Moonlight é apenas a segunda longa-metragem de Barry Jenkins, mas este seu filme é hoje um dos mais antecipados deste ano e da corrida aos Oscars, contando com 8 nomeações aos prémios da Academia. A pergunta que nos surge de imediato é: será que Moonlight sobrevive à sua própria popularidade?

Uma história intemporal de auto-descoberta e conexão humana, Moonlight narra a vida de um jovem negro que desde a sua infância até à idade adulta luta para encontrar o seu lugar no mundo, enquanto cresce num bairro nos subúrbios de Miami.

Este é talvez o único filme que consegue fazer frente ao imparável musical de Damien Chazelle nos Oscars deste ano. É uma obra que tem sido aplaudida pela crítica e que marca uns extraordinários 99 pontos no metascore.

Mas será este um filme assim tão fora do comum? Apesar de considerar um exagero a reação histérica da grande parte da crítica, é um facto que Moonlight é um bom filme e o que melhor consegue fazer é materializado pelas performances do elenco: a construção das personagens.

Este filme de Jenkins vive essencialmente da entregas de atores como Mahershala Ali, Naomie Harris, Alex R. Hibbert e Ashton Sanders. São eles que elevam Moonlight e que nos transportam para a história de uma maneira quase magnética.

Naomie Harris, nomeada para o Oscar de melhor atriz secundária, passa por uma espantosa evolução no grande ecrã. Quando entra em cena, o espectador não consegue desviar o olhar, de tão magnífica enquanto Paula, a mãe do pequeno Chiron.

É neste escrutínio contínuo que temos das personagens, muito graças às palavras de Jenkins no argumento que foi por si adaptado de uma história de Tarell Alvin McCraney, que o filme realmente se ultrapassa a si próprio. É ao observar os medos, desejos, alentos e desilusões que vamos sendo cada vez mais transportados para Liberty City e para a vida do pequeno Chiron, personagem pela qual nos vai crescendo um sentimento fraternal à medida que os atos vão passando.

A divisão deste filme em atos é também por si um utensílio usado com alguma inteligência por parte do argumentista, que ocupou também a cadeira de realizador. Jenkins ajuda o desenvolvimento da personagem de Chiron com algumas pistas que nos vão sendo lançadas em forma de intertítulos, e que nos guiam cada vez mais para dentro da psique da personagem principal. É uma viagem ao interior das personagens que Jenkins propõe com Moonlight, e não uma vincada crítica ao contexto em que elas se inserem. Os espectadores deambulam por espaços não físicos, pelas frustrações e desejos de Chiron, pelos vícios, medos e fantasmas de Paula e não tanto pelas ruas de asfalto quebrado de Liberty City.

É também pela fotografia que Moonlight chega tão próximo até nós. Não sendo pautada por ser extraordinária, tem planos puramente exímios, como os de Harris em tons de neon e sem o uso de som. É neste tipo de cenas que se nota a segura realização de Jenkins que, apesar de não ser perfeita, é eficaz no contar a história destas incríveis personagens.

Além dos atores, argumento e fotografia, este filme vive pela experiência que proporciona ao espetador. É um filme que nos faz sentir empatia pelas suas personagens e também uma obra que, muito ao de leve, toca em debates e assuntos fraturantes da nossa sociedade, principalmente da americana, levando-nos a um debate interno de questionamento da nossa própria realidade.

No entanto, há algo em falta neste filme. Parece que saímos da sala com vontade de mais, de algo que eleve este Moonlight de Jenkins da categoria do bom para o inesquecível. O que acaba por não acontecer.

7/10

Ficha Técnica
Título: Moonlight
Realizador: Barry Jenkins
Argumento: Barry Jenkins baseado na obra de Tarell Alvin McCraney
Elenco: Mahershala Ali, Naomie Harris, Alex R. Hibbert, Ashton Sanders.
Género: Drama
Duração: 111 minutos