Há por aí uma raposa à solta – deixou as serras para ir para o pomar. A nova sidra Bandida do Pomar tomou de assalto o Mercado de Santa Clara para o transformar na Feira da Bandida, numa parceria já celebrada pelo Sofar Sounds Lisbon, que trouxe a música à festa.

Do pomar para os copos, a nova sidra do mercado foi a anfitriã, no passado dia 26 de janeiro, do assalto musical (de copo cheio!) e, com um ambiente menos intimista que o habitual, o Sofar Sounds deixou a marca nesta Feira da Bandida com as bandas que convidou para atuar.

Diogo Faro e Guilherme Geirinhas foram os convidados especiais, além das bandas que o Sofar tirou da cartola. Os humoristas apoderaram-se de duas bancas que encheram com pertences vários, um convite ao público para assaltar e levar o objeto que mais lhe agradava – tal como o assalto da raposa ao pomar. Vinis de Nel Monteiro ou de Marco Paulo, um skate ou umas pantufas, tudo à escolha do freguês.

Tal como em todas as edições do Sofar Sounds, as bandas que iam animar o evento estavam no segredo dos deuses (ou nos de João Alvarez e de Inês Pires). Cada edição do Sofar serve para viver tudo como se fosse a primeira vez – os eventos multiplicam-se mas a magia continua lá.

O espaço central do Mercado de Santa Clara deu lugar ao palco improvisado, com um decor que remonta à década de 50/60 nos tempos áureos da televisão em Portugal, que agora faz lembrar a casa dos nossos avós. Cenário montado, média luz e estava na hora de dar início ao espetáculo.

A Bandida do Pomar é agora parceira do Sofar Sounds Lisbon

Os primeiros acordes foram dos Vaarwell, quarteto indie pop nascido em 2014, que deixou de queixo caído todos os presentes na Feira da Bandida. Foi fácil rendermo-nos à voz de Margarida Falcão – que tem também uma banda com a irmã, as Golden Slumbers – e à musicalidade de Luís Monteiro e Ricardo Nagy. Toda a sonoridade convida a fechar os olhos e a embarcar numa viagem, num sonho que nos transporte para um qualquer local que a voz de Margarida nos queira levar. É sentir a leveza, a simplicidade e a sensibilidade juvenil a arrepiar a pele. Podíamos ouvir isto sempre.

Um intervalo entre cada banda significa uma coisa muito simples: hora de ir reabastecer o copo com mais uma dose de Bandida do Pomar para fazer companhia durante os concertos seguintes.

A artilharia pesada começa a montar-se no palco improvisado. Tapetes para um lado, guitarras para outro e mais um microfone aqui – a agitação adensa-se. Os Flying Cages preparam-se para tomar conta da Feira da Bandida e deixar todos com vontade de levantar o rabo do chão e dançar. A banda original de Coimbra – de onde nem só o espírito académico é bom, a música também – trouxe um instrumental incrivelmente bem tecido, pormenorizado e com ganas de rasgar o que quer que lhe aparecesse à frente.

Flying Cages

O grupo constituído por Zé Maria Costa, Bernardo Franco, Francisco Frutuoso e Rui Pedro Martins está a ultimar o segundo disco, previsto sair do forno já em março.

Depois dos Flying Cages – e porque a festa não pode parar – viajamos de Coimbra para Leiria. Conseguem adivinhar? O talento musical em Portugal cresce como cogumelos e em Leiria também se faz boa música. Mais uns adereços para o cenário e uma série de instrumentos e estamos prontos para recebes os Nice Weather For Ducks, acompanhados por um membro dos românticos igualmente leirienses First Breath After Coma.

Nice Weather For Ducks

Os temas de Love Is You And Me Under The Night Sky levou todos a repensar se deveriam estar sentados nos sofás e nos tapetes ou se estava na hora de arrebitar e elevar os Nice Weather For Ducks ao altar que merecem. Uma instrumentalidade poderosa com uma harmonia sonora ainda mais incrível marcaram o concerto do grupo de Leiria.

Já repetentes no Sofar Sounds Lisbon, os Galgo picaram o ponto na Feira da Bandida e provaram, mais uma vez, que nunca, mas nunca é demais vê-los e ouvi-los. Apesar de curta, a atuação foi como se estivéssemos a rever tudo pela primeira vez. Era notória a surpresa e a satisfação de muitos dos ali presentes que claramente não sabiam quem eram os Galgo, mas que decerto e tão cedo não se vão esquecer.

Galgo

O novo álbum Pensar Faz Emagrecer trouxe Pivot, Lugia e rebentou a escala (como sempre) com Skela. A voz enfurecida de Alexandre, os acordes irados de Miguel, o dedilhar do João no baixo e o espancar de bateria da Joana trazem à tona a fúria, a megalomania sonora de uma banda como os Galgo.

As horas passaram e a noite já ia longa, mas não o suficiente para pôr fim à festa. Houve tempo, sidra e energia que bastassem para ainda dançar ao som de Sleep在patterns, o DJ que fechou a Feira da Bandida da melhor maneira possível.

Num tom fugitivo – como a raposa da Bandida – ao intimismo habitual do Sofar Sounds, a vontade para mais deixa sedentos os “clientes” do costume deste conceito e os mais novatos. E como não queremos que vos falte nada e que ainda corram a tempo para as inscrições, sublinhem nos vossos calendários de parede ou ponham alertas no telemóvel para os dias 18 e 26 de fevereiro – as próximas edições do Sofar Sounds Lisbon.

A música é, de facto, um bicho que cresce e que faz cada um de nós afetar-se e ligar-se ao mundo.