A relação de Hollywood com outros países tem variado ao longo dos anos. Apesar de já ter explorado outras épocas como o antigo Egito, em Exodus: Deuses e Reis (2014), e ter viajado até ao Japão do séc. XIX, em obras como O Último Samurai (2003), há quase sempre uma constante: a presença de “whitewashing” ou do cliché de um “white savior“. Sendo assim, é normal que este tipo de criticas se tenha virado para o recente A Grande Muralha. 

Este filme de fantasia passa-se durante a dinastia de Song (séc. X-XII) na grande muralha da China, e mais uma vez parece forçar a protagonização de um homem branco: Matt Damon.

No entanto, esta não é uma produção Hollywoodesca, mas sim, a primeira de muitas grandes produções chinesas que procuram conquistar parte do mercado de cinema mundial que, durante décadas, tem sido dominado pelos Estados Unidos da América.

De facto, esta indústria tem ao longo da última década vindo a expandir-se na China a um nível quase sem precedentes. Neste momento é o segundo mercado da sétima arte mais poderoso do mundo. Até Hollywood tem vindo a tentar adaptar-se ao mercado chinês, sendo exemplos disso a versão do Iron Man 3 chinesa, que inclui cenas adicionais nas quais é dado destaque a estrelas asiáticas (Wang Xueqi e Fan Bingbing), e mais recentemente, o último ato de Transformers: Era da Extinção (2014), que se passa em Beijing e apresenta “product placement” de produtos chineses.

Exemplo de Product Placement em Transformers: Era da Extinção.

A ascensão deste mercado deve-se ao facto de, na última década, o número de cinemas na China ter vindo a aumentar exponencialmente. Parte da população parece só ter começado a consumir cinema muito recentemente e, sendo assim, há obras feitas dentro do país que chegaram a arrecadar o mesmo que alguns lançamentos de Hollywood.

Em 2015, Monster Hunt (Zhuo yao ji) tornou-se o filme chinês mais bem-sucedido economicamente, ao ter arrecadado o correspondente a cerca de 385 milhões de dólares. No ano seguinte, The Mermaid (Mei ren yu) já tinha superado este valor, ao arrecadar cerca de 553 milhões. Devido a isto, Mermaid acabou por ser mais economicamente bem-sucedido do que títulos como X-Men: Apocalypse e O Dia da Independência: Nova Ameaça.

Poster de ‘Mei ren yu’.

No entanto, todos estes êxitos foram contidos às bilheteiras nacionais. Tanto Monster Hunt como The Mermaid chegaram a receber lançamentos fora do seu país de origem, mas nunca com um alto sucesso financeiro. É neste contexto que surge A Grande Muralha. Na China, não bateu recordes ao nível dos blockbusters acima referidos, mas também não era isso que se esperava.

Esta é em si uma forma de expandir o mercado de cinema chinês para que possa competir com Hollywood. Esperemos apenas que esta qualidade vá subindo um pouco, visto este lançamento ter sido um desapontamento crítico. Ainda mais dececionante é o facto desta ter sido uma obra realizada por Zhang Yimou (Esposas e Concubinas e O Segredo dos Punhais Voadores), alguém que já provou ser capaz de fazer filmes de alta qualidade.

Segundo as criticas lançadas até à data, a receção geral deste projeto tem sido relativamente negativa (neste momento tem cerca de 35% no Rotten Tomatoes). Mas porque será que A Grande Muralha teve tão fraca qualidade?

Apesar da China ter uma história com excelente cinema, títulos mais “mainstream” têm-se focado mais em efeitos gerados a computador (CGI) do que em histórias de qualidade. Vê-se isso em The Monkey King (2014) e Dragon Blade (2015). Com qualidade baixa, o sucesso nas bilheteiras de Muralha também acabou por baixar, o que levou a que o governo chinês fizesse a coisa mais sensata… culpar os críticos. Torna-se então claro que os estúdios chineses por trás de alguns destes filmes de alto orçamento não estão a dar aos seus realizadores a liberdade que precisam. Muitos estúdios parecem achar que basta contratarem técnicos de efeitos especiais de Hollywood, e acabam por investir mais aí do que numa história de qualidade.

Imagem de Entertainment Weekly.

Mas a expansão do mercado chinês não deve ser vista como algo negativo. Hollywood está, para alguns, estagnada. Sendo assim, qualquer iniciativa que desafie a sua dominância só vai fazer com que o mercado norte-americano tenha de se adaptar e experimentar ideias que não experimentaria noutra circunstância.

New Hollywood” foi uma era que surgiu após o cinema dos Estados Unidos da América também se encontrar estagnado, e acabou por impulsionar talentos como Martin Scorsese, Brian DePalma, Steven Spielberg e George Lucas a desenvolverem as suas visões cinemáticas únicas.

Além disso, esta mudança também poderá levar a um maior número de estrelas de cinema asiáticas. Tal significa que se projetos como O Último Airbender (2009) tivessem sido feitos agora, não teria havido o nível de “whitewashing” que houve. Os Estados Unidos também poderão assim parar de ser o país que monopoliza os filmes mais populares do ano, o que contribuirá para que aumento a abrangência do cinema, incluindo as visões de artistas com uma experiência de vida muito diferente.