Tem a sua graça imaginar um mundo onde Toni Erdmann fosse o filme natalício por excelência, não Sozinho em Casa e a sua sonsa ficção do risco. É certo que ambos os filmes estabelecem uma axiologia típica do Natal, centrada no valor da família, mas a diferença entre os dois tem que ver, curiosamente, com a presença dos familiares.

Sozinho em Casa, como o título indica, corre com eles para que não aborreçam o miúdo, para que não o atrapalhem nas suas aventuras, situações-limite que, longe de serem verdadeiros perigos de rapto ou morte, são, na verdade, diversões inofensivas e gratuitas. A retórica moralista do filme de Chris Columbus é, então, um puritano “faz o que eu digo, não o que eu faço”, já que o circo de Sozinho em Casa depende precisamente da ausência dessas coisas que apregoa (união, amor) para nos manter entretidos ao mais básico nível.

O que acontece, porém, quando a família está de facto presente – e inconvenientemente presente? É essa a questão que Maren Ade nos coloca com o seu Toni Erdmann, que só por isso já é um filme de Natal mais digno, ainda que de explicitamente festivo tenha muito pouco.

Toni Erdmann: Ninguém ou todos nós em potência

Toni Erdmann não é, nesta história, o nome verdadeiro de ninguém – antes parece designar uma atitude em particular, um inocente redescobrimento da vida. É assim que se chama o alter ego de Winfried Conradi (Peter Simonischek) que, descontente com a apatia da sua filha workaholic (Sandra Hüller), decide fingir ser Toni, um caricato life coach, para desse modo se intrometer na rotina diária dela com a imprevisibilidade e boa-disposição que estão em falta. Recorrendo a partidas e disfarces que se vão tornando progressivamente mais elaborados, o pai vai-se apalhaçar para despertar a filha do sono de uma vida sempre adiada, sempre posta ao serviço da empresa.

O filme é inesperadamente ambicioso no diagnóstico deste sonambulismo da businesswoman, mostrando como até a sexualidade dela está comprometida a uma lógica da utilidade máxima ao mínimo custo – e são porventura atrevimentos como esse que distinguem Toni Erdmann da inócua comédia feelgood que a premissa faz prever.

Maren Ade também nos apanha desprevenidos quando, a um ritmo quase glacial, vai denunciando linhas de exclusão contidas na lei do mercado, crítica mais que evidente nessa simples mas magnífica cena em que pai e filha visitam uma petrolífera (é-nos deixado bem claro que quem ficou do lado de fora da redoma da globalização foram os trabalhadores).

Junta-se a isso uma crónica de costumes, um “ponto de situação” dos nossos códigos sociais (preocupação antropológica que, lembrando o Elle de Verhoeven, se assume como um dos temas-chave do cinema de 2016), onde somos levados a perguntar, entre outras coisas, se o corpo ainda constitui uma transgressão, se ainda é uma região impensada nessa geografia dos homens e mulheres de negócios (note-se no sketch da unha do pé ou no clímax, a cena da festa perto do fim do filme).

Mas Toni Erdmann consegue integrar esses subtextos na intriga principal sem atropelos ou didatismos. Nunca nos esquecemos de que esta é, no fundo, a história de uma reconciliação de dois pontos de vista à partida incompatíveis: o do pai, que sabiamente assiste à azáfama do mundo moderno com um pé dentro e outro fora, e o da filha, perfeitamente imersa no trabalho que a consome, e, por conseguinte, totalmente abstraída da vida em tempo real.

Com as suas anedotas, Winfried vai alertando a filha para a irrealidade do mundo das reuniões e dos jantares de empresa, como que pedindo que ela se afaste de tudo aquilo – porque o humor é isso mesmo, uma arte da distância, da análise, do outsider.

O que não convence tanto é o contágio formal desse afastamento. É que, num filme deliberadamente cheio de tempos mortos (para que as piadas sejam mais espontâneas e duplamente eficazes), preferir-se-ia uma execução visual menos indiferente e desenxabida, uma cinematografia que não estivesse tão distante das personagens, tão trancada no piloto automático de um naturalismo banal. Formalismos a mais iriam distrair-nos dos sketches, sim, mas a insipidez da solução escolhida deixa um pouco a desejar.

Esse é, todavia, um problema que resulta de outro bem mais amplo: é que Toni Erdmann está, de início ao fim, imbuído de uma aura indie que o vai desgastando. É um filme demasiado consciente de si mesmo, demasiado satisfeito com a sua própria marginalidade, com a sua irreverência naïf. E é essa zona de conforto que o impede de ser a segunda vinda de Cristo que a gente dos Cahiers e da Sight & Sound anunciava.

No entanto, não sobram dúvidas de que Toni Erdmann é bom e recomendável. A leveza do guião esconde um denso programa filosófico como há muito tempo não se via num filme destes. As dentaduras postiças, as máscaras e os pseudónimos ajudam a revelar, afinal, o que de mais sincero há em nós, e é preciso não deixar essa sinceridade passar despercebida: há que vivê-la enquanto ela acontece. Os últimos segundos de Toni Erdmann, talvez os mais belos e tristes de todo o filme, trocam-nos as voltas com uma duríssima pergunta: teremos hoje a paciência necessária para que essa outra vida – autêntica, real, descomplexada – possa ainda acontecer?

7/10

Ficha técnica
Título: Toni Erdmann
Realizador: Maren Ade
Argumento: Maren Ade
Elenco: Sandra Hüller, Peter Simonischek, Michael Wittenborn

Género: Comédia dramática
Duração: 162 minutos