Não deixa de ser caricato concluir que o último dos filmes da saga X-Men/Wolverine, Logan, com Hugh Jackman no papel principal, será o que melhor enaltece os contornos de uma personagem tão conhecida dos comics da Marvel. De facto, é levada à letra a afirmação “o melhor fica para o fim”, tendo em conta que é nesta pura manifestação de gore gratuito que também se presencia o homicídio da nostalgia infantil criada pelas longas-metragens anteriores da saga.

A comparação a estabelecer é algo do género de um Deadpool em esteróides, sendo que o humor não é personagem principal, mas sim um figurante que existe para aliviar o ambiente com um pontual bitaite espirituoso. Até porque as personagens de Logan, já tão conhecidas pelos fãs do franchise, não são, de todo, marcadas pela apatia indolente presente nos filmes anteriores, passo a redundância, mas sim por um cansaço e mentalidade sórdidos.

Baseado nos famosos comics do Old Man Logan, Logan relata os acontecimentos do ano de 2024, época marcada pela quase extinção da população mutante. O Professor Xavier encontra-se com uma doença neurológica que o deixa sem controlo sobre os seus imensos poderes. Logan é um mutante extremamente envelhecido e alcoólico, os seus poderes de cura encontram-se bastante debilitados, sendo que é uma personagem bastante suicida e depressiva, que presta serviços de motorista de modo a poder pagar os medicamentos do Professor X.

Esta vivência degradante é virada do avesso pela aparição de uma criança mutante, com habilidades bastante semelhantes a Wolverine.  A única diferença é que no seu caso as  suas capacidades não se encontram debilitadas. Está assim explícita a missão de salvar esta rapariga, perseguida por uma organização farmacêutica responsável por diversas experiências genéticas, e de levá-la para um refúgio, um “Éden” de paradeiro ambíguo.

Logan

Está intrínseco em Logan um realismo surpreendente, nunca antes presente de forma tão crua e fria num filme do calibre mastigado e exaustivo, do género de super-heróis hollywoodesco que tanto lucro faz na box-office. Lado a lado com Deadpool, esta longa-metragem de um dos mutantes mais famosos de todos os tempos usa e abusa da sua classificação Rated R, abordando temáticas que abandonam por completo as frivolidades exploradas por filmes anteriores.

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Não deixa de ser uma lufada de ar fresco para os fãs da saga (e não só) que a derradeira despedida de Logan possua no seu core temáticas como alcoolismo, ética genética, bem como o conflito da paternidade a que a personagem de Wolverine é sujeita. No entanto, a bem dizer, esta é a única película que faz jus à complexidade que a personagem que Hugh Jackman interpretou ao longo dos anos possui na sua origem.

São inúmeros os “vilões” que são no mínimo risíveis, propagados um pouco por toda a panóplia de filmes de super-heróis que circulam por aí. É este um dos grandes pontos de viragem para Logan, que o distingue dos filmes anteriores da saga, e até mesmo da generalidade dos filmes do género: a presença de uma personagem antagónica que realmente representa ameaça real e cuja motivação faz o mínimo de sentido.

Logan

Logan capta da forma mais selvagem possível os seus demónios através de cenas de ação de uma intensidade visceral, ou apelando ao emocional do espectador através de um diálogo inteligente. Muito do sucesso de Logan se atribui a uma surpreendente fotografia de John Mathieson, não fosse ele também o responsável pela fotografia de obras como Gladiador e Hannibal.

A realização de James Mangold é na sua generalidade coerente, apesar dos ligeiros problemas de pacing que uma película desta duração pode originar. Contudo, créditos para Mangold por conseguir aprofundar, desta vez de forma bem-sucedida, estas personagens cuja humanidade está sublimemente transposta para o grande ecrã. Exemplo perfeito disto é a singeleza com que a personagem de Charles Xavier é desenvolvida ao longo da película, onde Patrick Stewart nos presenteia com uma performance irrepreensível.

Logan

O resultado talvez seja um dos projectos mais audazes a sair do seio dos estúdios da Marvel. Projecto este que é uma miscelânea coesa entre gore, drama e viagem de auto-descoberta com laivos de western. Pondo a morte e o envelhecimento em perspectiva, é apenas quando os créditos começam a correr ao som de Johnny Cash que de facto nos apercebemos que acabou. Nem sequer há cameos ou cenas depois dos créditos para adoçar a crueza do desfecho. Acabou, mas pelo menos tivemos o Wolverine que merecíamos. Logan, aliás, tendo em conta que é muito mais Logan do que Wolverine.

 

8.5/10

Ficha Técnica

Título: Logan

Realizador: James Mangold

Argumento: James Mangold, Scott Frank

Com: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen

Género: Ação, Drama