Chegou às salas de cinema portuguesas o grande favorito dos Oscars deste ano e uma das mais irrepreensíveis obras do cinema contemporâneo: La La Land, o musical de contornos épicos de Damien Chazelle, realizador de Whiplash.

O filme chega e, de imediato, nos arrebata dentro da sala escura que vai sofrendo de uma histérica e gloriosa mutação que nos transporta para a época de ouro dos musicais clássicos de Hollywood com Fred Astaire e Ginger Rogers.

A história de La La Land é muito simples; um pianista de jazz conhece uma aspirante a atriz em Los Angeles e rapidamente se apaixonam. Um musical sobre os sonhos e os obstáculos de os seguir. Sebastian (Ryan Gosling) quer abrir um clube de Jazz, um estilo de música que está a morrer. Mia (Emma Stone) quer ser uma atriz consagrada, mas em todas as audições a rejeitam.

Esta obra de Chazelle é talvez uma da experiências cinematográficas mais puras que senti em sala nos últimos anos. Voltamos à espectacularidade do cinema de atração, olhamos para a tela com a mesma admiração e da mesma forma enfeitiçados como aqueles que assistiram ao cinema de feira dos Lumière ou às fantasiosas obras de Méliès. É um filme que nos consome por completo e que nos transporta numa nostálgica viagem de homenagem a um género agora obsoleto.

Damien Chazelle o “louco”, o que se atreveu a escrever um musical de raiz na época das réplicas e do simulacro, das continuações, spin-offs e remakes, apresenta-nos uma intemporal obra que não pretende reabilitar este género que caiu em desuso.

La La Land despe-se desse pretensiosismo e assume-se apenas como obra-tributo e não como obra-fundadora. Assume-se como uma carta aberta de admiração à vibrante Hollywood perdida. Uma celebração contemporânea do género imortalizado por Stanley Donen, Jacques Demy e Vincente Minnelli.

Admito no entanto que não consigo partir de uma posição imparcial quanto a este género e filme. Por ser eu próprio um imenso admirador do género musical é que talvez este filme se tornou tão facilmente em algo tão especial.

Um dos únicos presentes de 2016

Os maneirismos de Stone e Gosling, os passos de dança, os números musicais. Tudo se afunila à minha volta, as pessoas desaparecem, tal e qual como acontece com MiaSebastian na grande tela. Sou transportado para o sapateado de Astaire em Top Hat, para o número à chuva de Kelly em Singing in the Rain, para o An American in Paris, para os salões da cidade luminosa, repletos de caras tão conhecidas e música tão estridente e viva. Por momentos esqueço-me do que me rodeia, o mundo pára e há apenas música.

E este poder de La La Land em nos alhear da nossa realidade é talvez o maior trunfo e razão do seu sucesso e aclamação. Este filme é o demonstrar que a esperança não morreu e uma contra-corrente ao ambiente mundial de desalento, medo e tensão. É uma obra de que todos nós precisávamos e talvez um dos únicos presentes do ano de 2016.

Chazelle é também inteligente na maneira que escreve o argumento. O filme cria o efeito imersivo não só através da panóplia de referências, mas ao se instalar no imaginário do espectador que o consegue, muito facilmente, transportar para a sua rotina vulgar.

O realizador/argumentista consegue criar este feito de contágio com a história de Mia e Sebastian, captando com as experiências das personagens principais as inseguranças, medos, frustrações, alegrias, esperanças e sonhos de todos nós. Quantas vezes não se fecharam portas? Quantas vezes não pensámos em desistir sem realmente o fazer? Quantas vezes não deambulámos nós com a nossa imaginação pelas luzes e fumos da nossa cidade?

É um filme que nos compreende enquanto seres angustiados mas sempre sonhadores. Uma obra que apela àquilo que sempre nos guiou enquanto raça humana: a nossa necessidade de arriscar, de nos alimentarmos através do desconhecido e da aventura, da luta e da incerteza.

Esta é uma fábula de Chazelle que tudo tinha para cair no cliché, na vulgar efemeridade tão característica do cinema de hoje em dia. Mas é uma história que em vez de ignorar os clichés do género, os usa para enganar o espectador. E o espectador gosta que Chazelle o engane, e é por causa desta relação ambígua que vamos criando com o filme ao longo dos números e transições que o epílogo resulta tão bem. Um plano sequência perfeito que fecha o filme com chave de ouro.

Juntando ao argumento a delicadeza e, por vezes, demência na entrega de Emma Stone e a eficácia de Ryan Gosling, Chazelle cria aqui um par de Hollywood que nos faz recordar duplas lendárias do cinema, como Astaire e Rogers, Kelly e Reynolds, Bogart e Bergman.

Os atores complementam-se e Stone transcende-se a ela própria. É o papel de uma carreira na sua generalidade boa, mas não extraordinária. Emma eleva Mia de uma personagem-tipo sem luz e tão igual a tantas outras para um patamar de unicidade e gracioso magnetismo.

Em suma, La La Land é uma obra definidora na carreira de Damien Chazelle. É ele próprio o sonho de um realizador que consegue dar vida material à música, vimos isso em Whiplash e agora também aqui. É um filme que se aproxima perigosamente da perfeição e, por isso, que irrita muito boa gente que o prefere renegar e descredibilizar, a aceitar que o bom cinema também pode chegar às massas.

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Uma declaração de amor de ChazelleJustin Hurwitz ao cinema, uma homenagem àqueles que ousam sonhar; aos tolos, poetas, pintores e artistas. Um relembrar aos quebrados e aos desistentes que a vida, tal como o cinema e a música, é mágica e que os nossos únicos limites são aqueles que impomos a nós próprios.

10/10

Ficha Técnica
Título: La La Land
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling
Género: Comédia, drama, musical
Duração: 128 minutos