“Pretensioso”, “mediocre”, “artificial”, “supérfluo” e “irrelevante”. Está na moda odiar o La La Land, musical de Damien Chazelle que arrecadou 6 Oscars no passado domingo, um filme que é demasiado ingénuo para o seu próprio bem.

Arrumem com o pôr-do-sol, a música cintilante e o sapateado sincronizado, o mundo já não aguenta com “feel good movies“, estamos na era em que tudo é uma dicotomia e por isso o La La Land é visto como o “mau da fita“, o filme vazio que ousa ser um escape da nossa realidade.

Mia, personagem de Emma Stone, diz no filme que “as pessoas adoram aquilo pelo qual outras pessoas se apaixonam“. É mais uma das inocentes tiradas de La La Land e da sua personagem principal, uma aspirante a atriz que não consegue vingar na vida. Mas mais do que uma frase atirada ao acaso, esta é a confissão de algo maior: a paixão de Damien Chazelle à arte de fazer cinema.

La La Land nasce de uma ideia de Chazelle e de Justin Hurwitz, um filme que demorou anos até ganhar algumas pernas e forma. Esta é uma carta de amor de ambos às artes musicais e cinematográficas. E, por isso, em termos da sua composição e realização, é uma obra do perfeccionismo a um ponto quase obsessivo. O filme tinha de sair perfeito para fazer jus à criação idealizada por Chazelle e Hurwitz e, de um ponto de vista técnico, o facto é que ele assim saiu.

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Mas a perfeição irrita. O que há uns meses atrás era esplêndido é hoje um “Oscar-bait” pretensioso e matematicamente criado para ganhar prémios. Pois bem, esta nova vaga de reações ao La La Land é tão socialmente interessante como redundante. Se a ingénua Mia acredita que todos nós gostamos daquilo que a paixão move, a paixão de Chazelle em La La Land apenas comprovou que vivemos na era do “ou estás comigo, ou estás contra mim”, em que ninguém gosta daquilo de que todos os outros gostam.

Há um termo em inglês que melhor expressa este movimento gerado à volta do La La Land nas últimas semanas; um “backlash“. Acontece a quase tudo que é universalmente elogiado e que sofre de demasiada exposição mediática; as pessoas fartam-se e as vozes de ódio sem argumentação e de divisão repetem-se umas às outras numa ânsia desenfreada de rejeitar tudo o que as massas “comem”.

Façamos aqui um exercício cronológico e pensemos por exemplo na receção do filme em agosto do ano passado quando passou, pela primeira vez, no grande ecrã no Festival de Veneza. Peter Bradshaw, crítico para o The Guardian, publicou a 31 de agosto uma análise ao La La Land em que o caracteriza como “um filme tão feliz e dócil – algo que nos dá um impulso de vitamina D e de sol“. Uma obra que, nas suas palavras, o “absorveu” através da sua “narrativa simples“.

Bradshaw destaca aqui dois aspetos fulcrais da identidade de La La Land e que comprova que muitos dos adjetivos com que agora fazem parelha com a longa-metragem são tão redundantes como injustos para a obra de Chazelle. Primeiramente é destacada a felicidade, o optimismo e sua qualidade de “feel-good movie” e, posteriormente, a sua despretensão de ser mais do que realmente é; uma história de “boy meets girl“, de um romance condenado, de sonhadores desiludidos e de uma cidade tão mágica como pervertida.

Estes dois elementos fundadores da narrativa e execução de La La Land são hoje criticados pelas massas que decidiram ser antagónicas a este filme (sim, parece quase que foi um processo de decisão). Os rótulos de “fútil” descartam as intenções de “feel-good movie” e os rótulos de “vazio” atacam a simplicidade da narrativa.

Para mim, esta pressa em rotular La La Land revela a própria bolha intelectual em que todos nós estamos mergulhados; onde toda a gente é um crítico e onde tudo pode ser interpretado de mil e uma formas para que haja sempre algo a apontar, algo que permita a elevação intelectual do indivíduo anónimo. Já não existe o aproveitar do momento, do sentar numa sala escura e usufruir da experiência. Hollywood já não pode falar de Hollywood, nem a política de política. Os meta-discursos são vistos como pretensiosos e supérfluos, e não como necessários.

E nesta ávida discussão entre fãs e pessoas que odiaram La La Land nunca se falou objetivamente de algo: o esforço, mérito e execução exemplar de todos os criativos por detrás de La La Land. A paixão e perfeição do seu trabalho é louvável e isso nunca poderá ser posto em causa.

Não estou com isto a dizer que todos nós deveríamos gostar do La La Land. Longe disso. É verdade que este artigo foi escrito na perspectiva de alguém que adorou o filme de Chazelle, mas que, como exemplo, concorda com a justeza da entrega do Oscar de Melhor Filme ao incansável Moonlight de Barry Jenkins. Não pretendo aqui pregar o sermão e impingir o filme a ninguém, mas antes refletir nesta nossa necessidade de odiar o sucesso de outros.

E por tudo isto, Mia, sou incapaz de concordar contigo. Tal como o teu filme, és demasiado ingénua ao acreditar que as pessoas são capazes de gostar daquilo que move e apaixona as outras. Na verdade, não queremos saber das paixões de outros. Nem interessam os sonhos, e a pureza do sentimento nunca é tida em conta, quando julgamos algo apenas porque a cultura do imediato exige o pré-conceito.

La La Land, hoje, pode nem merecer o Oscar de Melhor Filme. Mas nós também não merecemos um filme como o musical de Damien Chazelle.