Como todos os grandes filmes de ficção-científica, O Primeiro Encontro tem mais a dizer acerca do nosso mundo e o nosso tempo do que sobre realidades futuristas e criaturas de outras galáxias. De facto, na sua abordagem ao género da invasão extraterrestre, o novo filme do realizador canadiano Denis Villeneuve dificilmente poderia ser mais humano.

Desengane-se quem entra na sala de cinema à espera de assistir a um Guerra dos Mundos progressista, protagonizado por uma mulher. Na sua dimensão contemplativa e insistência em desviar a sua atenção dos visitantes alienígenas para a tensa reacção humana à sua chegada, O Primeiro Encontro estabelece maior afinidade com clássicos como Encontros Imediatos de Terceiro Grau e O Dia em que a Terra Parou.

Uma história que vale pela forma como é contada

Baseado no livro do escritor americano Ted Chiang, Story of Your Life, a história arranca com uma analepse que nos conduz momentaneamente a um ponto particularmente trágico da vida da protagonista, a linguista e tradutora Louise Banks. O tom melancólico e fatalista destes primeiros minutos vai contagiar o enredo principal, à medida que assistimos ao caos provocado pela aterragem de doze naves espaciais em pontos diferentes do mundo, sem qualquer tipo de advertência ou justificação. Banks é então encarregue de tentar comunicar com estes novos hóspedes do planeta Terra e descodificar quais são as suas verdadeiras intenções.

Perante a premissa inicial, rapidamente intuímos o potencial para tiroteios, bombardeamentos e uso abusivo de efeitos especiais. Somos todos filhos de Hollywood. Contudo, e porque o cérebro por detrás desta pequena pérola do cinema de ficção-científica é nada mais nada menos do que o homem que nos trouxe longa-metragens tão distintas como Sicario, O Homem Duplicado ou Raptadas, O Primeiro Encontro revela-se bem mais complexo do que seria de esperar.

Este feito deve-se, em grande parte, ao trabalho do seu braço direito, o argumentista Eric Heisserer, responsável pela difícil tarefa de transpor para guião uma narrativa que, na própria natureza da sua estrutura, elimina qualquer hipótese de linearidade.

É na excelência do trabalho de Heisserer que assenta parte do sucesso deste candidato aos Oscars. Num período em que o cinema americano vive uma verdadeira crise de originalidade e o espectador raramente é surpreendido, o twist final de O Primeiro Encontro chega até nós com uma frescura digna de uma vénia e de uma palavra de agradecimento.

Contudo, este filme é mais do que um feliz e coerente encadeamento de acontecimentos. No seu lirismo melancólico e reflexão interdisciplinar acerca de temas relevantes para a actualidade, O Primeiro Encontro tem razão e coração.

O papel fundamental da comunicação no mundo dos nossos dias, os jogos de poder e influência nas relações internacionais, um piscar de olho analógico e dissimulado às dinâmicas e interacções num mundo pós-colonial, uma sentida homenagem à linguística, área científica que nunca, até ao momento, se tinha revelado suficientemente glamourosa ou excitante para inspirar Hollywood… o que não falta é material para meditação, bem ao gosto do espectador que gosta dos seus filmes pensados e comprometidos com a realidade.

Já o coração, esse, é todo cortesia de Amy Adams. No seu rosto familiar e relacionável, tez pálida e olhos cintilantes, encontramos a âncora de um filme que se alimenta da subtileza e naturalidade do seu jeito. Conhecida a sua Louise Banks, torna-se impossível imaginar outra actriz capaz de trazer com semelhante firmeza para cima da mesa uma tão equilibrada combinação de serenidade e sentimento.

Que a sua face tenha direito a mais tempo de antena do que os tentáculos dos extraterrestres é uma aposta ganha de Villeneuve. A deslumbrante arte fotográfica de Bradford Young – que lhe valeu uma nomeação para o Oscar – contribui para potenciar ao máximo o talento de Adams, ao envolvê-la numa atmosfera onírica e de cores esbatidas que acentua a qualidade dramática do seu desempenho. Que a actriz tenha ficado de fora das nomeações para os Prémios da Academia, torna-se por isso incompreensível, principalmente se recordarmos a sua performance igualmente brilhante em Animais Noturnos.

Porém, nem tudo são rosas. O Primeiro Encontro não escapa aos clichés tão próprios de um certo tipo de cinema americano, dissimuladamente propagandista, em que o governo e o exército da “maior nação do mundo” são sensatos e comedidos, em oposição a uma Rússia e uma China ocas e propensas violência. Num filme abertamente apologista da tolerância, que pretende transmitir uma visão unificadora da Humanidade, ficamos com a ideia de que uns – os mesmos de sempre – são mais humanos do que outros. Há coisas que nunca mudam.

Considerações políticas à parte, O Primeiro Encontro é uma pérola do cinema de ficção científica. Apenas Denis Villeneuve poderia pegar na já batida fórmula da invasão extraterrestre e enriquecê-la com uma tão forte carga emocional e com temas de tamanha relevância para o mundo de hoje. Logrando da cada vez mais rara combinação de estilo e conteúdo, este é um filme para pensar e para sentir. Os efeitos especiais vêm na medida certa e o momento em que a nossa percepção da linearidade da narrativa se estilhaça permite-nos compreender que o virtude deste filme está tanto no valor da suas ideias como na forma como elas são concretizadas.

8/10

Ficha Técnica
Título: O Primeiro Encontro
Realizador: Denis Villeneuve
Argumento: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker
Género: Ficção-científica
Duração: 116 minutos