Fevereiro é sinónimo de mais duas edições do Sofar Sounds Lisbon e a edição deste sábado foi uma autêntica viagem, uma importação de artistas internacionais com o talento demasiado grande para o pequeno espaço a que ficámos confinados. Além da miscelânea de nacionalidades foi também uma de estilos musicais, desde o folk irlandês dos The Ocelots ao jovem brasileiro Leo Middea, intermediando a coisa com o hip-hop de MC Ary.

O espaço escolhido para acolher a última edição do Sofar foi a galeria de arte contemporânea Wozen, que no momento se encontrava com as paredes cobertas de verdadeiras obras de arte: desenhos feitos por crianças refugiadas que se faziam acompanhar pela respetiva história de vida. Esta exposição, os nomes das crianças, a sua idade e histórias fizeram-nos levantar os olhos do chão para encararmos uma realidade bem atual e presente nas nossas vidas, algo que falou mais alto do que a própria música partilhada naquela tarde.

A Wozen deu-nos todas as razões possíveis de como um local tão íntimo e acolhedor – onde cada corpo se posicionava como se fosse uma peça de Tetris – pode ser o suficiente para tornar uma edição tão mágica: a cada edição há sempre um sinal de uma energia mais criativa e inovadora.

A guitarra e a harmónica foram as fiéis companheiras do duo irlandês The Ocelots que, com meia dúzia de canções tocadas, conseguiram ter o público aos seus pés quase a pedir que eles não parassem. Os gémeos naturais de Wexford, Irlanda, – com a típica face rosada e timidez – não deram muita conversa, mas não pecaram por isso e brindaram-nos com um folk a roçar um Bob Dylan prematuro.

The Ocelots (C) Nuno Alex

Estes dois irlandeses são a prova viva de que a telepatia não é apenas a partilha de pensamentos mas também de vozes que soavam em uníssono e, quando acompanhadas com a harmónica, davam o toque bluesy que tanto encantou os presentes desta edição do Sofar. Apesar do apontamento nostálgico que a guitarra nos trouxe nas canções, Shoot Me Darling foi uma forma de acabar em beleza, uma música divertida que fez os corpos dançar involuntariamente e entoar baixinho o refrão fácil de apanhar.

Uma pausa para a passagem do segundo artista e para restabelecer energias. A Bandida do Pomar lá estava, mais uma vez, a convidar o público a refrescar a garganta para o que se seguia. Depois dos anglo-saxónicos foi a vez do brasileiro – que hoje se considera português – MC Ary que prometeu desde o início um espetáculo divertido, mas também introspetivo. O rapper hesitou em começar e explicou antes um pouco sobre toda a origem da sua carreira, as suas inspirações e sonhos.

Criticou muitos modos de viver atuais desprendidos de sonhos e ambições, trocados por vidas vulgares; apelou à busca do amor à profissão e de cumprir as aspirações que cada um tem; falou, emocionado, de todos os que o inspiraram a escrever e da vida dura que teve durante a infância. Foram estas histórias que MC Ary nos narrou que antecederam canções resilientes e com uma lírica direta e forte como foi Rafeiro, o momento alto que todos partilhamos ao ouvir apenas as primeiras rimas.

MC Ary (C) Nuno Alex

MC Ary era a estrela, mas esse estatuto apenas lhe foi concedido porque trazia vozes soul de apoio impressionantes. Uma guitarra acústica, uma alma faminta de liberdade de expressão e uma voz foram mais que suficientes para nos fazer pensar o resto do dia.

O hip-hop tuga não falhou e encantou, mas restava apenas um jovem artista natural do Rio de Janeiro, Leo Middea. Um simples rapaz de 21 anos que se se instalou por Lisboa e entrou com apenas uma guitarra na mão e umas cordas vocais de ouro. Leo tocou canções do seu álbum mais recente A Dança do Mundo (Tibethânica, Valsa, Meu Público e Pedaço do Céu) e mostrou que, apesar de ter relativamente poucos anos de vida, carrega incrivelmente bem o panorama da música brasileira nas suas costas. O seu tom jovial difere dum Caetano Veloso, no entanto os acordes bem animados não enganam a evidente bossa nova que nos faz tirar os pés do chão.

Leo Middea (C) Nuno Alex

Leo Middea não encantou apenas com as músicas que transpiravam felicidade e ânimo tipicamente carioca, ele conseguiu encaixar nelas sentimentalismo e o tema do amor que não pareceu tão vulgar como de costume. É assim que este jovem consegue tomar de assalto uma plateia, brilhar com pouco e deixar alguns corações arrebatados.

É disto que o Sofar Sounds vive: talento cru, música emergente com sede de ser ouvida e sorrisos que percorrem a cara de todos os que acabaram de experienciar algumas horas de tudo isto. No dia 26 de fevereiro regressa mais uma edição do Sofar Sounds, e já sabes como funciona: só tens que te inscrever aqui e esperares para seres um dos escolhidos.