Fragmentado assegura-nos que, para o bem e para o mal, Shyamalan ainda é um dos poucos cineastas em atividade no mainstream americano que vai consolidando, filme após filme, o seu próprio universo.

Quer isto dizer que as ideias, e, sobretudo, as imagens de Shyamalan apresentam-se-nos simultaneamente tridimensionais, porque já as aprofundou em mais que uma obra, e viciadas, porque é possível identificar os lugares-confortáveis do seu cinema, que não serão tão comuns quanto isso se deles nos afastarmos o suficiente para os ver inseridos na totalidade do que hoje se faz em Hollywood.

Não nos espantam, por isso, os jovens heróis, os eleitos, os seres sobre-humanos ou não-humanos e as inclinações místicas de Fragmentado. O que aqui há de verdadeiramente surpreendente é a fluidez deste novo registo, é a sensação de que estamos perante um thriller razoavelmente competente – coisa que não sentimos em A Visita, rígida coleção de rascunhos de sustos, brincadeiras meta-cinematográficas e esquisitices (ou tentativas de tornar esquisito o que se ficava pelo ridículo).

A nulidade do tempo presente

Comecemos, ainda assim, pelas más notícias. Em Fragmentado, Shyamalan volta a incorrer naquele que porventura sempre foi o erro fundamental do seu cinema: a orientação excessivamente teleológica das possibilidades do filme, como se tudo fosse sempre pensado em função do fim da narrativa, geralmente coroado com um twist imprevisível – que, desta vez, é algo bem mais aborrecido que isso, mas já lá vamos.

Desculpa-se a pressa de chegar a uma resolução por ser o típico regime temporal dos policiais – não será de estranhar que Agatha Christie se encontre entre as referências literárias de Shyamalan.

O que dificilmente se perdoa é a nulidade do tempo presente em Fragmentado: são raras as vezes em que damos por nós a pensar no que está, de facto, a acontecer, sem que nos percamos por completo em adivinhas e hipóteses de desfechos mirabolantes para a narrativa.

O cinema de Shyamalan continua, por isso, a viver à sombra do futuro, de um grande clímax que justifique tudo o que veio antes. Em termos muito práticos, esta ansiedade traduz-se num efeito de suspense mais insistente que eficaz. E, na ausência de compassos de espera que autorizem o espectador a respirar fundo, acrescentam-se doses de humor pouco recomendáveis que, não surgindo como uma pausa ou alternativa viável ao thriller, apenas o contradizem (não é de Lynch nem de Verhoeven que falamos, importa lembrar).

A premissa de Fragmentado também é, no mínimo, problemática, mas isso nem sempre foi uma desvantagem para Shyamalan, que já provou ser capaz de fazer filmes notáveis a partir de histórias difíceis, nas quais poucos se atreveriam a tocar. Basta recordar a admirável alegoria de A Vila, que também tinha a sua reviravolta, é certo, mas que, pelo caminho, nos levava a colocar algumas questões políticas inesperadas. Já Fragmentado é demasiado literal para ser outra coisa para além do freak show que imediatamente é.

A sinopse: Kevin (James McAvoy), que sofre de um transtorno de personalidade múltipla, rapta três raparigas adolescentes para pôr em marcha um obscuro plano que as tem como peças essenciais. Sobre o cliché da demonização das doenças mentais não adianta escrever muito, visto que aqui ele é um pouco mais tolerável que o costume – o mal que aflige Kevin é uma monstruosidade, não tanto uma doença.

E todavia, a ideia de ter um vilão desconjuntado, dentro do qual 23 personalidades diferentes lutam para assumir o controlo da sua vida consciente, seria suficientemente intrigante para que não fossem precisos muitos floreados e grandes ficções científicas, mas Shyamalan prefere levar tudo à letra. Investe em psicologismos e “neurologismos”, e quando ambos falham contenta-se com a lógica dos super-poderes e das mutações, dando ao filme uma aura de banda desenhada que, neste caso, nos parece contraproducente. Adquirido o estatuto de super-vilão, depressa vai pela janela fora a especificidade do monstro, para que tudo acabe por degenerar num jogo de presa e predador como tantos outros.

Como se explica, então, que Fragmentado funcione e haja um certo prazer mecânico em vê-lo funcionar?

Isso dever-se-á principalmente aos dois atores protagonistas: Anya Taylor-Joy (que já nos tinha surpreendido em The Witch, de Robert Eggers) e James McAvoy (que carrega o filme às costas com uma interpretação exigente, por razões óbvias, mas descontraída e aberta às sugestões mais campy do guião).

Eles esforçam-se para manter Fragmentado nos limites do razoável, embora lhes seja impossível fazê-lo superar a sua condição de entretenimento sub-hitchcockiano. A péssima conclusão, desnecessariamente literal como muito neste filme, quase que desfaz esse esforço. Em vez de um twist, temos um asterisco, ou aliás, um reenvio.

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É uma pena: Fragmentado tem duas ou três cenas inteligentíssimas e uma curiosa obsessão pelo lado de fora da linguagem, da humanidade (outra vez os animais, os monstros…), que, num conjunto mais equilibrado, fariam as delícias de quem estivesse à procura de um thriller pensante.

O resultado, contadas as vezes que o filme erra e acerta, é neutro. Fragmentado mostra-se, porém, como uma evolução face ao anterior (A Visita) e está decididamente longe desses flops (The Last Airbender, After Earth) que dinamitaram a carreira de Shyamalan, pelo que resta a esperança de que deste seu lento “regresso” ainda nos chegue, mais cedo ou mais tarde, um bom filme.

5/10

Ficha técnica
Título: Split
Realizador: M. Night Shyamalan
Argumento: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Betty Buckley, Anya Taylor-Joy
Género: Thriller, Terror
Duração: 117 minutos