Compreende-se que haja quem desperte para o cinema quando chega a época dos Oscars – é, em certo sentido, uma situação análoga à dos que se lembram do futebol sempre que joga a seleção nacional, e não nos adiantará de muito tentar explicá-la. É um fenómeno perfeitamente admissível e previsível – públicos que se constituem a partir de fluxos mediáticos não são nenhum mistério sociológico (é essa, aliás, a generalidade dos casos). Com o aproximar da gala dos Oscars, estamos, portanto, no nosso direito de querer ver os filmes de que toda a gente fala.

Mas por que razão é que haveríamos de ficar chocados, indignados, com toda e qualquer crítica menos positiva que é feita a estes supostos “melhores filmes do ano”, como se, caso nos atrevêssemos a respeitar a função do crítico, fôssemos forçados a concordar com ele, ou pior, a abandonar o nosso próprio juízo e pedir um reembolso pelas sessões de cinema?

A discussão dos gostos

É difícil perceber a revolta dos que acordam tarde, daqueles que em fevereiro redescobrem a sétima arte como quem dá de caras com um amigo de infância na rua e faz uma grande festa, quer logo marcar um café e recuperar o tempo perdido. Há que deixar bem claro que estes “cinéfilos” (perdoe-se a condescendência das aspas) veem filmes o ano todo, isso não está aqui em causa; contudo, é justamente em fevereiro que estes espetadores ficam sensíveis ao debate, a pensar e a discutir o cinema. Sensíveis em teoria, porque na prática a ausência de argumentos lança-os de imediato para o domínio das opiniões intransigentes, que não convivem – antes colidem – umas com as outras. Neste cenário de guerra, o desfecho mais simpático é o conveniente niilismo de bolso do gostos não se discutem.

Ora, como sucede que a colheita dos Oscars este ano – e já há uns bons anos – não tem sido do agrado de muitos críticos nacionais, as caixas de comentários das edições online dos jornais explodem de reclamações que no grau mínimo de elaboração se ficam pelo insulto, e que no máximo questionam a competência ou autoridade de quem redigiu a crítica. Por muito que discordemos da recensão, custa estar do lado dos queixosos, custa defender a oportunista paixão “cinéfila” dos nomes sonantes, dos elogios minuciosamente compostos para decorar os cartazes dos filmes, das médias aritméticas dos sites agregadores de críticas (porque, afinal, o cinema se resolve de régua na mão).

Que pode haver um desencontro entre críticos e públicos, isso é inquestionável, e há teimosia em ambos os lados. Diagnosticar os males que hoje afligem a crítica estética levar-nos-ia a uma outra discussão que não tem aqui o seu devido tempo ou lugar. Mas podemos, de passagem, perguntar-nos se a crítica está ainda acorrentada a pseudo-marxismos e formalismos do século passado (que geralmente se incompatibilizam). É injusta e anacrónica a crítica que quer todos os filmes firmemente comprometidos com a realidade, sobrevalorizando o cinema das causas (sociais, políticas, filosóficas, etc.) e desprezando o da arte pela arte, se é que os podemos descrever deste modo; e também é insuficiente a crítica que vê no cinema um mero sistema de formas em evolução e se quer ocupar exclusivamente da denúncia do já feito, da estagnação, fugindo a sete pés de tudo o que pareça didático, ideológico.

Moonlight, de Barry Jenkins, nomeado para oito Oscars.

Para estas duas miras os filmes dos Oscars serão sempre alvos fáceis. Há entre os nomeados os que estão obcecados com as suas razões formais (filmes como La La Land, fascinados com uma ideia um pouco provinciana de “género” ou “tipo” de cinema, como o musical), e há os que se esgotam nas boas intenções (que será o que acontece em Elementos Secretos).

Moonlight, que poderíamos erradamente arrumar neste segundo grupo, por também ser um filme que lida com minorias e temas facilmente inflamáveis, transcende a condição de panfleto porque não se contenta com a natureza política do corpo do protagonista, afro-americano e homossexual, e edifica uma forma, um filme consistente sobre isso. Esperemos, porém, que não ganhe o Oscar – ainda que o possa merecer, os “entendidos” iriam reduzir a sua vitória a um statement político.

Mas retomemos o problema das apreciações (claramente depreciativas) dos filmes dos Oscars. A alternativa que surge, a crítica como muitos dos heróis das redes sociais a querem, não é, todavia, mais justa – é apenas utilitária. A retórica dos que se revoltam contra a “vilania” dos críticos portugueses, levada ao limite, anseia por uma substituição generalizada das redações de jornais por gaiolas de papagaios: a crítica deverá servir somente para duplicar opiniões e expandir o mercado, para confirmar as expectativas que os trailers e os teasers alimentam e reconfortar-nos, assegurando-nos de que o nosso investimento nos bilhetes valerá certamente a pena.

Até porque, no fim de contas, a imagem mental de uma oposição entre críticos-vilões e leitores-heróis fará mais sentido a quem consome cinema do que a quem gosta de ver filmes. O consumo, esse sim, compreende o positivo, a soma, a repetição. Mas também é em fevereiro que nos lembramos de que o cinema – ou qualquer outro meio de expressão que tenha a pretensão de se afirmar como uma arte – é um jogo da negatividade, da diferença. Infelizmente, vêm aí onze meses de esquecimento. É uma pena: dispensávamos o mesmo espanto daqui a um ano.