A propósito da estreia de Delírio em Las Vedras no início deste mês, o Espalha-Factos decidiu revisitar a filmografia de Edgar Pêra, um dos mais “autorais” autores do cinema português das últimas décadas – um cineasta cujo gesto (que não se esgota no estilo) é distinto, inconfundivelmente seu e, por vezes, radicalmente novo.

Vamos debruçar-nos especificamente sobre A Janela (Maryalva Mix), longa-metragem de 2001 que fica a meio caminho entre acessibilidade e hermetismo de experimentação, ponto de equilíbrio perfeito para identificar e isolar o modus operandi de Pêra.

A Janela é, ao que tudo indica, uma comédia. Fala-nos de um homem, António, estereótipo do macho lusitano – reduzido à caricatura da caricatura – que tem seis amantes e um sentido apurado do Destino das coisas, do Fado que a todos se impõe. Até aqui, um cliché – mas ainda nem sequer começámos a ver o filme. É que o que acaba de ser descrito é apenas a história que será depois reescrita: Edgar Pêra vai fragmentar e reorganizar essa figura típica, ridícula (e, simetricamente, trágica) que parece vaguear por todos os bairros lisboetas sem se fixar num único caso, num único episódio narrativo, ou, mais concretamente, numa única mulher.

Mas quem é o António?

Para se reinventar o mito, será então preciso trazer para primeiro plano essa vertigem da embriaguez vagabunda, da dispersão, que nele se encontrava latente. Faz-se com que o António seja, afinal, mais que um: vários atores interpretam-no ao longo do filme, num impulso de multiplicação que lembra a heteronímia de Pessoa (a quem Pêra dedicará, curiosamente, um outro filme: Lisbon Revisited). Nuno Melo, Manuel João Vieira, João Didelet, José Wallenstein, Miguel Borges, são todos eles António, cada um uma face diferente do mesmo prisma.

E as seis amantes? Bom, essas são todas interpretadas pela mesma atriz – Lúcia Sigalho num papel mais que exigente, porque está em constante rotação de personagens e tem que se afirmar, paradoxalmente, como a linha contínua sobre a qual se poderá apoiar todo o filme (visto que António, ao trocar de corpo entre seis atores, se releva como uma figura menos confiável, menos sólida).

A juntar-se a este desnorte vem a confusão da imagem, também ela estilhaçada, processada e devolvida fluorescente ao espetador que, perplexo, tem de resistir ao assalto audiovisual e agarrar-se com todas as suas forças ao (já de si intermitente) fio condutor da narrativa. É uma forma hiper-estilizada e hiperativa que parece refletir as grandes convulsões de um certo cinema dos anos 2000.

Por um lado, trata-se de um estilo eufórico, fascinado com o potencial de hibridação de regimes semióticos (imagem, som e texto tendem a sobrepor-se ou fundir-se, ao invés de se complementarem), uma atração característica dos meios informáticos, dos novos media. Por outro (e este é o lado disfórico), os recursos formais de Pêra esbarram com os limites da interioridade de António: a sua mente esquizofrénica permanece, desde a primeira à última cena, inacessível, por mais cores e ruídos que se usem para espreitar o que se passa lá dentro.

Com tanto estilo e efeito, o mais surpreendente, ainda assim, é caberem piadas neste laboratório. Mas a experimentação não existe em vácuo, ela está ao serviço de um olhar – estranho, é certo, mas memorável – sobre Lisboa, sobre as ruas a subir e a descer, onde o nosso protagonista se perde em desventuras amorosas e gags grotescos. Em pequenas anedotas que não temem o brejeiro, o “revisteiro”, e que se propõem mesmo a rever esses modos populares da comédia segundo uma sensibilidade pessoalíssima – a de Edgar Pêra, algures entre um surrealismo poético e uma paixão assumida, livre de ironias arrogantes, pelo humor mais reles.

Comparando, por exemplo, A Janela com outro dos títulos mais acessíveis de Pêra, O Barão, aquilo que sobressai é a originalidade do primeiro. É que A Janela não precisa de se ancorar no porto seguro do filme de “género”, ao contrário do que sucedia com O Barão e o seu expressionismo de série B, talvez demasiado preso aos monstros do passado (destacando-se dessas influências, obviamente, o vulto do conde Drácula…).

A singularidade deste A Janela poderia ser cansativa, mas não o é. Aliás, há um prazer muito ingénuo, quase infantil, em ver um filme destes, tão diferente de tudo o resto. O problema está naquilo que o filme tem de “normal”, ou previsível: o seu sentido de humor muito físico, figural até. Certas situações que Edgar Pêra cria com os atores e cenários que tem à sua disposição parecem não cumprir o potencial das ideias – interessantíssimas – que claramente lá estão.

É como se houvesse dois filmes dentro d’ A Janela, um prático e outro intelectual, e o primeiro tivesse alguma dificuldade em traduzir visualmente os pensamentos do segundo, isto porque todas as cenas terminam num emaranhado de corpos, barulhos e luzes que nem sempre se justifica. Ora, não importa discutir se aqui a sensação de que nos falta espaço para respirar é intencional ou não, certo é que o jogo de fragmentação d’ A Janela fica, ocasionalmente, demasiado deslumbrado consigo mesmo.

Mas só se fazem estas ressalvas porque partimos do pressuposto de que o espetador não sabe para o que vai. A maravilha de um filme como este é que, de facto, o nosso olhar, mal-habituado talvez, não está preparado para ele. Nesse sentido, um dos melhores elogios que se poderá tecer d’ A Janela será descrevê-lo como um ritual higiénico: o filme de Edgar Pêra limpa-nos a vista e dá-nos a ver um outro cinema, efervescente, transbordando de possibilidades.

7/10

Ficha técnica
Título: A Janela (Maryalva Mix)
Realizador: Edgar Pêra
Argumento: Edgar Pêra, Lúcia Sigalho, Manuel João Vieira
Elenco: Lúcia Sigalho, Manuel João Vieira, Nuno Melo
Género: Comédia
Duração: 104 minutos