Numa era em que o cinema de Hollywood atravessa uma verdadeira crise de originalidade, são poucos os filmes que, sem recorrerem a um enredo extremamente saturado ou complexo, conseguem surpreender pela sua simplicidade, tornado-se numa experiência verdadeiramente cativante e estimulante. É o caso de Hell Or High Water, o mais recente filme de David Mackenzie, nomeado para quatro Oscars, cuja cerimónia acontece já no próximo dia 26.

Hell Or High Water segue a história de dois irmãos ameaçados de expropriação e que estão determinados a salvar a casa da família. Num lado temos Toby, interpretado por Chris Pine, um pai solteiro que faz os possíveis para assegurar o sustento dos seus filhos. Do outro Tanner, personagem de Ben Foster, um ex-presidiário com um sentido de justiça bastante peculiar. De modo a conseguirem a quantia necessária para conservar a propriedade, os dois irmãos resolvem assaltar as várias sucursais do banco que os ameaça penhorar.

Tudo acontece de um modo relativamente pacífico até o seu destino se cruzar com Marcus Hamilton, um ranger do Texas à beira da reforma interpretado por Jeff Bridges, conhecido pela inteligência e pelas capacidades de observação. Hamilton traça então o perfil e as motivações dos dois assaltantes, de modo a antecipar os seus golpes e perseguindo-os por todo o território do Texas ocidental, até que um deles cometa um erro fatal.

De facto, o que faz com que as relações estabelecidas por estas três personagens seja o elemento central de toda a trama é a excelência das suas interpretações. Chris Pine e Ben Foster oferecem sólidas performances, mas o verdadeiro destaque vai para Jeff Bridges, que é consolidado com a sua nomeação para o Oscar de Melhor Ator Secundário.

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Um western americano, como muitos gostam de o classificar, Hell or High Water acaba por surpreender muito mais do que num primeiro momento possa transparecer. Tal é graças à genialidade do argumento de Taylor Sheridan, que nos apresenta diálogos repletos do mais puro realismo e de tensão ao longo dos seus 102 minutos. O filme apresenta uma premissa simples que pode enganar, mas Sheridan trabalha-a de um maneira tão própria, provocando no espetador uma série de discussões que transbordam do ecrã do cinema para a vida real.

Neste sentido, é impensável falar de Hell or High Water enquanto um western hodierno, sem mencionar a qualidade da banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Os dois artistas criam uma trilha sonora que invoca o clima do clássico western americano, com contornos mais modernos, e que aliada a uma cinematografia, a um trabalho de montagem e a uma fotografia de extrema qualidade, Mackenzie consegue transformar o Novo México no Texas de uma forma perfeitamente equilibrada.

No entanto, Hell or High Water não é um filme perfeito. Apesar da qualidade de todos os elementos que a compõe, a película, de facto, nunca desilude, pois Mackenzie não oferece espaço para tal. O filme acaba por jogar pelo seguro, por enveredar por uma via mais cómoda, em vez de tentar demarcar-se dos demais e arriscar naquilo que poderia ter sido.

Não obstante, é inegável a qualidade de um filme como Hell or High Water. Quer pelos seus movimentos de câmara únicos com enquadramentos fabulosos, quer pela qualidade do seu argumento e do desempenho do seu elenco, o certo é que Hell or High Water constituirá, por certo, no futuro, uma referência no que concerne a um dos géneros da sétima arte mais popular: o western americano. É mesmo caso para dizer, custe o que custar!

Nota: 7.5/10

Ficha Técnica
Título: Hell Or High Water
Realizador: David Mackenzie
Argumento: Taylor Sheridan
Elenco: Jeff Bridges, Chris Pine, Ben Foster
Género: Crime, Drama, Ação
Duração: 102 Minutos