No rescaldo do assassinato de John F. Kennedy, houve um adjetivo que se tornou o principal caracterizador das várias ocorrências desencadeadas: Caleidoscópicas. Foi com esta direção, com o foco nas sucessivas reflexões dramáticas, que Pablo Larraín dirigiu Jackie.

Ao primeiro vislumbre de Natalie Portman, imediatamente na primeira cena, sentimo-nos na presença de Jackie Kennedy. A atriz veste a elegância, o sotaque do meio-atlântico e a teatralidade de uma primeira dama que está, também ela, a atuar. A performance é subtil, com pequenos gestos e vislumbres que revelam os seus conflitos internos. Apesar das suas fragilidades, Jackie é firme na missão de fixar a sua versão dos factos. Uma tarefa que concretiza numa entrevista com Theodore H. White (Billy Crudup), dando início à narrativa.

A primeira dama não é caracterizada como um bibelô de fato Channel rosa, mas como uma mulher forte que geriu, numa semana, a realidade rápida da viuvez e orfandade dos seus filhos. A forma lúcida com que enfrenta a saída repentina da Casa Branca e a necessidade de solidificar o legado do marido, refletem a sua habilidade natural de relações públicas.

“Welcome to the White House. We’re so proud to call it home.”

Jackie demonstra-se preocupada com História e a importância de legados, mesmo antes de JFK falecer. Em 1962, a primeira dama terminou uma renovação da Casa Branca, que teve o fim de trazer de volta mobília histórica. Numa decisão caraterística da sua agenda, avançou com as filmagens de um tour ao número 1600 da Avenida da Pensilvânia, dando a conhecer a residência ao povo americano. Pablo Larraín reconstituiu este e outros momentos televisivos, misturando imagens originais, com gravações atuais granuladas. A par da técnica, o desempenho de Natalie Portman torna indistinguível a perceção de quando estamos perante gravações originais da primeira dama, ou da atriz.

À esquerda, Jacqueline Kennedy. À direita, Natalie Portman no papel de Jackie.

Através de imagens dos bastidores, que se sobrepõem às granuladas, o contraste entre a primeira dama que surge na televisão e a que está por detrás dos holofotes é evidenciada. Pablo Larraín aproxima-se das emoções genuínas de Jackie, em close ups. Tomamos conhecimento de uma primeira dama frágil e hesitante, que muitas vezes busca orientação em Nancy Tuckerman, a sua secretária social, interpretada por Gerta Gerwig.

As personagens secundárias acabam por ter o mesmo valor, fruto da narrativa dividida. Em cada fragmento observado, cada personagem tem um poder impactante semelhante. Nancy Tuckerman tem uma relação que, pela proximidade, faz desvanecer as barreiras entre o profissional e o pessoal. Por sua vez, Robert Kennedy, interpretado por Peter Sarsgaard, é ao mesmo tempo um pilar e um crítico. Partilha os desejos e preocupações da cunhada, mas da perspetiva de um irmão. Todas as personagens contribuem para o conflito, do mesmo modo caleidoscópico que a narrativa se constrói.

Mica Levi regressa à composição para filmes

Também acompanhando Jackie nos seus momentos mais íntimos, flui intensa e sincera a banda sonora composta por Mica Levi. O som ondulatório e sombrio das cordas funciona como elemento agregador. É a unicidade, conferida através do som. Eleva as subtilezas e carrega emocionalmente cada cena, fazendo permanecer momentos como o de Jackie agarrada ao porta-malas do carro, ou uma simples saída de um avião.

Único, mas de outro modo, são os cenários que se demonstram fiéis ao interior da Casa Branca e do Air Force One. Nas múltiplas cenas em que Jackie anda pelos corredores da residência oficial do presidente, iludimo-nos, achando lá estar.

Por fim, o legado que nos comove é o de Jackie. Que cristaliza na memória coletiva os feitos do marido, remetendo numa citação carregada de subtexto, para uma das paixões de JFK: o musical Camelot: ‘Don’t let it be forgot, that once there was a spot, for one brief shining moment that was known as Camelot…There’ll never be another Camelot again…’

7/10

Ficha técnica:
Título: Jackie
Realizador: Pablo Larraín
Argumento: Noah Oppenheim
Elenco: Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig
Género: Biografia, Drama
Duração: 100 minutos