No dia 12 de fevereiro, às 22h00, chega ao canal História uma nova superprodução sobre o impacto de catástrofes naturais, espaciais ou geradas por ação humana no planeta Terra. Já imaginaste como seria se fôssemos atingidos por meteoritos ou tempestades solares? Se fossemos fustigados por mega erupções vulcânicas ou se desencadeássemos uma guerra nuclear mundial?

O que seria da humanidade como a conhecemos? E do planeta que habitamos? A série O Fim do Mundo promete transportar-nos para estes cenários desastrosos, mostrando-nos dez hipóteses que podem resultar no fim da Terra, com base em teorias de especialistas.

O apocalipse também chegou a Lisboa pela mão de Sérgio Odeith, artista português reconhecido além-fronteiras que desde cedo patenteou o seu estilo de pintura tridimensional. Odeith esteve no início do mês na Gare do Oriente a trabalhar num mural que retrata o efeito que teria o impacto de um meteorito. No mural, vemos um passeio inteiro a rasgar-se em fendas, carros a serem arremessados pelo ar e, no fundo, o familiar Hotel Tivoli, que se alinha na perfeição com a sua imagem na parede, reforçando a tridimensionalidade da obra.

Sobre o projeto, Odeith afirmou: “É com grande satisfação que realizo em conjunto este trabalho com o canal História. O tema escolhido, as catástrofes, foi algo que sempre me fascinou: o poder da natureza.” O Espalha-Factos esteve à conversa com o artista urbano, para conhecer mais a fundo o seu trabalho.

O Fim do Mundo

 

Espalha-Factos: Hoje, o teu trabalho é reconhecido para além das fronteiras de Portugal. Tendo em conta todo o percurso que fizeste até à data, como surgiu essa paixão pela street art, em particular pelo estilo que mais te caracteriza: a arte anamórfica ou tridimensional?

Odeith: Isso são duas coisas diferentes. A cena do anamórfico surgiu por acaso, a pintar. Houve uma peça que saiu cá para fora da parede, aquilo pareceu-me giro e continuei. A parte da street art já foi há vinte e tal anos, logo nos meus primeiros graffiti. Comecei a pintar, não sei, aquilo despertou-me curiosidade, alguém a escrever o nome à noite, ilegalmente, na rua.

EF: Então começaste a grafitar com amigos?

Odeith: Sim, com pessoal amigo. Depois mudei-me do bairro onde vivia, também havia lá pessoal que pintava, mas a maior parte desistiu.

EF: Foste só tu que continuaste?

Odeith: Sim, isto deve ter sido em 1995, 1996…

EF: Quando é que começaste a levar o que fazias mais “a sério”? Quando deixaste de o fazer na brincadeira com amigos?

Odeith: Eu sempre levei isto a sério. Mesmo no início, sempre pintei murais grandes e sempre fiz alguns trabalhos. Às vezes não dava para pagar a renda, outras vezes dava. Até há três, quatro anos, quando deu para começar a viver de pintar. Eu também tatuei durante um tempo, depois pude parar com as tatuagens. Durante um tempo: uns 12 anos.

EF: Tinhas um estúdio próprio?

Odeith: Tinha um estúdio próprio, sim. Bem grande, com galeria, com tudo. Mas entretanto terminei tudo, já não tatuo há quatro anos. Agora dedico-me só a pintar.

EF: Como foram as criações das tuas primeiras obras?

Odeith: Primeiro, foi tudo ilegal. Eram sempre nas linhas de comboio e assim. Só mais tarde é que arranjei o primeiro muro legal e fiz os primeiros murais, apareceram os primeiros recortes nos jornais. Mas mesmo assim era complicado conseguir viver disto, não era uma coisa constante.

EF: Hoje o teu estilo é mais direcionado para a pintura em 3D, mas ao longo do teu percurso enquanto artista procuraste sempre seguir essa linha ou também experimentaste outros géneros de street art?

Odeith: Não. Fui sempre mais para as letras em graffiti, rostos, memoriais. Nunca fiz outro tipo de street art. Sempre foi mais a vertente graffiti, pintar letras, sempre pintei mais murais com estilo graffiti. Hoje vou mais para a cena do anamórfico, mas não deixei de pintar murais e retratos. Mantive-me pela mesma coisa mas, mesmo no 3D, procurei continuar a incluir as letras de graffiti, a assinatura com o nome. Na prática, isso é que é um graffiti, mais nada. O resto já é street art: os retratos e o que seja.

EF: A pintura em 3D requer uma preocupação considerável com a cor, a perspetiva, o posicionamento do desenho, o jogo de luz e sombra. Nesse aspeto deves ser muito perfeccionista, muito minucioso. Como conseguiste o progressivo aperfeiçoamento da tua técnica?

Odeith: Eu sempre desenhei em 3D. Sempre. Mesmo quando não fazia os anamórficos em esquinas e em cantos, sempre desenhei letras tridimensionais. Ou seja, sempre estudei, eu próprio, sombras, luzes, a luz vermelha ou luz azul, o vidro, o reflexo, o espelho, e tudo o que acontecia com esses materiais. Atualmente, uso software de computador, um software que me permite atingir outro nível de realidade dos objetos e das formas que quero pintar.

EF: Tens algum artista de referência que consideres inspirador do teu percurso na street art ou cujo trabalho admires?

Odeith: Não propriamente. Vi o Giger, vi o Salvador Dalí. Depois quando arranjas a primeira revista de graffiti, vês o Mode 2, vês graffiters old school, mas não fazem o teu estilo. Depois acabas por criar o teu próprio estilo.

EF: Já percorreste várias partes do mundo com as tuas pinturas em 3D. Há alguma obra em particular pela qual tenhas um carinho especial? Ou algum sítio onde já tenhas pintado e do qual tenhas boas memórias?

Odeith: Sim, há muitos. Do Louisiana gostei, fui lá cinco ou seis vezes. De Tel Aviv também gostei, em Israel. Moscovo também. Foram vários sítios. Eu às vezes até me esqueço de sítios em que já estive. Por vezes digo que este ano já pintei na Rússia, aqui e ali, e depois mais tarde vem-me à cabeça: “Espera lá, este ano também já pintei nos Açores, em Toronto…”. Ou seja, há muitos sítios. Mas se há um que me marcou bastante, talvez tenha sido mesmo o Louisiana.

EF: De que gostaste?

Odeith: Os bairros, típicos da América. Consegues mesmo sentir a cultura, sobretudo a cultura africana, mais de rua, dos estados mais pobres. Eram aqueles bairros sociais de casas de madeira, muito afastadas umas das outras. Não era bem um ambiente suburbano.

EF: Porquê o nome artístico “Odeith”?

Odeith: Foram vários nomes até chegar a este. Primeiro foi “Hate” (“ódio”, em inglês). Com esse nome, assinei só um graffiti ou dois. Depois foi “Eyth”, também para um graffiti ou dois. Depois foi “Eith”, para tentar que soasse da mesma forma, mas não com os mesmos carateres, ou na forma correta, porque senão ia haver o “Hate” da Bélgica, o “Hate” de todo o lado. Mais tarde, antes até de fechar o estúdio, passei a assinar “Odeith”. Houve um ano em que quebrei, em 2002, e em 2003 voltei outra vez a pintar com força e decidi acrescentar-lhe o “Od”. Ou seja, o “Eith” continua lá na mesma e continua com o mesmo significado: odeio isto, odeio aquilo, odeio a sociedade…

EF: “Odeith” soa a “Odeio-te”.

Odeith: Exatamente. Quando estás enervado com alguém, se calhar sai-te “Odeith” e não “Odeio-te”. Foi na brincadeira. Se calhar hoje, perguntam-me se não preferia ter mantido o “Hate”. Eram mais anos a assinar com o mesmo nome. Contudo, o “Odeith” trouxe-me uma coisa positiva: onde quer que pesquises, na Internet por exemplo, o único Odeith que existe sou eu. Qualquer coisa que tu encontres com a referência “Odeith”, é tudo sobre mim. Se calhar se fosse “Hate”, havia um MC qualquer, um rapper ou assim com o mesmo nome. Podia também implicar perder créditos, não ser tão fácil encontrar o teu nome. Assim é fácil. Tu vês qualquer coisa com a assinatura “Odeith”, pesquisas na Internet e aparece-te logo. Mesmo que troques uma letra ou duas, vai-te aparecer “Odeith” como sugestão.

EF: Tu já participaste em vários festivais de arte de rua: o Step In The Arena, na Holanda; o 4 Elements Grysmby’s Urban Arts Festival, no Reino Unido; o Dubai Canvas Festival. Há algum festival que destaques?

Odeith: Com o Step In The Arena fiquei surpreendido, mas o melhor, ainda assim, foi o Meeting of Styles, em Wiesbaden, na Alemanha. E eu fui lá três vezes. Eu também era mais “fresco”, era mais novato quando lá fui, e ver logo 200 artistas de todo o mundo a pintar por 48 horas. E foi uma zona gigante, em que tudo fica transformado.

EF: Consideras aquilo que fazes um estilo de vida? Na medida em que te permite viajares muito, conheceres pessoas de várias partes do mundo, a trabalhares naquilo de que mais gostas.

Odeith: Completamente. Hoje em dia até é difícil criar outro estilo de vida devido àquele que já tenho. Por exemplo, ter um cão, eu não posso. Tenho mais uns cinco países ou seis a visitar, os próximos onde vou, não podia ir com o cão atrás. O que eu quero dizer é que tu crias um estilo de vida, ficas dependente dele e não podes alternar com outro, todos os dias. Sim, é definitivamente um estilo de vida.

EF: Em que aspetos distingues a street art da pintura 3D? Porque preferes as paredes às telas?

Odeith: O graffiti não tem que ver com street art. O graffiti joga com o ilegal/legal, são letras e nomes, pintados com lata ou rolos, mas tudo free hand. A street art já envolve stencils, fita-cola, ou seja, muda um pouco o tipo de sujidade que a pintura por vezes deixa ou estilo do tipo de arte. Ao contrário das telas, acho que o facto de ser temporária e gratuita tem outro valor. Tu um dia vais morrer e as telas vão cá ficar. Vão servir para alguém um dia usar como ação. Ou seja, hoje vale 100 mil, amanhã vale 600 mil, conforme os artistas.

Atualmente, isso chateia-me e opto por não pintar telas por causa disso. Já me aconteceu colecionadores comprarem um print de uma imagem e guardarem. Nem sequer chegam a pendurar em casa nem em lado nenhum. É só para guardar e não lhes serve para nada. Hoje compras por 25 e amanhã vendes por 100 euros. Gastas o teu dinheiro, mas não queres saber daquilo para nada. É mesmo uma ação. Como compras acções de uma empresa, compras uma obra de um artista, com a esperança de que amanhã possa valer dinheiro.

EF: Ou seja, ao pintares murais nas ruas, acaba por ser muito mais acessível a toda a gente.

Odeith: Sem dúvida. Toda a gente pode parar, olhar, tirar uma fotografia, és mais livre para pintares aquilo que queres e também tens mais espaço para o fazeres. E daqui a uns anos já não existe. Já foi tapado ou já se deteriorou.

EF: E também tem outro tipo de impacto visual: na rua as pessoas não conseguem evitar olhar para os murais, chamam logo a atenção.

Odeith: Claro. Mas atualmente, os meus espaços favoritos são as fábricas abandonadas. Aí ninguém vê, só vêem na Internet. Está tudo escondido, até um dia. Não tenho ninguém à minha volta.

EF: Nasceste na Damaia, no concelho da Amadora. O que significou pintares os tributos a artistas intemporais da música portuguesa como Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Carlos Paredes na Amadora?

Odeith: Significou bastante. Eu pinto há mais de vinte anos na Damaia e arredores e nunca tinha acontecido. Quando aconteceu foram logo três murais enormes, e perto daqueles vão surgir outros, provavelmente ainda este ano. Talvez, quando eu era mais novo e mais inexperiente, não me pedissem para pintar fachadas daquele tamanho.

EF: O resultado ficou incrível. Os murais têm um grande impacto visual.

Odeith: Sim. Também pintei um mural do género recentemente no Barreiro, um do Augusto Cabrita. Também foi muito fixe. Fico contente, porque na altura pintava o Tupac ou o Notorious B.I.G., ia para os bairros tipo Cova da Moura e pintava outros ícones, talvez também por ser um pouco mais rebelde na altura. Hoje em dia também me dá prazer pintar o Carlos Paredes, até eu próprio pesquiso sempre um pouco, leio qualquer coisa. É interessante.

Quando publico esse tipo de trabalhos, não é uma coisa que crie impacto lá fora. Primeiro, porque são trabalhos baseados em fotografias antigas, ou seja, nunca consegues ir a um hiper-realismo em que vês as pestanas ou o que quer que seja. Tens de te limitar mais ou menos àquilo que vês, lá podes dar um toque teu, mas lá para fora esses trabalhos não significam tanto como aquilo que significam para nós, aqui em Portugal. Os portugueses adoram-nos. E lá fora, perguntam: “Quem são?”

EF: Também já pintaste em Moscovo, onde tiveste oportunidade de interagir com outros artistas e com os fãs. Como foi a experiência?

Odeith: Foi única. Primeiro, Moscovo é uma cidade completamente diferente de tudo o que já tinha visto. Enfim, como tantas são diferentes de qualquer outra. Mas a parte de ter fotógrafos à espera para ver o trabalho, de ter lá os miúdos para receberem um autógrafo… claro que é gratificante. Ficas mesmo contente.

EF: Tendo em conta aquilo que atingiste no teu percurso artístico, que conselho darias a um artista ou aspirante a artista que esteja agora a começar ou até mesmo a um que já ande há algum tempo nestas andanças?

Odeith: O principal é não desistires. Há trabalhos que eu faço hoje em dia, e passaram-se vinte anos, que eu nunca pensei que fosse ser pago daquela forma, reconhecido daquela forma. Mas tive de esperar.

EF: Sobre a produção do canal História, O Fim do Mundo, como surgiu a tua participação?

Odeith: Tenho uma pessoa que trabalha como manager, que entra em contacto com eles, damos-lhes um valor e, caso seja aceite, avança-se com o projeto. É uma coisa mais profissional. Perguntam-me: “Para pintar isto, é quanto?”, “Ok, é x, eu preciso disto, disto e disto. O valor com isto sobe para x” e só quando deixamos tudo acordado é que se avança com o projeto.

EF: E tem sido uma boa experiência?

Odeith: Sim, tem estado a ser bom. Só fiquei um pouco triste por causa do tempo: a chuva, o frio. Como o mural fica próximo de uma estação, as pessoas não têm muito tempo. Se tivesse sido no local que eles queriam primeiro, na Praça dos Restauradores, tinha tido um impacto completamente diferente. Temos os turistas, está toda a gente mais tranquila. Aqui é uma zona de stress, toda a gente a passar, zona de trânsito…

EF: O tema das catástrofes naturais extremas, foi algo que te agradou?

Odeith: Sim, claro. Gostei da ideia, apesar de continuar a achar que foi tudo um pouco rápido. O tempo passou mesmo extremamente rápido. De um momento para o outro, foi decidido que iria estar na Gare do Oriente, e eu pensei: “Vá, é isto que eu vou fazer”. Acho que com mais tempo, com mais calma, tudo era diferente.

EF: Então e como surgiu a ideia para aquilo que estás a pintar neste momento?

Odeith: Foi numa reunião, deu-me assim esta ideia na cabeça. Às vezes tens aquelas visões súbitas. Neste caso, basicamente retratei tudo o que está por trás e depois destruí tudo. Há ali um ângulo, do qual, quando tiras a foto, consegues enquadrar todas as linhas com o que está por trás. Tudo fica encaixado. Daqui estás a ver isto de um determinado ângulo, mas daquele ângulo em particular dá-te o efeito completo. Foi um improviso, às vezes as melhores ideias saem mesmo do improviso.

EF: Tens mais projetos para o futuro próximo?

Odeith: Aqui por Portugal, para brevemente, não tenho nada, só tenho um trabalho privado para quando vier do Dubai. Agora vou para América, só estou por cá dois dias e depois sigo para o Dubai. Desta vez, o Dubai Canvas vai ser um concurso com prémios bastante altos, não vai ser um festival. É só para vinte artistas. Depois, a única coisa que eu vou ter aqui ao vivo, vai ser um mural gigante em Alcácer do Sal.