A língua é outra, mas isso pouco importa. Pelo menos, assim o considera JP Simões, que agora se chama Bloom. Escrever músicas em inglês não é estranho para o cantautor que conta já com inúmeras letras escritas nessa mesma língua, mas Tremble Like a Flower marca a estreia discográfica do seu alter-ego.

Depois de 1970 (2006), Boato (2009), Onde Mora o Mundo (2011) e Roma (2013) enquanto JP Simões, o novo disco carrega influências de David Bowie – no título do álbum -, mas principalmente de Nick Drake. Esta nova aventura inicia assim um capítulo na vida, sempre incompleta, do cantor. A entrevista segue nas linhas seguintes e o álbum está disponível aqui:

Espalha-Factos – Dois mil e Dezasseis foi um ano duro. Leonard Cohen e David Bowie partiram e o JP viu-se obrigado a despedir-se de duas das suas maiores referências. Este novo álbum tem muito deles os dois?

Bloom – Musicalmente tem muito pouco, ou seja, são músicos sempre presentes na minha vida – Bowie principalmente – e lastimei imenso a partida de ambos, mas não têm qualquer proeminência como referências estéticas neste trabalho. A composição das canções, a forma de tocar e a estrutura dos temas, teve referências inspiradoras como Nick Drake, Norberto Lobo, Jim O’Rourke ou Tinariwen (entre muitos outros, com presenças mais ou menos (des)apercebidas): isto porque tentei encontrar espaços e sentidos semelhantes ao que a escuta destes músicos me suscitava, mas, ao mesmo tempo, procurei não decalcar a expressão de nenhum deles.

Depois, os arranjos e o desenho do som vieram preencher e exaltar o espaço já aberto pelas canções, optando pela luminosidade e pela sugestão de espaços amplos e selvagens, terrenos ou extra-terrenos, psicadélicos, à falta de termo mais preciso.

O último tema a ser composto, Tremble like a Flower, partiu de uma ideia simples: o que estariam a fazer agora, 40 anos depois,  os dois adolescentes que aparecem no tema Starman e que anunciam a visita do homem das estrelas? Ou seja: o que sobra da inicial fascinação pela vida e pela bizarria de estar em consciência neste gigantesco lugar a que chamamos mundo? À fascinação, havendo ainda, junta-se a sensação aguda da fragilidade individual na voragem do tempo. E aqui Bowie está evidentemente presente enquanto poeta de referência. O  álbum acabou depois por pedir a frase emprestada como título, na medida em me pareceu que as canções se polarizavam inteiramente nesta tensão entre a idade do corpo e a idade dos sonhos.

EF – A sua aventura pelo cantar em inglês justifica-se pela tentativa de afirmação em novos mercados ou aconteceu de forma natural e apenas por vontade pessoal?

Bloom – Tenho muita música publicada com letra em inglês, daí que a aventura não tenha nada de novo. Foi-me mais aventuroso escrever e cantar em português, a língua mãe de um país em relação ao qual nunca soube bem como me dirigir: se com compaixão ou ironia, esperança ou desespero. Assim, não há neste disco a tentativa de coisa nenhuma senão a afirmação natural do meu novo mercado pessoal.

Admito que escrever em inglês tem-me sido menos claustrofóbico do que suportar as idiossincrasias últimas da língua portuguesa

EF – Escrever em português tem, certamente, uma carga emocional maior e requer um trabalho de escrita mais compenetrado dada a sua complexidade. A fuga para uma língua mais pictórica como a inglesa serve para sair da zona de conforto e experimentar ambientes diferentes?

Bloom – Admito que escrever em inglês tem-me sido menos claustrofóbico do que suportar as idiossincrasias últimas da língua portuguesa, muito embora a compenetração na escrita tenha pouco a ver com a língua que se utiliza e mais a ver com o empenho que se coloca em tornar uma ideia visível e inteligível. Tal como num gesto simples e universal como abanar a cabeça em forma de sim ou abanar a cabeça em forma de não ou abanar a cabeça anti-inconstitucionalissimamente: em Mandarim ou Suaíli, tudo depende do que se aposta por inteiro nesse gesto. De resto, procurei, isso sim, ambientes diferentes na música, estrito senso.

EF – Um conselho para os mais novos e uma das eternas questões: cantar em português ou inglês?

Bloom – Façam o que vos apetecer. É um conselho que se pode dar também aos mais velhos. Se funcionar é porque está certo.

EF – Na música Meeting Time, canta que “seasons come and go, and time will always find it’s way to meet you here, alone with all the thing you’ve left undone”. Este álbum nasceu para que nada ficasse por fazer dentro de si?

Bloom – Está sempre tudo por fazer e por outro lado já está tudo feito: viver é isso.

EF – Numa entrevista que deu à revista Visão disse que este álbum era “mais aguarela”. Quer dizer que se preocupou mais com as sonoridades e como elas soavam no nosso ouvido do que com a mensagem que pretende passar?

Bloom – Sim e não. A música é uma arte abstracta e ao mesmo tempo tem uma capacidade imensa de evocar significados, imagens, sensações e sentimentos em quem a escuta. Para produzir música, tudo de todos os sentidos pode servir de referência: também, para falar sobre a música que se produziu pode-se recorrer a todas as artes e adjectivações de forma a encontrar analogias que sirvam uma boa descrição. O termo aguarela, pintura em cores esbatidas e suaves, serviu de analogia para a minha música em contraponto, por exemplo, à caricatura a lápis ou ao retrato ou paisagem hiper-realistas. Procurei evocar nesta música clareza e serenidade, menos iconografia e mais filantropia.

Se por mensagem se entende “proposição de carácter moralizante, em forma mais poética ou mais panfletária”, então a mensagem nunca me interessou. E, para finalizar, longe de mim preocupar-me com os ouvidos dos outros –creio que isso é até anti-democrático.

EF– Sente que, como diz a canção, é o início de uma estrada que conduzirá a outras novas? Podemos esperar novos discos?

Bloom -Absolutamente.

EF – O que é que este alter-ego traz de novo comparativamente com JP Simões?

Bloom – O nome, a música, a forma, o conteúdo, os métodos, os objectivos e as pessoas envolvidas

Há uma diferença flagrante entre colocar vigorosamente um like numa campanha de defesa dos direitos humanos e imolar-se pelo fogo em nome da auto-determinação.

EF – O álbum termina com uma homenagem a Jan Palach, jovem que se autoimolou em praça pública num protesto político contra o comunismo russo. O porquê da homenagem e de terminar o disco a cantar “burning like the sun, dreaming like the sun. See me burn, see me burn”?

Bloom – Há uma diferença flagrante entre colocar vigorosamente um like numa campanha de defesa dos direitos humanos e imolar-se pelo fogo em nome da auto-determinação.