Capitão Fantástico, o filme que retrata as vivências pouco ortodoxas da família Cash, passou algo despercebido nas salas de cinema portuguesas. Com realização ao encargo de Matt Ross, Capitão Fantástico fez sucesso em Cannes e assegurou o seu lugar nos Oscars com a surpreendente nomeação de Viggo Mortensen para Melhor Ator Principal.

Ben e Lily Cash vivem com os seus seis filhos num recanto natural quase paradisíaco no estado de Washington, intocado pelas filosofias e maus hábitos de uma sociedade ensimesmada. Este éden particular encontra-se afastado dos perjúrios do capitalismo e das más influências do sistema de educação moderno.

Ao longo de quinze anos esta família vive isolada na floresta, cultivando ou caçando o seu próprio alimento, meditando de manhã e lendo em redor da fogueira à noite. A educação dos seis jovens está ao encargo dos pais, sobre um regime de estudo assíduo que incide sobre as mais variadas áreas do saber.

Este pacato estilo de vida é virado do avesso quando a mãe, Lily Cash, morre vítima de depressão e bipolaridade. A família embarca numa viagem a fim de marcar presença no funeral de Lily, contrariando os desejos de Jack, o sogro de Ben.

Estão os dados lançados para um enredo relativamente previsível dentro da vertente indie tão incansavelmente presente no cinema da atualidade, baseado na clássica roadtrip de auto-descoberta que já foi repetida até à exaustão. Contudo, há algo na fórmula de Capitão Fantástico que eleva este cenário já tão repetido e mastigado para uma história que transmite eficazmente a sua mensagem, apesar de todo o sentimento hiperbólico que rodeia este aparentemente extraordinário conjunto de jovens, que debatem Marxismo e Taoísmo ao pequeno-almoço.

De facto, é neste exagero que se encontra a beleza, uma vez que é em todo este desenvolvimento intelectual e crítico onde pecam os métodos de Ben Cash. A capacidade de interação social destes jovens é pouca ou nula, sendo esta falha retratada diversas vezes ao longo do filme de forma caricata, em jeito de alívio cómico.

É também nestas situações que surge a dúvida do espectador perante a educação utópica exercida por Ben, estando estas crianças tão desenvolvidas a nível pessoal e mental, mas tão atrofiadas a nível social. Por esta altura, o filme chega ao seu culminar, despoletando o debate interno em relação ao que é acertado para estes jovens criados a partir da “República de Platão”. Surge a dúvida se o seu destino é de facto tornarem-se reis filósofos ou se estarão destinados ao fracasso face ao choque com a sociedade.

O que eleva este filme é sem dúvida as representações irrepreensíveis de Viggo Mortensen e do talentoso grupo de jovens atores que desempenham o papel de seus filhos, bem como uma realização inteligente que presenteia o espectador com diversos momentos de uma beleza exponencial, seja pelos instantes cómicos, seja pelas cenas mais emotivas.

Apesar disto, devido à repetição de uma mensagem anti-capitalista e não consumista que ocorre como uma ladainha subtil ao longo de diversos momentos desta longa, pode surgir a impressão que nos estão de facto a tentar impingir estas filosofias, ao sermos bombardeados com mensagens subliminares acerca dos horrores da bestialidade fascista que são os E.U.A. dos dias de hoje.

O que há aqui para além de honestidade é, sobretudo, surpresa. Numa película cuja receita poderia ter como ingredientes principais os clichés, Ross conjura uma narrativa audaz que ilustra as vicissitudes excêntricas de uma família ao abrigo das filosofias de Noam Chomsky. E fá-lo com espontaneidade, relatando com fluidez as decisões não de um capitão, mas de um indivíduo fantástico.

8/10

Ficha Técnica

Título: Captain Fantastic

Realizador: Matt Ross

Argumento: Matt Ross

Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler

Género: Comédia, Drama

Duração: 118 minutos

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