qualitativa, a inspiração chega-lhe e flui (se assim o tiver de ser). A verdade no romance surge-lhe com a fluidez daquilo que escrita, com o alívio de que o que escreve “vai bem”.

“A partir da página cento e cinquenta, aquilo vai por si” (João Tordo)

Recorda também que a verdade naquilo que escreve lhe ensina muito da vida. Afirma percorrer o caminho das personagens com elas e que esse é um processo de dor emocional que é resolvida dentro do escritor. Prefere deixar algo inacabado do que falsamente terminado.

As leituras para a vida e as leituras para a escrita

Teolinda Gersão considera indispensável a leitura dos grandes clássicos nacionais e internacionais. Ainda assim, refere que quando está imersa no processo de escrita de um livro, dispensa qualquer leitura. Isto também porque faz parte  do seu método, o isolamento. Lê por prazer e não perde tempo a fazê-lo quando não se sente maravilhado com o livro.

Já João Tordo foi enumerando ao longo da conversa escritores fundamentais na sua formação (e que inclusive, analisa com os seus alunos de escrita criativa): Dostóievski, Kakfa, Melville, Camus. Atualmente, afirma ter perdido o prazer de ler ficção, após uma infância recheada de noites mal dormidas a devorar livros.

Assim, as suas leituras atuais prendem-se com tudo aquilo que não é da ordem ficcional, tudo aquilo que não lhe trará nada de particularmente útil e que seja quase improvável. Os seus preferidos são livros de auto-ajuda, podendo até ter como leitura noturna Como ser um empresário de sucesso (ainda que afirme que nunca o será).

Os estímulos certos no processo de escrita

Escrever envolve muito mais do que o acto em si. Teolinda Gersão costuma caminhar, apanhar ar fresco para a ajudar a descomprimir da tensão da escrita. Ainda que o processo em si seja solitário, nestas frestas de luz, a escritora descontrai.

Não sendo particularmente eficaz a escrever em casa, afirmando zangar-se quando a interrompem durante a escrita, encontrou um lugar fora de casa onde se dedica à criação. Sem estímulos, sem internet.

Já para João Tordo, para que se inebrie nas personagens, tenta ter por sua casa objetos que lhes pertençam numa espécie de busca de “conhecimento de causa”. Quando termina um livro, afirma não pensar em escrever durante muito tempo. Nesta pausa, abre espaço para respirar, para “viver um pouco” e é aí que lhe surgem as suas epifanias.

“Escrever é um momento. O resto do tempo é para não pensar em escrever” (João Tordo)